Não existe um texto de “Sidarta”. Nenhuma folha impressa nos bastidores dos teatros, nada para o ator repassar antes de entrar em cena, nenhuma ‘deixa’ marcada para a equipe técnica seguir.
O que existe é um homem, um tapete persa, um castiçal com uma vela e uma história, que Angel Ferreira leu e releu por quatro anos, até que ela deixasse de ser apenas um livro e passasse a ser algo que ele simplesmente sabe contar.
A preparação do artista para fazer o monólogo “Sidarta” começou durante o período da quarentena da pandemia de Covid-19, um processo que se tornou tão extenso quanto cuidadoso. Sentindo que precisava resgatar um propósito para si mesmo e com a necessidade de retornar aos palcos, o Angel Ferreira intuiu que a solução seria adaptar o romance homônimo de Hermann Hesse (1877-1962), publicado em 1922.
O resultado desse processo pode ser visto pelos paulistanos no Teatro Estúdio, localizado no bairro Campos Elíseos no Centro da cidade, desde o início agosto. Mesmo antes da estreia, o espetáculo teve seus ingressos esgotados, o que levou à prorrogação da temporada até o dia 27 de setembro.
A trama acompanha Sidarta, um filho de Brâmane que deixa a casa dos pais, ao lado de seu melhor amigo, Govinda, para se tornarem samanas – uma vertente espiritual que busca a iluminação através da mortificação do corpo. Em seguida, desconfiado e desiludido com as doutrinas, Sidarta conhece o próprio Buda, mas também se afasta dele, determinado a encontrar seu próprio caminho.
Em entrevista para o Viva a Cidade, Angel contou que considera a história muito inspiradora. “Ela é um romance de formação, sobre um personagem que está em busca e também desassossegado”, explicou.
“Tudo o que ele precisa, mas não tem, é paz. Eu acho esse paradoxo muito interessante. Eu sentia que tinha muito a aprender com esse personagem e com esse livro.”

Angel Ferreira, em apresentação de “Sidarta”. | Foto: Claudio Pitanga / Divulgação
Criação construída
O projeto teve início com um convite inusitado: Angel propôs ao amigo Ricardo Cabral, da companhia carioca Teatro Caminho, passarem uns dias na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A ideia era propor que Ricardo o dirigisse na adaptação do livro para o teatro. “Mas eu avisei que ainda não tinha lido o livro”, confessou.
O amigo achou o convite maluco, mas topou. Combinaram que, se não estivessem gostando do projeto, fariam outra coisa.
“Acabou que a gente ficou mais amigo ali, durante a pandemia do que ficou trabalhando no ‘Sidarta’ mesmo. Ele foi a primeira pessoa que passou [pelo projeto]. Depois, muitas outras vieram e passaram também, deram suas contribuições. E eu fiquei quatro anos lendo e relendo esse livro, com muita calma. Ia para beira do rio… ficava lá lendo… sozinho…”, contou.
Com o passar do tempo, ele começou a contar a história, de maneira improvisada, para pequenos grupos.
“Eu já tinha lido e relido o livro tantas vezes, que não precisei decorar o texto. Conhecia a história, e isso me permitiu começar a contar ela”, explicou.
O ator ficou cerca de um ano e meio ‘contando’ a história de “Sidarta” dessa forma, até que ela “foi virando a peça, foi chegando a equipe, e tudo foi acontecendo.”
De uma informalidade ao espetáculo
Até hoje, essa adaptação não ganhou uma versão escrita: não há um texto que sirva de suporte, tanto para Angel ensaiar, quanto para a equipe técnica executar o espetáculo.
Talvez por isso, durante a entrevista, o ator não falou sobre o trabalho usando verbos como ‘interpretar’ ou ‘atuar’ – preferiu empregar sempre o termo ‘contar’.
Ele lembra que, no período em que contava a história de maneira informal, desafiava-se a fazer a ‘edição’ das cenas, escolhendo o que narrar e o que deixar de fora, durante as apresentações.
“Esse processo foi muito estimulante, mas teve uma hora em que senti que estava estressado, por ter de ficar editando enquanto eu contava”, explicou.
Foi então que Marcela Casarinho, amiga e produtora dos espetáculos de Angel, sugeriu que organizassem uma pauta, com uma vaga, em algum teatro, para encenar o monólogo.
“A gente falou: vamos arrumar uma pauta porque, aí, a ‘água vai bater na bunda’, e a gente vai se virar. A necessidade faz o sapo pular”, falou.
Eles conseguiram um espaço disponível na sede Cia dos Atores, na região de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, só que a data de estreia estava muito próxima.
“Foi quando eu pensei que precisava de uma equipe, o que foi ‘um furo de pauta’. Então, eu não tive muito tempo”, revelou Angel.

