A corrida de rua deixou de ser apenas uma modalidade esportiva e virou fenômeno.
As provas estão cada vez mais presentes nas cidades, as assessorias esportivas ganharam espaço, e as redes sociais transformaram quilômetros percorridos em metas, desafios e motivo de celebração.
No Brasil, esse crescimento é expressivo. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO), o número de corridas de rua oficiais passou de 2.827, em 2024, para 5.241, em 2025 um aumento de 85%.
Estimativas recentes apontam que milhões de brasileiros estão envolvidos com a modalidade.
Prática democrática
Correr nunca esteve tão democrático. E isso é uma ótima notícia!
Mas existe um outro lado dessa popularização: muita gente está querendo correr antes de estar preparada para correr.
O problema não está na corrida. Pelo contrário.
A modalidade está associada a diversos benefícios para a saúde, como a melhora do condicionamento cardiorrespiratório, a auxílio no controle do peso e aumento da qualidade de vida.
A questão está na velocidade com que algumas pessoas tentam evoluir.
É comum alguém começar correndo poucos quilômetros e, em pouco tempo, estabelecer como próxima meta uma prova de 10 km, uma meia maratona ou até uma maratona.
Em muitos casos, distância, velocidade e frequência de treino aumentam simultaneamente.
O corpo, porém, não funciona no ritmo das inscrições.
Resposta do organismo
O sistema musculoesquelético precisa de tempo para se adaptar às cargas repetitivas da corrida.
Ossos, músculos, tendões e articulações passam por um processo progressivo de adaptação.
Quando a carga aumenta mais rápido do que essa capacidade de ajuste, surgem as lesões por sobrecarga.
Problemas nos joelhos, canelite, tendinite do tendão de Aquiles, fascite plantar e lesões musculares estão entre as queixas frequentemente relatadas por corredores.
A literatura científica também mostra que as lesões em corredores de rua atingem predominantemente os membros inferiores, com o joelho entre as regiões mais acometidas.
Em uma entrevista publicada recentemente, o ortopedista Moisés Cohen, do Hospital Israelita Albert Einstein, chamou atenção justamente para esse processo: cada treino representa uma demanda ao organismo, enquanto descanso, sono, alimentação e fortalecimento ajudam o corpo a se recuperar e se adaptar.
É aí que entra uma mudança importante na cultura da corrida: é preciso entender que correr mais não significa, necessariamente, treinar melhor.
O fortalecimento muscular, por exemplo, não deveria ser encarado apenas como um complemento para quem corre. Ele faz parte da preparação física.
Trabalhar força, controle de movimento e capacidade de suportar carga pode ajudar o corredor a construir uma base mais consistente para aumentar seu volume de treinamento.
Mas, também é necessário falar sobre descanso.
Adaptação é a chave
Existe uma cultura de valorização do esforço permanente: quanto mais treino, melhor; quanto mais quilômetros, melhor; quanto mais rápido, melhor.
Só que adaptação não acontece durante o esforço: ela depende também da recuperação.
Sono ruim, alimentação inadequada e aumento exagerado da carga formam uma combinação que pode transformar uma atividade saudável em um problema.
E talvez essa seja a principal lição do atual boom visto nas corridas: não precisamos diminuir a quantidade de pessoas correndo.
Precisamos aumentar a quantidade de pessoas correndo com orientação e planejamento.
A melhor corrida não é necessariamente aquela em que você bate seu recorde.
É aquela que permite que você queira e consiga correr novamente na semana seguinte.
No fim das contas, correr é colocar um pé na frente do outro.
Treinar para correr, porém, é preparar o corpo para repetir esse movimento milhares de vezes.
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