Escrita pela dramaturga israelense Anat Gov (1953-2012), a peça “Meu Deus!” ganha uma nova montagem, protagonizada por Bianca Bin e Sérgio Guizé, atualmente em cartaz no Teatro das Artes, do Shopping Eldorado.
Dirigida por Elias Andreato, a peça acompanha a psicóloga Ana (interpretada por Bianca Bin), que vive uma rotina marcada pelo desafio de ser mãe solo de um rapaz com autismo.
Um dia, ela recebe a visita de um paciente peculiar: Deus (Sérgio Guizé). De acordo com o Criador, o motivo da consulta seria um quadro de depressão, causada pelo sentimento de descrença com a humanidade.

Sérgio Guizé interpreta Deus. | Foto: Caio Oviedo/Divulgação
A iniciativa de levar o texto novamente aos palcos veio de Elias, que já havia dirigido a primeira versão brasileira da peça, em 2014, protagonizada por Irene Ravache e Dan Stulbach.
Doze anos se passaram desde então, e o diretor diz ter percebido que muita coisa mudou no mundo.
“Tudo ficou mais violento e mais comunicado. O celular passou a ter uma importância maior nas nossas vidas e tornou a violência presente 24 horas por dia”, reflete.
Por isso, ele diz que os temas abordados pela autora são recebidos com mais impacto atualmente.
“Nós estamos precisando de um olhar mais amoroso por tudo e por todos. Quando fiz essa montagem lá atrás, com a Irene [Ravache] e o Dan [Stulbach], não me lembro de que o texto tenha me impactado tanto”, revela.
Ele ressalta, entretanto, que não teve uma visão mediana ou rasteira do espetáculo, naquela época.
“Mas é que o texto, hoje, me pega de um jeito… A gente se questiona muito como artista: ‘o que você vai falar? O que você vai levar para cima do palco?’ Diante desse texto, me peguei pensando que estamos vivendo guerras, a monopolização de Deus para todos os lados e o preconceito contra as religiões; é tudo muito violento. E, de repente, você pega uma dramaturga que não faz a cabeça de ninguém, que parte de um ponto de vista humano, da sensibilidade, e questiona ‘como é que podemos viver nesse mundo sem acreditar em alguma coisa?’. Isso me toca.”
A ideia de fazer a montagem com Bianca e Sérgio partiu do diretor, que abordou o casal após a apresentação de um espetáculo que viram juntos, e ele logo lhes entregou o texto de “Meu Deus!”.
“Eu fui arrebatada pelo texto”, lembra Bianca. “Escolho os meus projetos principalmente pela dramaturgia. Ao conhecer uma personagem, se eu me identificar com as palavras [do texto] e acreditar que é o que gostaria de dizer naquele momento, é o que basta para dizer ‘sim’ a um projeto.”
Peça ‘de sofá’
O texto de Anat Gov é, para Elias, o que se chama de ‘peça de sofá’: um tipo de espetáculo que normalmente é situado na sala de um apartamento, em que dois ou mais personagens com pontos de vista distintos precisam conversar para chegar em um ponto comum.
“Nós, artistas, gostamos de fazer espetáculos para se experimentar, para transpirar… para interpretar um louco. Às vezes uma ‘peça de sofá’ nos ensina muito mais do que qualquer loucura. Porque você tem que lidar com o simples, com a delicadeza, com a violência, com tudo ao mesmo tempo, sem perder o tom e sem perder o espectador”, explica.
Trata-se também de um tipo de dramaturgia que propõe um diálogo mais direto com o público.
Mas, não se trata de ‘se vender’ para o espectador, diz o diretor, pois quem comanda ‘o jogo’ ainda são os artistas no palco.
“Por mais que você queira rir, eu não posso ‘entrar na sua’, para não perder a delicadeza ou a intenção do autor. Mas eu tenho que pensar em você, porque o público tem que fazer parte desse jogo”, completa.
Ele afirma que esse tipo de dramaturgia é um grande exercício para os atores.
“Fui muito amigo do Paulo Autran [1922-2007], e ele fez muitas comédias dessa forma, com sutilezas e humor. Me lembro que, quando eu era jovem, ia assisti-lo e achava caretíssimo. Via aquele teatro com 1.200 pessoas aplaudindo de pé e, lá no fundo, eu sentia ódio, pensava ‘não sei o que a pessoa vê nisso’. Ficava com inveja, né? Na verdade, a essência básica era inveja. E ele me ensinou isso, me falou: ‘Isso é um grande exercício para um ator, porque você tem uma partitura muito vasta’”, Elias conta.
No fim das contas, Elias Andreato acabou dirigindo Paulo Autran em uma ‘peça de sofá’ no ano 2000. Trata-se de “Visitando Sr. Green”, de Jeff Baron, história em que um idoso judeu recebe a visita de um rapaz que será seu cuidador.
Agora, ele próprio sobe ao palco para interpretar o personagem título, em espetáculo que está em cartaz neste mês, no Teatro Vannucci (Shopping da Gávea), no Rio de Janeiro.
Deus no divã
De volta para a peça em exibição no Teatro das Artes: Bianca Bin e Sérgio Guizé aproveitam a ‘vasta partitura’ do texto de “Meu Deus!” para dar vida a personagens com motivações e dilemas internos que extrapolam os conflitos cotidianos e se tornam alegorias.

