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Última modificação julho 20, 2026

Teatro Ruth Escobar: entre o passado e o futuro

Edifício que faz parte da história das artes cênicas paulistanas ganha nova gestão e passa por renovação

Fachada do Teatro Ruth Escobar, em julho de 2026. | Foto: Pedro A. Duarte / Viva a Cidade

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    Até os espaços mais consagrados precisam, de tempos em tempos, se reinventar.

    Depois de passar por reformas para modernizar sua estrutura e recuperar traços históricos, o Teatro Ruth Escobar celebrou, em 26 de junho, sua reinauguração sob a gestão da produtora Vinícius Munhoz Entretenimento (VME).

    Localizado no número 209 da Rua dos Ingleses, no Bixiga, bairro tradicional das culturas italiana e negra de São Paulo e reduto de teatros históricos da cidade, esse é um dos espaços que contribuíram para a formação da cena teatral paulistana, oferecendo, até hoje, uma programação diversa para a população da capital.

    Fundado em 1963, pela atriz e produtora Maria Ruth dos Santos Escobar (1935-2017), ele já foi símbolo de resistência contra a ditadura militar, mas viu sua programação minguar, e quase fechou as portas após a pandemia da Covid-19.

    No início deste ano, após negociações com a Associação de Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (Apetesp), proprietária do imóvel, a VME assumiu a gestão do local.

    De saída, deu início a uma série de reformas para modernizar o espaço e, ao mesmo tempo, recuperar características históricas do edifício.

    A reabertura de sua sala principal, Dina Sfat, que ocorreu no mês passado, para as apresentações do musical “Vindos de Longe”, marcou o início da nova fase do teatro.

    Cena do musical “Vindos de Longe”. Foto: João Caldas

    Quem faz a nova gestão?

    Assim como ocorreu com o teatro, a produtora Vinícius Munhoz Entretenimento leva o nome do artista que a fundou.

    Depois de trabalhar como sócio-produtor da Atelier de Cultura e atuar como diretor geral do Instituto Artium de Cultura, Vinícius fundou a sua própria empresa, em 2024.

    “Estou desde os meus 17 anos na indústria do entretenimento”, contou, em uma entrevista para o Viva a Cidade. “Eu queria explorar a gestão de ativos, entender como isso é sustentável enquanto negócio com ou sem as leis de incentivo à cultura.”

    Ao tomar a decisão de fundar a VME, ele quis ir além da produção de grandes espetáculos, atuando também na gestão de ativos culturais, o que inclui o ‘resgate’ desses equipamentos.

    Entre suas produções recentes estão os shows da dupla Os Mentalistas, formada por Beto Parro e Rafa Moritz; a montagem brasileira do musical “Matilda”, apresentada no Teatro Claro Mais SP em 2023; a turnê nacional 2025 de Henry & Klauss; o espetáculo de comédia “Que Audácia!” (Teatro Multiplan, 2025) e a peça “Por Toda a Minha Vida” (idem). 

    Atualmente, a VME também faz a gestão do Teatro Multiplan (no Morumbi Shopping) e do Teatro West Plaza (no Shopping West Plaza), ambos na Zona Oeste, e do Multiplan Hall (no Park Shopping São Caetano).

    A ideia de fazer a gestão do Teatro Ruth Escobar surgiu em 2020, quando uma placa de “Vende-se” apareceu na fachada do edifício.

    Um amigo meu, Rafael Gomes, que hoje é o diretor de ‘Vindos de Longe’, me ligou avisando dessa placa”, lembra Vinícius. Ele conta que o amigo perguntou se ele sabia de alguma coisa, e se o Ruth estava mesmo à venda, ou se iria fechar.  

    “Então, eu liguei para o número que estava na placa, e quem atendeu foi a gestão da Apetesp, que me informou que não estava à venda, que a placa era um grito socorro ao mercado. A administração deles estava sofrendo bastante, não só com a pandemia, e o teatro estava na iminência de realmente fechar as portas. E, lá atrás, eu me coloquei à disposição para ajudar como eu pudesse. Propus que a VME passasse a gerir o espaço, e ouvi uns 80 ‘nãos’ de lá para cá.”

    Em 2025, a situação se repetiu: o teatro estava novamente a ponto de fechar as suas portas. Foi então que a Apetesp lembrou daquele contato feito por Vinícius Munhoz.

