Ícone da música brasileira, a cantora paulista Rita Lee (1947–2023) é conhecida por canções tão divertidas quanto provocadoras, e por uma trajetória de vida pautada pela luta a favor da liberdade e pela dignidade, tanto humana quanto animal.
Ela ficou conhecida como a ‘Rainha do Rock’, e seu repertório também incluía gêneros musicais como pop rock, psicodelia, disco, new wave e até bossa nova – uma versatilidade que conquistou uma legião de fãs pelo país.
Rita tratava um câncer de pulmão quando o quadro se agravou, e ela morreu em 8 de maio de 2023. Na ocasião, diversos artistas prestaram tributos à cantora, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial, em respeito ao legado da artista.
Passados três anos, fica evidente que a saudade sempre vai ser grande. Felizmente, é possível relembrar a trajetória da cantora em alguns palcos da capital paulista: dois espetáculos que contam sua história estão atualmente em cartaz na cidade.
Um deles, “Uma Autobiografia Musical”, é apresentado no Teatro Porto Seguro, nos Campos Elíseos (região central). O outro é o monólogo “Balada da Louca”, que estreou há poucos dias e está em temporada no Teatro FAAP, em Higienópolis, entre o Centro e a zona Oeste.

Lília Cabral interpreta Rita Lee em “Balada da Louca”. Foto: Cauê Moreno
Ambas as peças são adaptações de livros de memórias escritos pela própria Rita, em parceria com o jornalista Guilherme Samora – que, de fã, tornou-se amigo, biógrafo e, agora, dramaturgo.
Ele participa da produção e acompanha de perto toda a concepção das montagens. Em entrevista ao Viva a Cidade, Guilherme conta que, nesses trabalhos, sempre pensa no que poderia agradar ou não a cantora.
E ele a conhece como ninguém mais: o primeiro disco que ouviu na vida foi “Rita Lee” (1979), e música “Maria Mole” foi seu primeiro ‘elo’ com a cantora. “A partir daí, só queria saber de ouvir Rita, queria revistas com fotos dela para colecionar…”, recorda. Ele a conheceu ainda criança, quando foi a um show:
“Ela me viu na plateia, e nos conectamos. É muito especial poder ter essa proximidade com uma pessoa tão genial e amorosa. Agradeço esse privilégio todos os dias.”
A amizade que ambos cultivaram resultou na publicação do livro “Rita Lee: Uma Autobiografia” (Globo Livros), publicado em novembro de 2016.
Nesse volume, a cantora narra suas memórias, relatando detalhes de sua infância e de sua trajetória na música.
Como a memória é uma coisa que costuma ‘escapar’, um tal de “Phantom” assombra as páginas do livro, para corrigir imprecisões ou ajudar Rita a se lembrar de detalhes – o papel desse ‘fantasminha’ é desempenhado justamente por Guilherme que, ao longo da vida, de fato colecionou diversos materiais a respeito da artista.

Guilherme Samora e Rita Lee. Foto: Acervo de Guilherme
Primeira experiência
Antes disso, em 2014, o musical “Rita Lee Mora ao Lado” já fazia sucesso na capital, no Teatro das Artes (Shopping Eldorado).
Adaptação do livro de mesmo nome, escrito por Henrique Bartsch, o musical se valia de um dispositivo ficcional: quem contava a história de vida da ‘Rainha do Rock’, interpretada por Mel Lisboa, era uma ‘vizinha’ da cantora, que tinha acompanhado toda a sua vida.
A própria Rita chegou a assistir ao musical e ‘deu a bênção’ para que a atriz interpretasse em projetos futuros.
Foi assim que Mel e Guilherme se encontraram, primeiramente, na gravação do audiolivro de “Uma Autobiografia”.
O jornalista diz que, naquela época, já havia um pedido de Rita para que fosse encenado o musical adaptando seu livro de memórias. “Ela queria ver a Mel nos palcos, novamente a interpretando”, explica.