Bianca Bin interpreta Ana, ao lado de Enzo Morente (Paulo). | Foto: Divulgação
A atriz conta que sua personagem, Ana, simboliza a humanidade contemporânea.
“Representar essa personagem, no fim das contas, é se aproximar cada vez mais da minha humanidade. Quando atuo, sou sempre eu na circunstância da outra. Eu não sou mãe, não sou mãe solo, mas consigo me colocar na circunstância e imaginar o quanto essa mulher é sobrecarregada, o quanto ela está exausta, o quanto ela está descrente, o quanto ela se sente ferida, o quanto ela carrega o mundo nas mãos, assim como muitas mulheres que a gente conhece e que estão próximas de nós.”
Para ela, o exercício da atriz e do ator é se colocar no lugar do personagem.
“A gente empresta nossa carne, nossas emoções, nossos sentimentos. Para mim, Ana representa exatamente a fragilidade humana, a necessidade de afeto e a descrença. Mas ela também tem otimismo, compaixão, esperança e amorosidade.”
Sérgio Guizé, por outro lado, diz ter um desafio peculiar: como interpretar um personagem que não tem corpo, cuja forma física é desconhecida?
“Eu sabia que ia ser uma alegoria de Deus, que ia representar muita coisa e não o Deus que tentam nos ensinar na infância – esse Deus da barba branca e tal”, conta.
Ele explica que seu personagem nada mais é que um homem, que se dispõe a discutir suas próprias fragilidades, e elas espelham as angústias humanas.
“A genialidade de Anat Gov está justamente nisso: tirar [Deus] do altar e colocar no divã, para levantar questões sobre fé e saúde mental”, diz o ator.
Para ele, cada personagem tem de ser feito de dentro para fora.
“Deus não tem corpo, não tem forma. Acredito que, nesse caso, ele seja um sentimento, e é muito interessante começar a dar corpo a esse sentimento. Dar corpo e jogar. Porque a criação só é possível a partir desse jogo com a psicóloga Ana, do jogo com a Bianca.”

Sérgio Guizé interpreta Deus em crise. | Foto: Caio Oviedo/Divulgação
Casados há quase sete anos, Sérgio e Bianca acreditam que a convivência contribuiu para a criação de seus personagens.
Eles moram em uma chácara em Indaiatuba (a 100 km da capital) e, para ensaiar a peça, precisavam ir até um espaço que fica na Lapa, na zona Oeste de São Paulo.
“O trajeto de casa até o ensaio dava mais ou menos uma hora”, Bianca conta. “Era o tempo ideal para fazer uma passagem de texto do início ao fim. Ter uma réplica o tempo todo me ajudou a decorar mais rápido, me ajudou a aprofundar no texto. Foi mais intenso e, ao mesmo tempo, um facilitador.”
Sérgio confessa que eles também se divertiram passando o texto juntos.
“Quer dizer, depois das nove horas da noite, nem tanto”, brincou. “Entrei de corpo e alma neste projeto, também por conta da Bianca. Dividir [a cena] com ela é sempre maravilhoso, porque ela é uma atriz de muito talento, que escolhe muito bem seus personagens. A Ana que ela faz é uma potência, e isso ajuda a construir o meu fragilizado Deus, que ‘pisa em ovos’ com ela.” E finaliza brincando amorosamente: “Eu também ‘piso em ovos’ com Bianca.”
A atriz fala que também sente prazer em estar em cena com Sérgio.
“Sempre admirei o trabalho do Guizé, mesmo antes de termos um envolvimento pessoal”, revela.
Para Bianca, o mesmo afeto do qual eles se valem para entrar em cena é a cura que Anat Gov encontrou para as personagens de “Meu Deus!”: “É o afeto pelo encontro”, pontua.

Sérgio Guizé e Bianca Bin, em cena de “Meu Deus”. | Foto: Caio Oviedo/Divulgação
Onde ver?
Teatro das Artes (Shopping Eldorado) Av. Rebouças, 3970 - Pinheiros @teatrodasartes | @meudeusteatro Sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 17h | Até 01 de novembro De R$ 60 (meia-entrada) a R$ 160 (inteira) Saiba mais
__






