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Última modificação abril 17, 2026

Renato Borghi reencontra sua ‘musa’

Protagonizado por Soraya Ravenle, musical “Minha Estrela Dalva” homenageia Dalva de Oliveira

Renato Borghi e Soraya Ravenle em "Minha Estrela Dalva". Foto: João Caldas

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    O espetáculo Minha Estrela Dalva”, que está em cartaz no Teatro Sesi, conta a história de um fã e uma rainha. Ela é Dalva de Oliveira (1917-1972), que foi considerada a ‘rainha da voz’ brasileira.

    Com uma extensão vocal que ia do contralto ao soprano, a cantora rio-clarense, de ascendência portuguesa, também recebeu a alcunha de ‘o rouxinol do Brasil’.

    Além de ter encantado uma legião de fãs, foi ela quem fez com que Renato Borghi quisesse se tornar um artista.

    Ele se lembra que tentava replicar a intensidade da cantora em seus primeiros anos como ator: “Eu queria aquela emoção da Dalva”, recorda. “Porém, não cabia nos papéis que eu fazia…”.

    Hoje, Borghi é um diretor e dramaturgo experiente, e sobe ao palco para relembrar a trajetória da cantora, que é interpretada por Soraya Ravenle.

    Não se trata exatamente uma biografia, não nos moldes esperados.

    Isso porque o enredo parte de um dispositivo peculiar: a peça se inicia quando um jovem Renato (interpretado por ele mesmo e também por Élcio Nogueira Seixas) visita o camarim da artista após um show, para convidá-la para atuar em uma peça.

    Renato Borghi, Soraya Ravenle e Élcio Nogueira Seixas em “Minha Estrela Dalva”. | Foto: João Caldas/Divulgação

    O próprio título do espetáculo, “Minha Estrela Dalva” dá uma pista disso: a Dalva de Oliveira que o público vai conhecer é retratada a partir da perspectiva de Renato Borghi, é aquela que ele conheceu.

    No fim das contas, o musical talvez seja uma dupla biografia: a personagem Dalva faz alusões ao fato de que o próprio Renato, agora aos 89 anos de idade e 68 de carreira artística, se tornou também uma referência em seu campo.

    Além de fã, Renato teve a oportunidade de ser amigo da cantora, em seus anos finais de vida.

    “Comecei a visitá-la naquela casa de Jacarepaguá”, recorda-se. “Era uma casa grande, com jaula de macaco, cachorrinho chihuahua, tinha piscina, era uma coisa muito interessante…”. 

    “Nos últimos dez anos eu me aproximei dela. Levei-a para jantar no Gigetto [restaurante situado no Bixiga, que foi ponto de encontro dos artistas da cidade]. Saí com ela várias vezes, batendo muito papo, ficamos próximos, amigos mesmo. Eu tenho muita saudade da Dalva.”

    Esses encontros serviram de pesquisa para um musical, escrito em parceria com João Elíseo Fonseca, chamado “A Estrela Dalva”, que foi protagonizado por Marília Pêra (1943-2015), em 1987.

    “Até hoje, eu ouço a Dalva todos os dias. Eu tenho a Dalva em disco, e é uma presença que está sempre comigo”, declara.

    “Então, de repente eu tive vontade de trazer ela de volta. Depois de quase 40 anos. Aí sentei e escrevi uma outra história. Agora é ‘Minha Estrela Dalva’, é muito mais particular.”

    No musical protagonizado por Marília, uma das participantes do coro foi Soraya Ravenle, em sua estreia nos palcos. Agora, ela volta à cena para assumir o papel da cantora.

    “É uma volta de 360° na minha vida, quase toda dedicada ao teatro musical brasileiro”, a atriz comenta.

    Ela conta que, assim que foi convidada para participar do espetáculo, mergulhou na figura de Dalva de Oliveira, para entender quem foi aquela figura.

    “Eu estudei tudo o que eu pude. Vi tudo que tem dela na internet – que não é muita coisa, tem poucas imagens dela em movimento. Mas tem muito material em áudio. Fiz uma varredura no Spotify, no YouTube… Fora os livros: o que eu mais me encantou e me alimentou muito foi o “Minhas duas estrelas”, a biografia escrita pelo Pery Ribeiro – que é um livro incrível no qual você fica sabendo muita coisa do cotidiano e que ninguém conta.”