Mel Lisboa (Rita Lee) e Bruno Fraga (Roberto de Carvalho) em “Rita Lee: Uma Autobiografia Musical”
Quando Guilherme foi transformar o livro em dramaturgia, ele só pensou em sua ‘ídola’.
“Não cabe um livro inteiro em duas horas [de peça]. Então, eu pensava no que agradaria a Rita, em como ela gostaria que [o espetáculo] ficasse. Por isso mesmo, parti para dois grandes temas, que costuram todo o espetáculo: por um lado, o desacato à autoridade e a liberdade; por outro, o amor de Rita e Roberto de Carvalho. Acho que, com o foco no que é mais importante para Rita, acabamos agradando o público. Claro, também devemos muito à magistral interpretação da Mel Lisboa, que encarna a Rita de maneira impressionante.”
De fato, “Rita Lee: Uma Autobiografia Musical”, dirigido por Márcio Macena e da Débora Dubois, é um sucesso de público. Pouco antes de estrear, em 26 de abril de 2024, os ingressos já estavam esgotados. Foram abertas sessões extras, e a temporada foi prorrogada e, mesmo assim, as entradas eram vendidas em questão de minutos.
O musical ainda rendeu a Mel Lisboa o “prêmio Shell” de Melhor Atriz, e ela também recebeu uma indicação ao prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), na mesma categoria.
A “Autobiografia Musical” retornou a São Paulo para outra temporada, no primeiro semestre de 2025. Fez apresentações ao redor do país e, desde meados de abril, está de volta aos palcos, no Teatro Porto.
Últimos anos
Já a ideia de transformar o segundo livro de memórias de Rita, “Outra Autobiografia”, veio do próprio Guilherme. Nesse volume, a cantora escreve um relato sobre o diagnóstico de câncer no pulmão e do tratamento, além de falar sobre sua rotina naquele momento e refletir sobre os caminhos que sua vida tomou.
“A ideia apareceu no final de setembro [de 2025]; eu estava quase dormindo e senti um sopro: ‘escreve um monólogo baseado na segunda autobiografia’. No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi ligar para o Roberto, que recebeu a ideia da maneira mais calorosa possível e me deu muita força. Ele amou a ideia de Rita ser interpretada pela Lilia Cabral”, revela.
Logo após conversar com o companheiro da cantora, Guilherme entrou em contato com seus parceiros da produtora Brancalyone e, graças a uma ‘ponte’ oferecida por Nany People, conseguiu entrar em contato com a atriz, para lhe oferecer o papel. “Para minha surpresa, ela aceitou na hora!”
“Ao escrever o texto, procurei ser o mais fiel possível à Rita e ao livro. O tema [os últimos cinco anos de sua vida e o câncer] é delicado. Mas ela trata com humor, ironia e ‘autodeboche’. Esse foi nosso foco maior. E o que se vê no palco vem, na maior parte, da força da interpretação da Lilia: o que ela faz no teatro é mágica! Temos a sorte e o luxo do próprio Roberto ter gravado os pianos e a trilha original para o espetáculo. Não podia ser mais bonito.”
Os espectadores podem assistir ao resultado desse trabalho, dirigido por Beatriz Barros, no Teatro FAAP. O monólogo estreou em 22 de maio, dia no qual se homenageia Santa Rita de Cássia, padroeira das causas impossíveis . Essa foi a data que Rita Lee escolheu, em homenagem à santa, para também celebrar seu aniversário, já que o dia oficial sempre foi ‘ofuscado’ pelo Réveillon. Uma data de estreia como essa não poderia ter sido mais propícia!
Conheça, a seguir, os espetáculos que homenageiam Rita Lee e veja as datas e locais de apresentação:
Uma Autobiografia Musical
Protagonizado por Mel Lisboa, o musical acompanha a trajetória de Rita Lee desde a infância até o fim de sua vida, passando por grandes momentos da história da cantora, como a fundação da banda Os Mutantes e a longa relação de amor e colaboração artística com Roberto de Carvalho.
Teatro Porto Al. Barão de Piracicaba, 740 - Campos Elíseos @teatroporto | @ritaleeumaautobiografiamusical Sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 17h | Até 30 de agosto De R$ 75 (meia-entrada) até R$ 220 (inteira) Saiba mais
Balada da Louca
Ao ser diagnosticada com câncer de pulmão, em 2021, Rita Lee decidiu escrever uma espécie de diário, que acabou se tornando o segundo volume de sua autobiografia, “Rita Lee: Outra autobiografia” (Globo Livros), lançado em 2023.
Agora, a obra se transforma em um monólogo, protagonizado por Lília Cabral. A história é centrada nos últimos e desafiadores anos desse grande ícone da MPB. Assim como no texto original, a peça aborda uma das grandes marcas de Rita: a franqueza crua — ora chocante, ora irônica, ora sutil e amorosa.
Teatro FAAP R. Alagoas, 903 - Higienópolis @teatrofaap | @ritaleebaladadalouca Sextas e sábados, às 20h | Domingo, às 17h | Até 09 de agosto R$ 180 (inteira) e R$ 90 (meia-entrada) Saiba mais
Conheça os livros
Os livros “Rita Lee: Uma Autobiografia” e “Rita Lee: Outra Autobiografia” foram publicados pela editora Globo Livros e podem ser adquiridos individualmente na versão impressa por R$ 74,90 (cada um) ou R$ 49,90 (cada um) na versão e-book.
A editora também lançou um box que reúne ambos os livros, com a adição do livro de contos “Dropz”, também escrito pela cantora. Esse conjunto pode ser adquirido por R$ 169,90 (impresso) ou R$ 140,90 (e-book).
Uma variedade de livros escritos por Rita, de infantis a livros de ficção, também podem ser encontrados no catálogo da editora Globo Livros.
Já o livro “Rita Lee Mora ao Lado“, de Henrique Bartsch, foi relançado pela editora Garota FM Books em 2024, e pode ser adquirido por R$ 75.
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