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Última modificação outubro 16, 2026

Eduardo Martini apresenta seu repertório no Teatro das Artes

Ator revela seu processo criativo e bastidores de “Clô, Pra Sempre”, “Uma Lágrima para Alfredo” e “O Último Ato”

O último ato - Eduardo Martini Foto: Morgade

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    Conhecido por interpretar uma variedade de personagens cômicos nos palcos, Eduardo Martini entra na reta final de uma ‘residência’ artística no Teatro das Artes, sediado no Shopping Eldorado, na zona Oeste de São Paulo. O ator e produtor apresenta três espetáculos simultaneamente: “Clô, Pra Sempre”, no auditório principal do teatro; além de “Uma Lágrima para Alfredo” e “O Último Ato”, que se alternam na sala multiuso Wilson Rodrigues.

    Batizada em homenagem ao fundador do Teatro das Artes, a sala completou seu primeiro ano de atividades em setembro de 2026. Para comemorar a ocasião, Ecila Mutzenbecher, Lucas Mansor e Stephano Matolla, gestores do teatro, se uniram a Eduardo Martini para levar algumas obras do repertório do ator ao espaço.

    O projeto começou quando Eduardo lhes perguntou sobre a disponibilidade de datas do teatro para encenar o monólogo “Clô, Pra Sempre” no qual ele interpreta Clodovil Hernandes (1937-2009) e revisita a trajetória de vida do apresentador e estilista. Foi numa conversa com Stephano que surgiu a ideia de ocupar a sala multiuso. Enquanto o gestor queria a apresentação do monólogo dramático “O Último Ato”, Eduardo sugeriu a comédia “Uma Lágrima para Alfredo”, então optaram por fazer os dois. 

    “Eu vou de A a Z, né”, Eduardo Martini comentou em entrevista ao Viva a Cidade. “Nesta temporada no Teatro das Artes, eu interpreto uma persona, uma personagem feminina e faço um monólogo dramático.” Suas obras tem uma mescla de momentos de humor com a sensibilidade dos dramas, algo que alguns artistas chamariam de “comédia sentimental”. Ele explica que sua predileção por esse estilo é por causa da própria vida.

    “A vida é assim. A gente dá uma risada daqui. Percebe uma coisa ali e fica triste, depois já muda tudo”, exemplifica. “Aí a mãe liga, depois você se depara com uma notícia e pensa como a vida é efêmera. Acho que é por causa disso. Porque as pessoas conseguem ver vida dentro desses personagens.”

    Para algumas pessoas, estar em cartaz em três espetáculos diferentes entre si pode parecer bastante coisa. Mas, para Eduardo, a tarefa já faz parte de seu modo de trabalho: ele chegou a encenar cinco obras de seu repertório quando foi gestor do Teatro União Cultural.  

    “É um exercício de memória maravilhoso”, pondera. “É um exercício de concentração, de comprometimento. Tem que estar muito comprometido com aquilo que está fazendo, com o que está colocando para os espectadores.”

    O Último Ato

    Eduardo Martini interpreta o monólogo “O Último Ato”. | Foto: Morgade / Divulgação.

    Um ator-produtor

    A dedicação de Eduardo o acompanha desde o início de sua trajetória nos palcos. Natural de São Paulo, o ator estava vivendo com seus pais no Rio de Janeiro quando entrou nO Tablado, escola de teatro tradicional carioca fundada por Maria Clara Machado (1921-2001).

    Logo quando chegou à escola, fez um teste para participar da peça “Um Tango Argentino” e conseguiu entrar no elenco. Em seguida, fez um teste para o infantil “A Bruxinha que era Boa”. “Desde então, não parei mais, foi um projeto atrás do outro”, ele lembra.

    Um dos marcos em sua trajetória foi a participação na primeira montagem brasileira do musical “A Chorus Line”, em 1983, um espetáculo que exige das capacidades de dança dos atores, no qual atuou ao lado de Cláudia Raia. 

