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Última modificação setembro 19, 2026

Musical fala a diferentes gerações

Adaptação teatral do livro “Feliz Ano Velho” aposta em encenação atemporal e sucessos dos anos 1980

Bruno Garcia, Hugo Bonèmer e Heloísa Périssé , elenco de "Feliz Ano Velho". Foto: Divulgação

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    A história de Marcelo Rubens Paiva volta aos palcos de São Paulo, desta vez cantada.

    Feliz Ano Velho, o Musical estreia no Teatro Sabesp Frei Caneca, na região central, sob direção de Gustavo Barchilon, com dramaturgia de Marília Toledo e trilha sonora com canções de Cazuza, Renato Russo, Lulu Santos e Titãs. Em cartaz até 22 de novembro, o espetáculo tem Hugo Bonèmer, Bruno Garcia e Heloísa Périssé à frente de um elenco de 17 atores.

    A ideia da peça nasceu bem longe dali. Em 2023, numa viagem a Londres, Barchilon assistiu a “The Little Big Things”, musical adaptado das memórias de Henry Fraser, jovem que ficou tetraplégico após um mergulho em águas rasas e que reconstruiu a vida como pintor.

    Emocionado, o diretor ligou para a mãe contando que queria trazer a peça ao Brasil, mas a resposta veio pronta: “Ué, Gustavo. Mas isso aí é ‘Feliz Ano Velho’…”.

    Heloísa Pérrisé, Hugo Bonèmer, Bruno Garcia, Ingrid Gaigher e João Côrtes em “Feliz Ano Velho”. Foto: Priscila Prade / Divulgação

    Livro marcou uma geração

    Publicado em 1982, “Feliz Ano Velho” foi o livro de estreia de Marcelo Rubens Paiva, também autor de “Ainda Estou Aqui” (2015).

    Nele, o escritor relata o acidente que o deixou tetraplégico e o processo de recuperação, intercalado com digressões sobre a faculdade, as incursões na cena musical, os romances da juventude e o desaparecimento do pai, Rubens Paiva, pelas mãos da ditadura militar.

    Considerado um clássico da não-ficção brasileira, o livro retratou os anseios de uma juventude que, no fim dos anos 1970, vivia a abertura política e o sonho da redemocratização.

    Parte de sua longevidade está no tom: um humor despretensioso, que afasta a autopiedade sem abrir mão da honestidade. Vencedor do Prêmio Jabuti de Autor Revelação, foi traduzido para vários idiomas e já ganhou versões para o cinema, a ópera e o teatro.

    Homenagem musical

    Marília Toledo escreveu o texto a partir do romance e da primeira montagem teatral da obra, assinada por Alcides Nogueira Pinto.

    Aquela versão, dirigida por Paulo Betti, foi protagonizada por Marcos Frota e trazia a jovem Lília Cabral em sua estreia nos palcos, ao lado de Adilson Barros, Christiane Rando, Denise Del Vecchio e Marcos Kaloy.

    “A primeira montagem abriu muitos festivais de música e de rock”, conta Barchilon. “O Marcelo é muito amigo do Legião, do Paralamas, ele próprio abriu muitos festivais e muitos shows. Foi por isso que sugeri colocarmos as músicas dos anos 1980 na nossa versão musical.”

    Fã do livro desde a adolescência e, anos depois, amiga do escritor, Marília descreve a adaptação como “uma emoção gigante”, e diz que seu método começou pela trilha sonora.

    “Meu processo de escrita começa pela elaboração de uma playlist. Eu fico ouvindo as músicas sem parar, para entender quais letras vão fazer sentido em cada momento da dramaturgia.”

    O resultado é um musical jukebox, uma peça construída sobre canções já existentes.

    “O eixo é o Marcelo e o que aconteceu com ele, alternando com idas e vindas no tempo”, explica a dramaturga. “Eu criei um personagem que é o Marcelo-de-hoje e que tem essa função dramatúrgica de mostrar para o Marcelo-jovem que o caminho vai ser bonito. Então, ainda tem essa camada de diálogo com o futuro.”

    O próprio Marcelo aprovou o casamento entre sua obra e o repertório da época.

    “Primeiramente, porque me tira um pouco a responsabilidade de ser só sobre mim”, disse o escritor. “Também está sendo sobre Cazuza, sobre Renato Russo, sobre toda essa geração. Renato e eu, a gente era brother. Cazuza era muito meu amigo. Fico emocionado de estar com eles nesta peça. Talvez isso seja o grande barato desse musical: não vai ser apenas a história do garoto que tem um corpo que não lhe pertence mais, mas a história de uma geração que está buscando o futuro. Estamos saindo deste buraco que foi a ditadura, qual projeto de país a gente quer?”

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    Se a trilha está ancorada na década em que o livro saiu, a encenação corre por fora do tempo.