    “Nós voltamos a conversar e a combinar a negociação que a gente está realizando hoje. Agora, estamos nos primeiros seis meses de um longo contrato de gestão, manutenção e administração do Ruth Escobar.”

    O produtor Vinícius Munhoz, gestor do teatro. | Foto: João Caldas/Divulgação

    A revitalização do teatro

    O último grande investimento em melhorias na infraestrutura do teatro havia sido feito em 1990, para a abertura da sala Dina Sfat.

    Desde então, o Ruth Escobar não passava por uma reforma relevante, e seus equipamentos estavam desatualizados. “Por isso, nós tivemos que readequar tudo, inclusive as normas de segurança”, explica.

    “Qualquer produção que entrasse em cartaz no Ruth Escobar seria ‘Cantando na Chuva’”, brinca, “porque o teto estava comprometido: se chovia na rua, chovia no palco, o que inviabilizou várias produções. Então, a gente trocou o teto e os estofados, e renovamos os equipamentos.”

    Outra questão, diz o empresário, é que o prédio não recebia energia suficiente da Enel para que fosse possível utilizar as três salas simultaneamente.

    “Se quisermos operar as outras salas com a mesma qualidade técnica da Dina Sfat, o teatro precisaria receber mais energia. Agora, já adequamos tudo para receber, em todas as salas, espetáculos que demandam um padrão de qualidade considerado alinhado com os padrões internacionais. Ainda temos muito o que fazer, e é um projeto de longo prazo justamente por isso: porque [as deficiências acumuladas] não se resolvem em um ano, não é viável resolver tudo o que é necessário dentro de um curto período de tempo.”

    Embora o Teatro Ruth Escobar não seja patrimônio tombado por instâncias de proteção, a rua em ele se encontra é. Por isso, a fachada não pode sofrer alterações. Ainda que não existisse a obrigação de manter características históricas da decoração no interior do teatro, a gestão da VME garante que procurou recuperá-las da melhor maneira possível.

    Foi mantido, por exemplo, o vermelho icônico da estrutura, e as cúpulas das luminárias originais foram recuperadas.

    “Estamos tentando trazer esses elementos de volta com a pouca informação que temos, porque a documentação do projeto do prédio se perdeu. Fomos atrás de quem construiu e procuramos a empresa que fez as estruturas metálicas. Além disso, um senhor que conhecia a estrutura original esteve por aqui durante a obra, para nos dar ajudar com lembranças de como era, por exemplo, a cor das paredes e outros detalhe.”

    Durante o processo de revitalização e modernização, algumas curiosidades foram descobertas.

    Uma delas é uma engenhoca, feita de madeira maciça, que agora está exposta no saguão. Trata-se de uma engrenagem utilizada na montagem da peça “O Balcão”, texto de Jean Genet, que ficou conhecida pela ousadia cênica: o cenário projetado por Wladimir Pereira Cardoso tinha um palco em espiral, que se movia verticalmente do porão até o terceiro andar do edifício.

    Essa montagem foi um dos momentos do Teatro Ruth Escobar, que o colocou, ao lado de sua fundadora, como um polo de vanguarda.

    Engrenagem usada no espetáculo “O Balcão”, exposta no saguão do teatro. | Foto: Pedro A. Duarte / Viva a Cidade.

    A fábula da hospitalidade

    A nova fase do Teatro Ruth Escobar foi apresentada ao público no fim de junho, com o início da temporada da primeira montagem brasileira do musical “Vindos de Longe”.

    A peça é encenada na sala Dina Sfat (com capacidade para 400 espectadores), enquanto as reformas acontecem nas salas Gil Vicente (para 320 pessoas) e Myriam Muniz (que recebe de 70 a 100 espectadores). Esses espaços são batizados em homenagem a atrizes brasileiras icônicas e ao dramaturgo português renascentista.

    A montagem é uma adaptação de “Come from Away”, texto escrito por Irene Sankoff e David Hein, e retrata a primeira semana após a queda das Torres Gêmeas do complexo empresarial World Trade Center, em Nova York, nos Estados Unidos, após os ataques terroristas ocorridos em 11 de setembro de 2001.