    Outro divisor de águas em sua trajetória foi a participação em uma montagem de “Quem tem Medo de Itália Fausta?”, em 2000. A peça é um clássico do besteirol escrita por Miguel Magno e Ricardo de Almeida, que brinca com o próprio fazer teatral – seu título remete a uma peça de Edward Albee e a uma diva do teatro brasileiro do século 1920. Ao trabalhar com Miguel, ele afiou o seu tino para as comédias. 

    “Minha formação sempre foi fazendo”, Eduardo explica. “Sempre tive muita vontade de me colocar como ator”. Foi por isso que rapidamente ele começou a produzir seus próprios projetos.

    “Eu sinto a necessidade de não esperar, então eu faço por onde acontecer. Sempre quis fazer muita coisa. Então fui vendo o que eu gostaria de fazer no palco, o que eu gostaria de comunicar às pessoas. A base de todo o meu trabalho é exatamente essa: o que eu gostaria de falar para as pessoas?”

    Atualmente, os espetáculos de seu repertório são frutos de parcerias forjadas ao longo dos anos. “São encontros”, explica. “De uma forma lúdica, o universo conspira a favor de alguns encontros, de algumas histórias, sabe? E aí eu vou organizando dentro da agenda.”

    Ser Clodovil Hernandes

    Eduardo percebeu que gostaria de interpretar Clodovil Hernandes logo depois que o estilista faleceu em março de 2009. “Eu quis fazer uma homenagem para ele”, explica. No entanto, faltava alguém para escrever o texto. Foi apenas em 2017 que Eduardo trabalhou com Bruno Cavalcanti no monólogo “Papo com o Diabo”, dirigido por Elias Andreato. Foi então que ele sugeriu para Bruno a escrita de um monólogo biográfico sobre Clodovil. O monólogo “Simplesmente Clô” estreou em 21 de novembro de 2020 no Teatro União Cultural. 

    “Resolvi ensaiar na cozinha da minha casa, com a diretora [Viviane Alfano] afastada com máscara e eu em outro canto. Fiz uma leitura que me deixou chocado com a minha percepção do Clodovil.”

    Sua interpretação lhe rendeu um Prêmio Bibi Ferreira de melhor ator em 2022. Alguns anos depois, Eduardo sentiu a necessidade de retomar o personagem sob outra perspectiva, foi assim que “Clô, Pra Sempre” estreou em janeiro de 2024 com texto de Raphael Gama, outro parceiro de longa data de Eduardo. Nesta versão, Clodovil revisita sua trajetória durante a comemoração de seu aniversário após chegar em Brasília como deputado federal.

    Clô, pra sempre - Eduardo Martini

    Eduardo Martini caracterizado como Clodovil Hernandes. | Foto: Claudia Martini e Ale Catan/ Divulgação

    Ao interpretar o estilista, Eduardo procura ser exatamente quem Clodovil foi. “Eu não posso fazer nada daquilo que ele não foi. Eu não o defendo, nem o critico”. O ator também entende que não pode caracterizar o personagem com qualquer adereço, seu figurino (assim como o cenário da peça) precisa aparentar certa luxuosidade: “não preciso ter objetos caros, mas o público precisa ver uma elegância em cena”, explica.

    “Por exemplo, não dá pra fazer o Clô com qualquer óculos. Eu tenho dois pares. Basta eu colocar o óculos, a minha sobrancelha já sobe, o personagem começa a aparecer. De 20 em 20 dias, eu passo quatro horas fazendo mecha no cabelo para deixá-lo nesse tom, isso me ajuda a caracterizar.”

    Apesar da aparência luxuosa, o que realmente interessa Eduardo no personagem está na vida interna de Clodovil e suas emoções.

    “Eu me interesso pela solidão que imagino que ele tinha”, conta. “A rejeição que ele sofreu pelo pai e mãe biológicos, pela mãe adotiva, pela mídia, pelos colegas de trabalho…”

    Nesse sentido, o que Eduardo aprendeu com Clô foi ter a coragem do estilista e apresentador.