    “Todo clássico é atemporal”, comenta Barchilon. “Eu tive receio de fazer algo datado se cravasse a encenação naquela época. Essa história pode acontecer em qualquer momento, e isso gera identificação. Por isso que eu trouxe essa encenação atemporal porque, as pessoas se conectam. As músicas também são atemporais, e todo mundo conhece, tanto as pessoas mais jovens como as mais velhas.”

    O elenco também reúne pessoas de diferentes gerações: Hugo Bonèmer vive o Marcelo jovem; Bruno Garcia, o Marcelo adulto e o pai dele, Rubens Paiva; Heloísa Périssé interpreta Eunice Paiva.

    Completam o grupo Bárbara Sut, Bibi Tolentino, Giselle Lima, Ingrid Gaigher, João Côrtes, Lázaro Menezes, Lia Canineu, Luciano Mallmann, Mateus Ribeiro, Mattilla, Renan Mattos, Sabrina Korgut e Tuna Dwek.

    Bonèmer conta que encara esse papel sem o peso que sentiu em outra composição biográfica.

    “Eu sentia essa responsabilidade quando interpretei o Ayrton Senna, porque representá-lo é sempre lembrar as pessoas de que ele não está mais aqui. Já o Marcelo ainda está.”

    O escritor pediu que o ator não o imitasse, o que foi ponto de concordância entre eles.

    “A imitação de trejeitos ou da voz não faz parte da minha proposta de atuação. E nem representar a deficiência de uma maneira formatada. O que mais me interessa está nas relações do Marcelo com as pessoas do entorno: como ele agia com a mãe, como falava com os amigos, como flertava. Eu fico atrás dele o tempo todo perguntando coisas.”

    Bruno Garcia, que assistiu à montagem original em Recife (PE), diz achar mais difícil interpretar quem ainda está vivo, mas ele fala que aproveita a presença de Marcelo nos ensaios para pensar “não só sobre quem ele é ou como se sente, como também sobre o próprio pai, o Rubens”.

    Hugo Bonèmer e Bruno Garcia em “Feliz Ano Velho”. Foto: Priscila Prade / Divulgação

    História em comum

    Para Heloísa Périssé, mais conhecida pelo trabalho em comédias, o papel abriu uma porta pessoal: sua irmã caçula ficou paraplégica após um acidente aos 14 anos.

    “Visitar esse universo dessa forma é acessar lugares aos quais eu não tenho hábito de ir. Só que, depois do acidente, minha irmã se formou em direito, hoje tem um grande escritório de advocacia de imigração em Miami, casou e teve dois filhos. Assim como Marcelo é hoje um grande escritor. O que eu acho bonito nessa história é saber que a vida continua, que um acidente não te determina.”

    Na Eunice que interpreta, ela afirma ver “uma sobriedade, uma força silenciosa. Quando o marido se foi, ela também reinventou sua vida estudando, se formando… ela tem esse pulsar de vida que é uma lição muito importante de a gente aprender.”

    Heloísa Périssé e Bruno Garcia. Foto: Priscila Prade.

    Cadeirante, Luciano Mallmann interpreta o médico que acompanha a recuperação de Marcelo no hospital, uma inversão que ele faz questão de apontar: “Isso evidencia que uma pessoa cadeirante pode fazer qualquer coisa na vida.” Para ele, a obra ultrapassa o relato de uma deficiência:

    “Ela fala sobre esse momento no qual chega um acontecimento imposto, que você não estava planejando, e passa a tem que dar um jeito de mudar a rota. O livro fala de juventude, fala de sexualidade, são muitas camadas.”

    Tuna Dwek observa que a história ecoa de um jeito diferente em cada integrante do elenco.

    “Eu sobrevivi à ditadura, então, para mim, essa peça é muito pessoal. Também temos um cadeirante no elenco, e isso torna a peça pessoal para ele.”

    E arremata: “Todo mundo tem, dentro de si, uma gaveta cheia de dores. Ao tornar essa dor pública, nós a transformamos em universal. O que não é universal é o que você faz com ela. Aqui a gente tem uma peça onde ninguém está amargurado. Marcelo nunca caiu no vitimismo.”

    O resultado disso, para ela, é que o elenco se transformou em um verdadeiro coral e, por mais que se tenha protagonistas, Tuna percebe um ‘espírito hippie’ neste coletivo. “Cada um que está no elenco tem uma história, isso se transformou em empatia, solidariedade, uma entrega de todo mundo”, finaliza.

    Onde ver?

    Teatro Sabesp Frei Caneca (Shopping Frei Caneca)
    Frei Caneca, 569 – Consolação
    @teatrosabespfreicaneca | @felizanovelhomusical
    Sextas-feiras, às 20h | Sábado, às 17h e 20h | Domingos, às 15h e 18h
    Até 22 de novembro
    De R$ 25 (meia-entrada) até R$ 240 (inteira)

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.