    A trama se volta para a pequena cidade de Gander, na ilha de Terra Nova, no Canadá, onde diversos aviões tiveram de fazer pousos forçados, já que o espaço aéreo estadunidense estava fechado. Isso obrigou passageiros e tripulantes a passar um período de quarentena no local. O texto é inspirado nos relatos de passageiros ilhados e de moradores da cidadezinha, que tiveram de se virar para receber os milhares de visitantes que chegaram abruptamente, vindos dos mais diversos cantos do mundo.

    A montagem brasileira do espetáculo é dirigida por Rafael Gomes, reconhecido por sua trajetória no teatro com trabalhos de destaque, como “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams e, recentemente, a montagem de “Hamlet, Sonhos que Virão”, em cartaz no Cine Copan.

    “Vindos de Longe” é o primeiro musical originário da Broadway que Rafael dirige. Até então, ele havia conduzido os musicais brasileiros “Gota D’Água [A Seco]”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, e “Nossa História com Chico Buarque”, de sua autoria, ao lado de Vinicius Calderoni.

    A produção em cartaz no Ruth Escobar reúne 16 atores, que revezam em múltiplos personagens ao longo da narrativa. Trata-se de uma peça de “ensemble” ou “de coro”, em que não há um único protagonista: a trama pertence a todos os personagens, ainda que cada um lide com os desafios a partir de seu próprio ponto de vista.

    No elenco estão nomes de destaque do teatro musical brasileiro, entre eles, os veteranos Saulo Vasconcelos, Nábia Villela, Andrezza Massei, Andrea Marquee, Eduardo Leão, Neusa Romano e Rodrigo Miallaret.

    Elenco do musical “Vindos de Longe” em cena. | Foto: João Caldas/Divulgação

    Ao lado deles, há artistas que compõem a nova geração de talentos, como Ana Araújo, Bia Castro, Enrico Verta, Isaac Belfort, Rupa e Thais Piza. Completando o elenco, há atores e atrizes que também demonstram suas habilidades em campos como a dramaturgia e a produção em espetáculos autorais, como é o caso de Bruno Narchi, Davi Novaes e Luiza Porto.

    Fatos históricos

    O histórico de produção de “Come from Away” é carregado de fatos marcantes, que vão além de sua trama.

    O musical estreou na Broadway em 2017, no início do primeiro mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos (2017-2021), e o proshot (abreviação de professionally shot, gravação oficial e em alta qualidade, filmada diretamente no palco) do espetáculo foi feito na primeira sessão da peça após o período de quarentena da pandemia de Covid-19, no 20º ‘aniversário’ dos ataques.

    Ao refletir sobre como o musical pode estar relacionado com os dias atuais, Rafael Gomes diz que seus temas permanecem relevantes.

    “É uma peça que fala sobre acolhimento diante da diversidade, que trata de comunidade e empatia, e que articula a ideia de que podemos todos ser essencialmente solidários. Isso sempre tem e terá algo a dizer para o nosso mundo, em qualquer lugar e em qualquer tempo”, disse, também em entrevista ao Viva a Cidade.

    O diretor revela se sentir honrado e feliz por participar da reinauguração do teatro Ruth Escobar.

    “Tenho um fascínio pelos espaços e salas de espetáculos, suas histórias, suas ‘veias’ de contato com a cidade, seus fantasmas. Acabei de montar uma peça em um cinema abandonado, que será integrado novamente à vida cultural de São Paulo. Agora, tenho o prazer de também estrear essa nova fase de uma sala histórica.”

    Para ele, os espaços e suas histórias transbordam o sentido do que cada peça é capaz de comunicar durante o tempo em que fica em cartaz.

    “Isso exemplifica a função social da arte em geral – e do teatro em particular – de ser também uma ferramenta de encontro e convivência, de nos lembrar de que os outros existem e que somos e devemos ser seres sociais e empáticos à experiência humana, e não somente à nossa. Ou seja, justo o que eu dizia sobre os temas de ‘Vindos de Longe’”, completa.

    A versão nacional de “Vindos de Longe” já era uma ideia gestada por Vinícius Munhoz e Rafael Gomes antes de a nova gestão do Teatro Ruth Escobar começar.

    Aos poucos, Vinícius entendeu que esse espetáculo seria uma maneira significativa de reabrir as portas do espaço que, “ao longo de sua existência, foi um teatro internacional”, conforme o empresário comentou.