    “Você imagina como deve ter sido, 40 anos atrás, uma pessoa se assumir homossexual, falar o que ele tinha que falar, não dever nada para ninguém; ser milionário num dia, perder tudo no outro.”

    Eduardo Martino - Clô, pra sempre

    Eduardo Martini em cena do monólogo “Clô, Pra Sempre”.  | Foto: Claudia Martini e Ale Catan / Divulgação

    Um sorriso para Dulce e Yolanda

    Também apresentado na ‘residência’ de Eduardo Martini no Teatro das Artes, a comédia “Uma Lágrima para Alfredo” foi escrita por seu parceiro Raphael Gama, com quem ele contracena no espetáculo.

    A peça coloca os dois para interpretar Dulce e Yolanda, duas idosas que se encontram na sala de espera de um hospital enquanto aguardam a morte dos maridos. Durante a espera, compartilham histórias, revelam segredos e protagonizam uma série de reviravoltas. A partir do casamento, a comédia aborda temas como maternidade, relacionamentos, família, homossexualidade e a vida de mulheres acima dos 60 anos.

    Uma Lágrima para Alfredo

    Raphael Gama (à esquerda) e Eduardo Martini (à direita) em “Uma Lágrima para Alfredo”. | Foto: Rodrigo Chueri / Divulgação

    Eduardo se envolveu com o projeto quando Raphael o convidou para fazer uma leitura da peça. Os dois decidiram produzir o espetáculo por conta própria. “Uma Lágrima para Alfredo” estreou na primeira edição do “Festival de Teatro de Mairiporã” em 13 de julho de 2019, onde foi vencedora do prêmio de “Melhor Peça”. O espetáculo também chegou a receber 3 indicações ao Prêmio do Humor em 2020.

    Como a peça foi produzida com poucos recursos financeiros, Eduardo decidiu assumir a direção ao mesmo tempo em que contracenava com Raphael, o autor.

    “Na falta de patrocínio, tive que me virar e aprender a me dirigir”, conta. “Tive de aprender a equilibrar a minha atuação com a direção e a produção. Felizmente, tenho um parceiro maravilhoso [o Raphael Gama]. Sempre tive pessoas muito legais ao meu redor. É maravilhoso estar com o Rapha em cena. Eu quero morrer de rir porque ele cria coisas hilárias. Assim como, quando escreve, ele não tem problema em mexer no próprio texto, sabe? Às vezes eu dou uma ideia de peça, uma premissa para ele a partir de algo que aconteceu comigo, e ele consegue escrever uma baita história sobre amizade.”

    Ao interpretar duas mulheres, eles procuram não cair no estereótipo. Por isso, a caracterização das personagens é simples: “A unha é nossa, só que pintada. Nós usamos sapato baixo”, exemplifica. “Quando muito, nós colocamos uma prótese de peito.”

    “Quando um homem interpreta uma mulher, a gente tem como se fosse um marca-texto. De qualquer forma, nós trabalhamos com a verdade que a história nos dá, a necessidade da narrativa. O texto te leva a um encaminhamento. E o Rapha tem a expertise de conseguir falar sobre todas as mulheres – nós conseguimos abordar situações que acontecem com todas elas sem precisar cair em estereótipos.”

     Raphael Gama e Eduardo Martini em "Uma Lágrima para Alfredo"

    Cena de “Uma Lágrima para Alfredo”. | Foto: Rodrigo Chueri / Divulgação

    Diante da finitude

    Quando Antonio Cícero morreu em 23 de outubro de 2024, o Brasil passou a olhar de forma diferente para o tema do suicídio assistido. Após anos lutando contra Alzheimer, o poeta e filósofo foi para Zurique, na Suíça, acompanhado por seu marido Marcelo Pires, onde o suicídio assistido é legalizado. Sua carta de despedida emocionou os brasileiros não só por sua honestidade e o relato da doença, como pela valorização das amizades que teve em vida.

    Ao se deparar com o tema, Eduardo Martini sentiu a necessidade de participar da conversa e encomendou a Franz Keppler o texto que, hoje, pode ser assistido no espetáculo “O Último Ato”, dirigido por Elias Andreato.