Apresentação de “Sidarta” no Teatro Poeira, em temporada carioca. | Foto: Claudio Pitanga / Divulgação
Naquele momento, foi criada a equipe atual do espetáculo, com Beth Martins e Renato Livera, assinando juntos a direção, e Tatiane Calandrini, na assistência de direção. Eles tiveram dez dias para ensaiar e estruturar a peça, período em que o grupo se dedicou a criar um ritmo e os pilares da peça.
Ainda que não houvesse um texto fixo, a história tinha ‘zonas’ pelas quais Angel sabia que teria de passar.
“Fomos criando algumas orientações muito simples, mas que vinham da maneira como o meu corpo queria se movimentar. Tinha coisas que a equipe me observava contando e falava: ‘poxa, isso aqui é legal, mantém’. Então, era muito como o meu corpo ia revelando essa história.”
Ele diz que todo o processo foi baseado em muita observação e contemplação.
“Acho que essa foi uma de nossas ferramentas principais: deixar o prazer, a coisa acontecer, o fluxo vir, contar… E ir observando. Foi um processo muito calmo, não-racional, não-mental. A gente não fazia escolhas do que seria melhor, mas a partir de como o corpo ‘queria falar’ aquilo. Embora essa forma final da peça tenha se dado em 10 dias, ela é fruto de muito tempo assim, de gestação deste trabalho.”
Viajando com “Sidarta”
“Sidarta” estreou oficialmente em 12 de julho de 2024, na Sede Cia. dos Atores, onde ficou em cartaz até 18 de agosto daquele ano.
A encenação é mínima: o cenário é composto apenas por um tapete persa, e os únicos adereços são um castiçal com vela e um fósforo. O figurino de Angel, no início da peça, é uma camisa branca e uma calça ocre; porém, ele passa boa parte da contação despido e, em uma cena, veste apenas meias pretas e um roupão vermelho.
A impressão que se tem é de que a equipe criativa foi ‘limpando’, aos poucos, os elementos cênicos, até chegar ao que seria apenas o essencial para a montagem.
“Essa busca do essencial conversa com a própria narrativa. O personagem também está ali o tempo inteiro se desapegando, se desfazendo da ideia que ele tinha de quem ele era, e se abrindo de novo e de novo, deixando tudo para trás”, reflete o ator.
Ele afirma que, até por isso, não consegue se imaginar fazendo a peça totalmente vestido, e diz enxergar na nudez um sentido simbólico.
“Até tentei botar mais figurinos e trocas [de roupas] em alguns ensaios, mas aquilo me aperreava. Eu ficava meio desconfortável, não me parecia ter a ver com a peça”, contou.
Além disso, esse caráter ‘minimalista’ também conversou com a vontade de Angel de encenar um espetáculo ‘que coubesse numa mala’ e pudesse ser apresentado em diversos cantos do país.
“Sempre participei de peças grandes, que eram caras para deslocar. Queria autonomia, uma coisa leve. E eu realmente viajo com ‘Sidarta’. Chego em vários lugares e, às vezes, eu decido contar a peça de um dia para o outro. Pode ser numa cidadezinha, num centro de cultura, no fundo de uma igreja, uma pracinha, um sei-lá-o-quê. Eu já apresentei essa peça em várias situações diferentes. Já contei ela inteira ao lado de uma fogueira.”

