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Última modificação maio 15, 2026

Peça mostra acolhimento como alternativa ao suicídio

Em cartaz na FAAP, “#malditos16” tem Ricardo Waddington como diretor, além do filho e ex-mulher no elenco

"#malditos16". Foto: RonladoGutierrez

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    A saúde mental dos adolescentes e tentativas de suicídio entre jovens são os temas principais de “#malditos16”, peça do dramaturgo espanhol Nando Lopez, com montagem brasileira em temporada no Teatro FAAP até 04 de junho.

    Dirigido por Ricardo Waddington, o espetáculo tem no elenco Pedro Waddington, seu filho, e Helena Ranaldi, mãe de Pedro e sua ex-esposa, entre outros atores.  

    Traduzido por Flávio Marinho, o texto retrata o encontro de um grupo de ex-pacientes de um hospital psiquiátrico. Os quatro jovens se conheceram quando tinham entre 15 e 16 anos, quando estavam internados em uma instituição, após tentativas de suicídio.

    O título da peça faz referência às dificuldades emocionais que podem surgir na adolescência, especialmente nessa faixa etária.

    Anos depois, já na casa dos 20 anos, eles são convocados pela psiquiatra Violeta (interpretada por Helena Ranaldi) para participar de um projeto de apoio a adolescentes que atravessam situações semelhantes. O reencontro faz emergir memórias, conflitos e reflexões sobre família, escola, relações afetivas e pertencimento.

    De volta ao teatro

    Após mais de quatro décadas de sucessos na teledramaturgia brasileira, Ricardo Waddington retorna ao teatro para dirigir a primeira montagem brasileira da peça.

    No início dos anos 2000, Waddington esteve à frente da minissérie “Malhação”, justamente quando o programa passava por uma reformulação. “A gente saiu do ambiente da academia e fomos para a escola. Com isso, conseguimos tratar de assuntos bem importantes”, afirma.

    Ao pensar sobre o projeto deste espetáculo, o diretor já tinha em mente assuntos que lhe interessavam: “Quando eu saí da Globo, eu sabia que queria voltar ao meu início, voltar [a falar da] adolescência. Então, comecei a pesquisar vários temas que me interessavam bastante”, conta.

    Foi assim que ele chegou ao escritor espanhol e a seu texto sobre saúde mental entre adolescentes. Ele acredita que a experiência com o programa ajudou a entender a maneira certa de abordar temas delicados, assim como o universo dos adolescentes e a trabalhar com elencos jovens.

    Benjamin, Helena Ranaldi e Sara Vidal em “#malditos16”. Foto: Ronaldo Gutierrez/Divulgação

    Entretanto, ele considera que a temática da peça e os assuntos abordados não ‘caberiam’ em “Malhação”.  Ele explica: “No teatro você pode tratar de temas de uma maneira que, numa televisão de massa, você dificilmente vai conseguir”.

    “[No teatro] você pode ter o recorte de um assunto e se aprofundar nele. Na televisão, muitas vezes, você não consegue se aprofundar, por várias questões: o tempo de duração do episódio ou o fluxo de programa… Então, você acaba jogando um tema no colo do espectador e, de repente, após 25 minutos de programa, esse tema é mudado para uma outra história. O público fica com essa história ‘no colo’, sem saber exatamente o que fazer com aquilo. Então, o fato de nós trazermos esse tema para um palco, com a presença de uma plateia, torna essa conversa aprofundada e o mais adulta mais possível.” (RICARDO WADDINGTON)

    Ao abordar um tema tão delicado como o suicídio, o diretor afirma que, em sua concepção, que não existe tema proibido. “Acredito que existe a maneira certa ou mais apropriada para tratar de suicídio.” Para isso, diz, é importante saber para quem se está falando e abordar o assunto com cuidado.