    Na trama, um pintor e seu companheiro mais jovem preparam-se para viajar à cidade do Porto, em Portugal. Esta viagem seria o último destino antes da decisão definitiva do pintor de recorrer ao suicídio assistido, também devido ao agravamento dos sintomas de Alzheimer.

    Neste solo, Eduardo interpreta o marido do pintor que liga para seus amigos mais próximos em busca de consolo. Essas conversas constroem diferentes pontos de vista sobre a escolha, ampliando o debate e revelando, sobretudo, a força dos vínculos afetivos. 

    “É muito bacana e, ao mesmo tempo, muito difícil fazer esse texto”, Eduardo explica. “Porque bate diferente para a gente que já perdeu algumas pessoas, no sentido que até mesmo as separações são como uma espécie de morte, elas têm um luto do qual você fica se curando. Nesse texto é possível se reconhecer em muitas ocasiões, em muitas falas, em muitos sentimentos.”

    Mesmo estando sozinho em cena, Eduardo afirma gostar de fazer monólogos. “É um momento de desafio”, relata. “Eu brigo comigo mesmo, me mando embora, depois me aceito, faço as pazes e volto pra peça”.

    Este é seu sétimo solo. Ainda que seja mais fácil de produzir e fazer novas temporadas, ele explica que a divulgação é mais difícil.

    Porque eu não sou um pessoa exatamente famosa. Mas acho que os espectadores têm uma empatia bacana com o meu trabalho. Os monólogos têm uma conversa muito direta com a plateia.”

    O último ato - Eduardo Martini

    Eduardo Martini em cena de “O Último Ato”. | Foto: Morgade / Divulgação

    Um artista incansável

    Devido ao êxito dessa temporada tripla, os gestores do Teatro das Artes já planejam colocar mais espetáculos do repertório de Eduardo. Com um catálogo abrangente, o ator não saberia dizer qual é a sua obra favorita. “Eu vou deixando a vida me elevar um pouco, sabe?”, confessa. Seus próximos espetáculos vão surgindo naturalmente de conversas com seus parceiros.

    “Não sei se tenho uma peça que eu gostaria de fazer a minha vida inteira. Mas o Clodovil é meu carro-chefe. Eu ainda quero fazer o filme do Clô e é por isso que não paro de fazer esse trabalho. Esse é um dos espetáculos que, vendo o resultado do público, percebo que estou no caminho certo.”

    O caminho de Eduardo sempre foi pautado por muito trabalho. Enquanto está em cartaz com um espetáculo, ele já reensaia o próximo e pensa em projetos futuros, quem sabe uma adaptação musical de um Shakespeare? Muitas pessoas lhe perguntam como ele consegue se manter tão ativo. E a resposta: “É só fazer, ué.”

    “Não tem gente que trabalha das 7 da manhã às 6 da tarde, de segunda a sábado? Meu trabalho é assim. Eu sou privilegiado de viver de arte, sabe? É uma batalha grande, é uma vida, digamos, complicada. Mas eu sou muito privilegiado. Acho que isso é fruto do comprometimento que tenho e daquilo que deixo para o público. E é tão gostoso não estar engessado dentro de um trabalho, sabe? Estar sempre estudando, fazendo, acontecendo. Me deixa muito saudável”

    Onde ver?

    Teatro das Artes (Shopping Eldorado)
    Av. Rebouças, 3970 - Pinheiros
    @teatrodasartes
    “Clô, Pra Sempre” | Auditório
    Quartas, às 20h - até 28/out | De R$ 60 (meia-entrada) até R$ 160 (inteira)
    “Uma Lágrima para Alfredo” | Sala Multiuso
    Sábados, às 21h - até 30/out | R$ 50 (meia-entrada) e R$ 100 (inteira)
    “O Último Ato” | Sala Multiuso
    Domingos, às 18h - até 01/nov | R$ 50 (meia-entrada) e R$ 100 (inteira)
    

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    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.