    “É  um palco que foi concebido para receber espetáculos brasileiros, mas também internacionais. Quando Ruth Escobar colocou seu primeiro espetáculo aqui, ela escolheu ‘A Ópera dos Três Vinténs’ [operetta do dramaturgo e diretor alemão Bertolt Brecht], incluindo no pôster os dizeres ‘oito anos de sucesso na Broadway’. Então, a ideia de reinaugurar o teatro com ‘Vindos de Longe’ é justamente para respeitar o passado, que inspira muito o que estamos fazendo”, diz o dono da VME.

    Cena do musical “Vindos de Longe”. Foto: João Caldas

    Para ele, por mais que seja estadunidense, esse musical transcende sua nacionalidade e fala sobre como o ser humano ainda ‘tem jeito’, sobre como as pessoas ainda podem ser solidárias.

    “Eu acho que isso é uma mensagem que está faltando hoje no mundo, e que é sempre bom a gente renovar a esperança de que eu e você, nós, esse coletivo, esse grupo de pessoas, ainda pode ‘dar certo’.”

    Expectativas 

    Ao ser perguntado sobre a curadoria de peças a serem encenadas no Teatro Ruth Escobar com a nova gestão, Vinícius diz que gostaria que o espaço fosse reconhecido como “um lugar cujos espetáculos sempre serão inegavelmente bons, pois a qualidade é um dos elementos que a VME preza bastante”, afirma.

    “A gente não pretende se colocar como [os teatros] Renault e Santander, porque nem existe estrutura técnica para isso. Quando se trata de musicais, por exemplo, há alguns que necessitam de uma casa de médio porte para chegar com qualidade para o espectador, e é esse tipo de lugar que está faltando na cidade. No Ruth Escobar, temos três teatros num só: a sala Myriam Muniz, pós-reforma, vai ter um caráter experimental; a Gil Vicente, quando ficar pronta, vai ter um fosso de orquestra, permitindo a apresentação de musicais, grupos de dança e teatro de prosa. Neste ano, o trabalho é reposicionar o Ruth, para que as pessoas o conheçam e redescubram.”

    O empresário explica que a escolha dos espetáculos que entram em cartaz, tanto no Ruth Escobar como nos outros teatros geridos pela VME, passa por aprovação de um coletivo de gestores de cada casa comandada pela VME.

    Produtores que tiverem interesse em apresentar seu trabalho em qualquer uma das casas podem entrar em contato com ele, pelo endereço de e-mail contato@vmentretenimento.com, ou pelas redes sociais e outros canais oficiais da produtora.

    “É claro que, para entrar no Teatro Ruth Escobar, alguns espetáculos vão precisar de produtores que tenham mais ‘estrutura’ para fazer o projeto acontecer, porque esse espaço demanda investimentos, o que está relacionado ao que investimos aqui e que precisa retornar de alguma forma. Então, a gente olha para rentabilidade e para conteúdo, encaramos isso como um negócio de fato.”

    Nesta nova página da história do Teatro Ruth Escobar também está a reabertura da Casa de Badalação e Tédio, espaço idealizado pela fundadora para ser um bar-restaurante e também receber apresentações musicais.

    Localizado no subsolo do edifício, essa área já foi o palco onde personalidades como Ney Matogrosso e Rita Lee se apresentaram pela primeira vez.

    “Quando a gente descobriu a importância desse lugar, que estava sendo usado como depósito, estabelecemos o objetivo de levantar recursos para que ele possa voltar a ter sua função inicial, como a Casa de Badalação e Tédio, para receber festas e apresentações”, Vinícius conta.

    Além disso, as novidades incorporadas ao espaço também incluem um café, uma livraria e uma floricultura, que ficam no saguão do teatro. “O Ruth tem, na minha visão ambiciosa, a vocação de se tornar um National Theatre brasileiro”, diz o empresário, que vê a possibilidade do teatro se tornar um centro cultural, dentro do qual São Paulo possa ‘viver’.

    “Digo isso porque é um espaço muito gostoso. Estamos vendo, aos poucos, a população ao redor vir visitá-lo, não só para assistir as peças. Ontem, por exemplo, recebemos um grupo de quatro senhoras que vieram conversar, tomar vinho e comer pizza, porque descobriram que a gente também serve pizzas aqui. Esse movimento de pessoas entrarem no teatro, poderem estar ali, convivendo neste espaço, e verem que tem alguma programação, é a vocação que queremos devolver para o Ruth Escobar.”