    “Não pode ser simplesmente jogado como um fato: ‘um número x de adolescentes tentou suicídio’ – isso é apenas uma notícia. Quando fala em suicídio, em qualquer idade ele um fenômeno que é a ponta do iceberg. Tem toda uma trajetória que, como a peça fala, apresenta muitos sinais. Normalmente, muitos sinais são falados, são mostrados. Não são estudados, não são sentidos, são percebidos.” (RICARDO WADDINGTON)

    No palco

    O elenco tem um núcleo jovem, formado por Benjamín, Julia Maez, Pedro Waddington e Sara Vidal. Eles foram escalados, segundo o diretor, em um processo que incluiu um workshop.

    “A partir desse workshop, identificamos talentos, sensibilidades e possibilidades para os personagens. Minha proposta era encontrar pessoas próximas de quem são as personagens. Este é um elenco que, pela idade, pela experiência, pela vivência, estão muito próximos desse assunto.” (PEDRO WADDINGTON)

    Ao ser escalado pelo pai para trabalhar com a mãe, o ator Pedro Waddington afirma ter percebido que seria difícil criar uma separação entre as figuras paterna e materna das figuras de colegas de trabalho, mesmo já tendo a experiência de trabalhar em família: ele já havia atuado ao lado da mãe na peça “O Retorno”, no começo deste ano.  

    “Na verdade, acho que eu utilizo a nossa intimidade, que construí ao longo da minha vida, para me ajudar no processo criativo. A gente tem uma relação muito próxima, então é muito difícil tirar esse lugar do pai e mãe para entrar no lugar profissional. Isso meio que se mistura.” (PEDRO WADDINGTON)

    Pedro Waddington em “#malditos16”. Foto: Ronaldo Gutierrez

    Essa sensação de coletividade, parceria e acolhimento parece ter se expandido para todo o elenco, que encontra um no outro o apoio para abordar os temas delicados apresentados em cena.

    “A gente tem uma coisa muito legal de ter criado uma rede de apoio aqui”, fala Benjamin. “Nós formamos esse coletivo para poder ‘trocar’ e nos fortalecermos. Principalmente, quando a peça acaba e, às vezes, precisamos de ter alguém para conversar e dar aquele abraço”, completa.

    O elenco de “#malditos16”. Foto: Ronaldo Gutierrez

    Mesmo quando não está na cena, o elenco permanece no palco durante toda a peça, cada um sentado em cadeiras, nos cantos do palco. Helena Ranaldi revela que, por isso, se emociona muito assistindo ao espetáculo. “Eu choro o tempo todo”, confessa.

    “Então, eu estou trazendo essa emoção para a minha personagem. Acho que a Violeta tem isso: ela é afetuosa, ela é carinhosa, ela é maternal. É importante que ela seja assim, porque ela está lidando com pessoas de 15 anos. São crianças, adolescentes. Então acho que é importante que tenha esse cuidado, esse amor, essa troca.” (HELENA RANALDI)

    Para ela, o que há de bonito no espetáculo é que são quatro histórias que tiveram um final feliz. “São jovens que passaram por muita dor, por um desespero profundo, mas que encontraram uma maneira de seguir em frente”, afirma.

    Quanto a isso, Waddington alerta que o silêncio pode ser tão perigoso quanto a dor que ele tenta esconder. “Esta peça dá luz a determinados temas, que muitas pessoas não sabem nem como lidar, nem como começar a conversar sobre isso. Estamos tentando abrir essa possibilidade de diálogo”, conclui.

    Julia Maez e Helena Ranaldi, em “#malditos16”. Foto: Ronaldo Gutierrez/Divulgação

    SERVIÇO

    Teatro FAAP
    Rua Alagoas, 903, Higienópolis
    @teatrofaap | @malditos16teatro
    Quartas e quintas às 20h | Até 04 de junho 
    Não haverá espetáculo nos dias 20, 21 e 28 de maio | Sessão extra dia 26 de maio, terça, às 20h
    De R$ 50 (meia) a R$ 100 (inteira)
    Saiba mais

    NOTA: Este espetáculo aborda temas relacionados à saúde mental. Caso você esteja enfrentando sofrimento emocional ou pensamentos suicidas, procure apoio profissional. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece escuta e orientação gratuita, 24 horas por dia. Tel: 188 • www.cvv.org.br

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.