“Sidarta” é dirigido por Beth Martins e Renato Livera, com interlocução dramatúrgica de Walter Daguerre. | Foto: Claudio Pitanga / Divulgação
Dessa forma, o espetáculo tem duas maneiras de ser apresentado: apenas com tapete e vela, além da iluminação que estiver disponível no local, ou com o aparato de iluminação de um teatro convencional.
Nos teatros, a iluminação da peça é idealizada por João Gioia e Renato Livera, e assume um caráter preciso: ela delimita espaços, cria ambientes por meio de troca de cores, além de gerar sensações, como a de que o tapete flutua no vazio.
Ainda assim, da mesma forma que a montagem não tem um texto fixo, a iluminação também é realizada de forma espontânea. “Sinto que a gente dança juntos, eu e quem opera a luz”, refletiu.
“Nesse sentido, sempre tento criar uma relação de conexão realmente sensível com quem está operando a luz. Muitas vezes, prefiro que a pessoa faça ‘na mão’ alguns movimentos, em vez de mecanizar e automatizar tudo. Geralmente passo este desafio para os operadores de luz: peço para eles sentirem a peça, sua pulsação, proporem coisas e sentirem sutilmente a energia da cena para, então, fazer os movimentos.”

Iluminação de João Gioia e Renato Livera evoca as águas de um rio. | Foto: Claudio Pitanga / Divulgação
Desde a estreia “Sidarta”, já foi apresentado em diferentes teatros e casas de cultura do Rio de Janeiro, de Goiás e do Paraná. Cada cidade, cada espaço de cultura, tem um público diferente, que interage, à sua maneira, com o espetáculo.
Angel se diz positivamente surpreso com a reação das pessoas que, de certa forma, confirmam que está no ‘caminho certo’.
“É um espetáculo amoroso, que mexe com as pessoas, faz elas pensarem sobre suas vidas e escolhas, e tem um lugar que é luminoso”, avalia.
Mais do que diferenças regionais, Angel diz perceber uma diferença geracional nas maneiras como o espetáculo é recebido. Por se tratar de um conteúdo filosófico sobre a vida de uma pessoa e por abordar as escolhas feitas nessa trajetória, ele conta que as pessoas mais velhas parecem aproveitar o monólogo de uma maneira mais profunda que os jovens.
“A galera mais velha geralmente fica muito agradecida, e os mais jovens ficam mais encantada. A peça reverbera em outros lugares, sabe? O lugar de identificação é diferente”, ele explicou.
“Quando conto essa história para pessoas que têm pouco mais de 18 anos, percebo que muitas vezes elas gostam do espetáculo, mas não compreendem muito o que leva esse personagem a fazer o que ele faz. Em algum nível, elas ficam um pouco confusas quanto às motivações dele. O que leva ele a ir tão fundo? Que desespero existencial é esse a que ele chega?”, analisa.
O artista diz que também encontra alguns jovens “muito sensíveis, que ficam conectadíssimos com a peça e reverberando ela durante semanas”.
“Eles me falam que a peça mudou suas vidas. Tem gente que me diz isso, volta e assiste a peça 5, 6, 7, 8 vezes. A peça tem isso também, muitas pessoas veem ela muitas vezes”, comenta.
Quanto às diferenças regionais, ele diz perceber que estão mais relacionadas ao nível de familiaridade que os espectadores têm ou não com o teatro.
“Geralmente, em grandes centros urbanos, as pessoas riem mais do espetáculo. Quando vou em lugares muito ‘interioranos’, que não têm teatro, às vezes, as pessoas não sabem se têm a permissão de rir”, exemplifica.
“Então, elas assistem a peça, elas se divertem, mas guardam aquilo com elas, não querem atrapalhar ‘o sagrado’ do teatro. E elas assistem especialmente compenetradas. Eu sinto que, nos centros urbanos, como a oferta de teatro é maior, às vezes, as pessoas assistem um pouco mais despojadas. Enfim, todas essas nuances são muito sutis. Na verdade, sinto que [a peça] é uma história que dialoga muito, de pessoa para pessoa, sabe? Ela se comunica muito com a história de cada um.”