    Quem foi Ruth Escobar?

    Nascida na cidade do Porto, em Portugal, no dia 31 de março de 1935, Maria Ruth dos Santos veio para o Brasil com sua mãe, aos 16 anos.

    Aqui, casou-se com o dramaturgo Carlos Henrique Escobar, e foram morar juntos na França, em 1958, quando ela também tinha 16 anos. Durante a estadia naquele país, ela fez cursos de interpretação.

    Quando o casal retornou ao Brasil, eles fundaram sua própria companhia teatral, chamada Novo Teatro, em parceria com o diretor Alberto D’Aversa.

    O grupo chegou a encenar “Mãe Coragem e Seus Filhos”, de Bertolt Brecht, e Males da Juventude“, de Ferdinand Bruckner, antes de apresentar “Antígone América”, um texto de Carlos Henrique.

    Em 1962, o casamento entre Ruth e Carlos Henrique chegou ao fim. Ao mesmo tempo, ela começou a buscar recursos para construir seu próprio teatro.

    O Teatro Ruth Escobar foi inaugurado no ano seguinte, 1963. Em paralelo, a atriz-produtora também adaptou um ônibus para fazer apresentações na periferia de São Paulo, uma iniciativa que foi chamada de Teatro Popular Nacional e durou até 1965.

     

    A programação do Teatro Ruth Escobar foi aberta com “A Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, sob a direção de José Renato, em 1964.

    Outras peças apresentadas no espaço, em sua fase inicial, foram “O Casamento do Sr. Mississipi”, de Friedrich Dürrenmatt, dirigida por Jô Soares (em 1965); “As Fúrias”, de Rafael Alberti, encenado por Antônio Abujamra (em 1966), e “Lisístrata (ou a Greve do Sexo)”, de Aristófanes, em montagem de Maurice Vaneau (em 1968).

    Nesse mesmo ano, o diretor argentino Victor García veio ao Brasil, e Ruth o convidou para fazer a peça “Cemitério de Automóveis”, para a qual uma antiga garagem da rua Treze de Maio, também no Bixiga, foi totalmente remodelada.

    A encenação destacou Ruth Escobar como atriz e produtora. Seu prestígio aumentou com a produção de “O Balcão”, em 1969, com interpretação de Victor Garcia e cenografia de Wladimir Pereira Cardoso. 

    A fama do Teatro Ruth Escobar foi além dos palcos. O local ficou conhecido por se posicionar em resistência à ditadura militar.

    Dois eventos, ocorridos também em 1968, tornaram-se marcantes: a apresentação da “Primeira Feira Paulista de Opinião” e a temporada de “Roda Viva”, musical de Chico Buarque encenado pelo Teatro Oficina. A “Feira Paulista” foi idealizada pelo grupo Teatro de Arena, para reunir textos de dramaturgos ativos da cena teatral naquele momento, sob a direção de Augusto Boal. Já uma das apresentações do “Roda Viva” foi invadida pelo Comando de Caça aos Comunistas, que agrediu os artistas que estavam em cena e depredou o espaço.

    Outros momentos marcantes da trajetória de Ruth Escobar incluem a idealização e a execução do “Festival Internacional de Teatro”, que teve sua primeira edição em 1974, sediada em seu teatro. Graças a essa iniciativa, o público paulistano conheceu o trabalho de encenadores renomados, de diversos cantos do mundo, e teve contato com práticas teatrais de uma variedade de culturas. A sétima edição do evento, em 1997, por exemplo, foi dedicada aos países da Ásia, com apresentações da Ópera de Pequim.

    Entre as produções que passaram pelo teatro, Ruth também teve diversas participações como atriz.

    Sua última atuação foi em 2001, quando elaborou uma versão de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. Um ano antes, ela tinha sido diagnosticada com a doença de Alzheimer, que se agravou com o passar dos anos, comprometendo sua atividade profissional.

    Ruth Escobar faleceu em 5 de julho de 2017, deixando um legado marcado tanto por seu caráter vanguardista como por sua resistência ao autoritarismo.

    Placa do Inventário Memória Paulistana, fixado na parede esquerda, ao lado do edifício. | Foto: Pedro A. Duarte / Viva a Cidade.

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    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.