    Soraya explica que começou estudando o canto de Dalva sozinha, mas depois decidiu pedir conselhos a Gilberto Chaves e Felipe Abreu, suas duas referências em matéria de voz.

    Para a artista, seu trabalho está em promover uma aproximação com quem Dalva realmente foi, “porque, de toda maneira, o que eu faço é uma tradução”, afirma. 

    “É uma tradução possível dentro do meu corpo e da minha voz. Se fosse outra pessoa, faria outra tradução. Então, eu me aproximo ao máximo. De onde sai esse canto? É um canto desesperado, é um canto com muita dor. Ela botava todas as dores dela ali. Ela cantava assim, no limite do limite. O temperamento e a vocalidade da Dalva eram sempre na beira de precipício”, avalia.

    Biografias e relacionamentos

    Dalva é a quarta figura histórica interpretada por Soraya, que também atuou como Dolores Duran, Carmen Miranda e Isaura Garcia.

    “Essas mulheres me ensinam, de fato, a cantar. Quando eu estudo, preciso estudar muito a época, o canto, o que aconteceu, o momento histórico. Assim, elas me ensinam sobre o Brasil, elas me ensinam a viver e me ensinam a cantar.”

    Soraya Ravenle, em “Minha Estrela Dalva”. | Foto: João Caldas/ Divulgação

    Quem também divide o palco com Soraya, Borghi e Élcio Nogueira é o ator Ivan Vellame, que dá vida aos maridos que Dalva teve ao longo da vida: Herivelto Martins, Bruno, Kiko.

    Não foram relacionamentos fáceis, alguns chegaram a controlar a cantora e serem violentos com ela.

    Para Ivan, os homens que ele representa estranhavam o amor: “São figuras que traduzem uma sociedade extremamente machista e cruel com o feminino, na qual tudo que é feminino é tratado com desvalorização, é colocado em oposição ao masculino”, reflete. Interpretar esses homens é uma carga difícil, mas necessária.

    “Essas figuras precisam ser apresentadas no teatro e em outras obras artísticas, para que as pessoas que estejam assistindo, principalmente os homens, entendam que nós todos somos responsáveis por isso [desigualdade de gênero]. A gente precisa pensar sobre nossas atitudes e falar sobre a saúde mental masculina. As angústias e medos impostos pela sociedade, sobre o que a gente pode ou não falar, pode ou não tocar, vão nos tornando cada dia piores”, explica.

    Ivan Vellame e Soraya Ravenle, em cena de “Minha Estrela Dalva”. |  Foto: João Caldas/Divulgação

    Sob a direção de Elias Andreato, em colaboração com Élcio Nogueira Seixas, a montagem constrói um universo onde o esplendor das rádios dos anos 1950 encontra a crueza do teatro épico de Brecht, revelando a mulher por trás do mito, e o fã por trás do ator.

    O distanciamento brechtiano ocorre quando Soraya remove sua peruca e mostra que há uma atriz interpretando Dalva.

    “Esse movimento direciona um pouco o olhar para mostrar que nós estamos falando dela, que estamos homenageando ela. Mas, quem está no palco somos o Renato e eu, Soraya. Nós colamos naquela figura e deixamos toda a sua história nos atravessar”, a atriz comenta.

    Renato diz não ter escrito a peça para ‘embalsamar’ Dalva em nostalgia, mas para devolvê-la ao palco viva, contraditória e indomável: uma mulher que bebe demais, que mostra as pernas, que faz reza forte contra os ex-companheiros, que briga com o diretor e reescreve as próprias cenas.

    Ao não idealizá-la, “Minha Estrela Dalva” demonstra para as mulheres de hoje que o poder da ‘rainha da voz’ não vinha de uma suposta perfeição, mas de sua inteireza.

    SERVIÇO – Minha Estrela Dalva

    Teatro Sesi (Centro Cultural Fiesp)
    Av. Paulista, 1.313, Cerqueira César
    @centroculturalfiesp
    De quinta a sábado, às 20h | Domingo, às 19h | Até 12 de julho
    Entrada gratuita – reservas aqui
    Saiba mais

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.