Angel Ferreira no Teatro Poeira, em uma das temporadas cariocas. | Foto: Claudio Pitanga / Divulgação
Passagem do tempo
Angel também diz perceber mudanças, ao longo dos anos, na maneira como ele próprio conta a história. Como o ator também assina a direção geral do espetáculo, ele tem o hábito de gravar algumas apresentações para avaliá-lo.
“Embora eu tenha uma cumplicidade muito especial e uma confiança total na Beth e no Renato, às vezes, eu preciso me ver. Vejo vídeos antigos e percebo que eu não respirava. Eu fazia essa peça como um tour de force, assim; ela era um tiro. Eu não estava consciente da minha respiração; aí mudei o jeito de fazer, entrei numa fase em que procuro equilibrar mais essa força yin yang, esse dentro e fora. Então, a principal transformação foi realmente ‘contar’ a peça, deixar a respiração vir… e dar a próxima fala.”
Para ele, a oportunidade de rever sua atuação e poder evoluir se deve ao ‘ritual’ do teatro, ao qual revela ser muito grato.
“Repetir é perceber que as coisas não são iguais. Aí está a chance de ver como você quer fazer diferente. Essa conexão com a minha respiração, de poder estar consciente do ar entrando e saindo ainda enquanto eu falo, sinto que isso aprofundou a peça e fez com que as emoções até transbordassem mais. Hoje em dia, sei que consigo estar mais vulnerável ao passo que permito à minha respiração me acompanhar.”
Segundo o artista, a peça passou por muitas fases. Por exemplo, quando ele ainda contava a história de forma livre, a duração variava entre uma e três horas.
“E ela era monótona. Não tinha colorido, ela não tinha ritmo. Ela quase te induzia a um transe que te levava ao sono, sabe?”, resumiu.
Ele afirma que, com a chegada dos co-diretores Beth Martins e Renato Livera, a peça ganhou pulsação.
“A equipe chegou, e eu fui ganhando uma coisa muito da ação, e o espetáculo foi ficando físico, ganhou força e corpo.
Eles me ajudaram a lembrar que a cantiga da vida é como a música clássica: uma hora ela tá rápida, em outra hora ela está muito lenta, em outra é silêncio, e depois ela muda. A vida é assim, a floresta é assim: você olha para uma floresta e cada hora ela está de um jeito – uma hora o rio está calmo, depois, caudaloso, em uma hora choveu, outra hora abriu o sol, numa hora caiu uma árvore, em outra passou uma onça. As coisas variam, nunca são iguais.”

Angel Ferreira medita no Teatro Estúdio, enquanto o público entra no auditório. Foto: Pedro A. Duarte / Viva a Cidade
No fim das contas, na opinião do ator, “Sidarta” se apresenta como um convite para escutar o fluxo da vida, é um trabalho com o qual ele diz aprender muito.
“Me ensina a não impor as minhas ideias, a não impor aquilo que acho ser melhor, aquilo que gostaria que acontecesse de tal jeito. Eu tento reconhecer quais são meus sonhos, meus desejos, minhas ambições. Mas procuro estar muito atento a como a vida apresenta isso e não provocar, não criar uma resistência. Não quero impor à vida que as coisas aconteçam de um determinado jeito, por achar que de outro seria melhor. Eu aprendi isso em cena. A aceitar o que vem”, resumiu.
Angel confessa que, no início de sua trajetória artística, era muito controlador e se frustrava quando algo saía fora do planejado. Ele lembra de uma temporada anterior, na qual a luz na rua acabou no meio da apresentação e, como o teatro não tinha gerador, tudo ficou escuro.
“Nesse dia em que acabou a luz de tudo, se fosse antigamente, talvez eu ficasse preocupado, infeliz com a situação. Atualmente, sei aceitar quando imprevistos acontecem. Só que, naquele dia, um dos espectadores falou: ‘Faz a peça com a vela. Pega a vela de novo e continua contando para gente’. E aí eu fiz isso. Peguei a vela de novo, acendi e continuei contando. Passei mais 40 minutos contando a peça com a vela. A luz do teatro voltou só no final da peça. Todo mundo que estava naquela sessão, quando me encontra na rua, me diz: ‘Eu estava no dia que faltou luz, e foi lindo. Eu te agradeço por isso’. Essas coisas só acontecem quando a gente escuta nosso entorno e o acolhe, né?”, finaliza.

Angel Ferreira conta “Sidarta”. Foto: Claudio Pitanga / Divulgação
Onde ver?
Teatro Estúdio R. Conselheiro Nébias, 891 - Campos Elíseos @oteatroestudio | @sidarta.espetaculo Sextas, às 20h | Sábados e domingos, às 17h | Até 27 de setembro R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada) Saiba mais
Paralelo ao trabalho com o solo, Angel Ferreira inaugurou, ao lado de colegas, a Casa Candeia de Cultura, um espaço na cidade de Cavalcante (GO), com o objetivo de levar teatro e cultura ao interior daquele estado. Conheça as atividades do local, por meio do perfil @casa.candeia.de.cultura.
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