Neste fim de outubro, Clarice Lispector (1920-1977) é lembrada e homenageada em três peças de teatro em cartaz em São Paulo, inspiradas na obra literária e na vida da escritora.
No Teatro Moise Safra, na Barra Funda (zona Oeste), a atriz Beth Goulart faz as últimas apresentações do monólogo biográfico “Simplesmente eu, Clarice Lispector“, que estreou em maio deste ano.
O Teatro Oficina, na Bela Vista (região central), recebe a primeira temporada paulista de outro solo, “O Ovo e a Galinha“, interpretado por Ana Hartmann, a partir do conto de mesmo nome.
Na zona Sul, a peça “Projeto Clarice“, do grupo Garagem 21, volta ao cartaz para uma temporada no Teatro Paulo Eiró, em Santo Amaro.
Nascida em Chechelnyk, na Ucrânia, Chaya Pinkhasivna Lispector imigrou para o Brasil com sua família em 1922, devido à perseguição aos judeus naquela região. Ao chegar ao país, foi rebatizada como Clarice. Apesar da origem judaico-ucraniana, a escritou fazia questão de afirmar que não tinha laços culturais e afetivos com o Leste Europeu, considerando o Brasil sua verdadeira pátria.
A família passou um período breve em Maceió (AL), até se mudar para o Recife, onde Clarice cresceu. Após a morte de sua mãe, quando tinha 14 anos, mudou com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro, onde estudou Direito, na Universidade do Brasil (hoje a Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ).
Não demorou para demonstrar interesse pelo meio literário, no qual ingressou como tradutora, contista e jornalista. Em março de 1942, aos 22 anos, Clarice começou a planejar seu primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem”, publicado em 1943 pela editora A Noite. Elogiado pela crítica, o livro recebeu o “Prêmio Graça Aranha” de melhor romance, no mesmo ano. Rapidamente, o trabalho dela foi consagrado pelo meio literário. Hoje, é tida como uma das figuras mais influentes da literatura brasileira e do modernismo. Não à toa, suas obras receberam incontáveis adaptações e releituras.
A seguir, veja mais informações sobre os espetáculos que revisitam seus contos e sua história de vida, apresentados nos palcos de São Paulo:
O Ovo e a Galinha
Dirigida por Joana Medeiros, a montagem foi criada em 2017 e passou por um longo processo de pesquisa, leituras e ensaios abertos. A obra coloca a escritora em cena diante de seu próprio texto, e acompanha o fluxo de pensamentos desencadeado pela visão de um ovo sobre uma mesa.
A atriz Ana Hartmann interpreta Clarice Lispector em um episódio real, durante a leitura de “O Ovo e a Galinha”, no 1º Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia, em 1975. O caráter enigmático desse acontecimento está na própria origem da dramaturgia, já que existem registros de relatos diversos sobre o que teria acontecido naquela ocasião. Por isso, a montagem toma essa zona de incerteza como ponto de partida para imaginar Clarice diante daquele público.
A partir do que é narrado, a cena se transforma: a escritora experimenta no próprio corpo as ideias, imagens e estados provocados pelo conto. O que começa com um ovo sobre uma mesa leva a personagem a fazer associações sobre existência, Deus, cotidiano, amor, trabalho e a tentativa de apreender aquilo que escapa à explicação.
Teatro Oficina Uzyna Uzona Rua Jaceguai, 520 – Bixiga @oficinauzynauzona | @ovoeagalinha Segundas e terças, às 20h | Até 8 de dezembro R$ 50 (meia-entrada) e R$ 100 (inteira) Saiba mais

Ana Harmann interpreta “O Ovo e a Galinha”. | Foto: Ana Alexandrino / Divulgação
Projeto Clarice
Com adaptação e direção de Cesar Ribeiro, “Projeto Clarice” reúne em cena quatro atrizes com mais de 60 anos, dando vida a cinco contos de Clarice Lispector: “Via Crucis”, “Menino a Bico de Pena”, “A Legião Estrangeira”, “Amor” e “O Ovo e a Galinha”.
As histórias se articulam em torno de questões como subjetividade, identidade, alteridade, família e afetos, temas recorrentes na obra da autora. Esses textos revelam a capacidade da mulher de ser afetada por acontecimentos aparentemente cotidianos e de se transformar a partir deles.
As situações presentes nos contos permitem que as personagens passem por experiências capazes de ampliar suas percepções e as possibilidades de viver sua própria humanidade. Os textos colocados em cena investigam as formas de construção da identidade feminina, suas relações com o outro e com o espaço familiar.
No palco, Clara Carvalho, Magali Biff, Mariana Muniz e Vera Zimmermann mostram particularidades da vida de uma mulher. A construção das personagens parte, em boa medida, de experiências das próprias atrizes e de suas relação com seus corpos.
Teatro Paulo Eiró Av. Adolfo Pinheiro, 765 - Santo Amaro @teatropauloeirosp | @grupogaragem21 De quinta a sábado, às 20h | Domingo, às 19h | Até 8 de novembro R$ 10 (meia-entrada) e R$ 20 (inteira) Saiba mais

Clara Carvalho (no topo), Vera Zimmermann, Mariana Muniz e Magali Biff, em “Projeto Clarice”. | Foto: João Caldas / Divulgação
Simplesmente eu, Clarice Lispector
No monólogo interpretado por Beth Goulart, a dramaturgia foi construída a partir de depoimentos, entrevistas e correspondências de Clarice, além de fragmentos de obras marcantes, como “Perto do Coração Selvagem”, “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” e dos contos “Amor” e “Perdoando Deus”.
A narrativa ganha forma na interpretação da atriz, que entrelaça a figura da autora às vozes de quatro personagens femininas — Joana, Lori, Ana e uma mulher sem nome — representando diversas fases e dimensões de seu pensamento.
Em uma experiência sensorial e reflexiva, a montagem leva ao palco temas recorrentes na obra da escritora, como amor, existência, morte, solidão e criação. A proposta é aproximar diferentes gerações das reflexões que moviam Clarice, reforçando sua permanência como uma das vozes mais influentes da literatura brasileira.
Teatro Moise Safra R. Prof. Walter Lerner, 315 - Barra Funda @teatromoisesafra Últimas apresentações! | Sexta (30), às 20h | Sábado (31), às 16h e 19h De R$ 25 (meia-entrada) a R$ 120 (inteira) Saiba mais

Beth Goulart interpreta Clarice Lispector no Teatro Moise Safra. | Foto: Fabian / Divulgação.
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