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Última modificação maio 12, 2026

Há algo de ‘hamletiano’ em São Paulo

Além da peça no Copan, capital recebe em maio outros 4 espetáculos inspirados na obra de Shakespeare

Xilogravura de Edward Gordon Craig para a publicação do texto de "Hamlet" feita pela editora Cranach Press

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    Sucesso de público e crítica, “Hamlet – sonhos que virão” continua em cartaz no Cine Copan, com novidades: a partir de 16 de maio, sábado, o ator Ícaro Silva assume o papel-título (anteriormente interpretado por Gabriel Leone).

    E, no final de semana seguinte, a peça “Rosencrantz e Guildenstern estão mortos” entra em cartaz, aos domingos, no mesmo teatro, após a apresentação da tragédia de Shakespeare.

    Escrita por volta de 1599 e 1601, “A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca” é considerada um marco do teatro e uma obra-prima, por captar o zeitgeist, isto é “o espírito do tempo” daquela época.

    Sofia Nestrovski, escritora e estudiosa de literatura inglesa, explica que um dos marcos da peça é o fato de o protagonista ser um ‘herói da consciência’. “O que impressiona nesse personagem é o tamanho da consciência dele e o quanto seus pensamentos se parecem com os nossos”, diz.

    Sofia afirma que, ao longo da peça, o que Hamlet mais faz é duvidar: ele questiona se o espírito que viu é o fantasma do pai ou um demônio, duvida da inocência de sua mãe e da lealdade de seus amigos.

    “Toda a estrutura da peça é calcada na dúvida: os leitores ou espectadores também duvidam do protagonista, não sabem se ele está louco, se está apenas fingindo, e se, de fato, ama Ofélia”.

    Para Sofia, “é uma peça da dúvida no século da dúvida”.

    A peça de Shakespeare foi escrita no contexto da Renascença, quando a Europa passava por mudanças em seu sistema de crenças. Enquanto Copérnico colocava o Sol no centro do universo, as reformas protestantes também abalaram os dogmas cristãos e o poder da Igreja.

    “[O século 17, de 1601 a 1700] é o século de Galileu, o século de Montaigne, século de muitos pensadores que estavam tentando encontrar caminhos para lidar com a falta de estabilidade política, religiosa e de sistema filosófico daquele momento”, explica a especialista. “Em vez de formular uma nova doutrina de certezas rígidas, o que esses pensadores fizeram foi uma grande valorização da dúvida em si mesma.”

    Longevidade

    Qual seria o segredo da longevidade de “Hamlet”? Segundo Sofia, uma hipótese é a capacidade do texto original conseguir se comunicar com todos que sentem uma falta de correspondência entre sua vida interior e a maneira como se é percebido no mundo. 

    “Acredito que a peça fala muito para muita gente, e ainda vai continuar falando, porque ele consegue traduzir isso maravilhosamente: essa sensação de que não somos apenas o papel que interpretamos no mundo”, pondera. “Tem alguma outra coisa. E essa outra coisa sempre nos escapa, sempre vai ser difícil de nomear. Mas, com ‘Hamlet’, nós chegamos um pouco mais perto de saber o que é isso.”

    Tanto quem já ama a história como quem quer conhecer melhor esse clássico da literatura mundial pode aproveitar para se aprofundar no universo ‘hamletiano’, que invade São Paulo neste mês.

    Além dos espetáculos apresentados no Copan, outras versões da história do príncipe dinamarquês passam pelos palcos da capital em maio. Também há lançamentos recentes de livros valiosos relacionados ao clássico de Shakespeare.

    Saiba mais sobre os espetáculos e obras que mantêm a tragédia tão atual e presente na vida cultural da cidade:

    PEÇA | Hamlet – Sonhos que virão

    A montagem chamou a atenção do público por seu caráter “site-specific” na qual o espaço onde é encenado é essencial à montagem. O canteiro de obras do futuro Nu Cine Copan foi convertido em teatro para sediar o espetáculo que traz para os palcos o clássico de Shakespeare. 

    Em “Hamlet, Sonhos que virão”, a crise existencial atravessada pelo protagonista encontra eco direto no espaço que abriga a encenação: um edifício em suspensão, à espera de um novo destino.

    Sob a direção de Rafael Gomes, a tragédia acompanha o príncipe da Dinamarca confrontado com o assassinato do pai, a ascensão ao trono de um tio usurpador e um mundo moralmente corrompido, no qual agir parece tão impossível quanto não agir.

    Ao longo da peça, Shakespeare constrói um retrato radical da dúvida, da crise de sentido e do conflito entre desejo, poder e responsabilidade — temas que atravessam mais de quatro séculos de história e continuam interpelando o presente.

    Nu Cine Copan
    Av. Ipiranga, 200 – República
    @nucinecopan | @hamlet.nocopan
    Quinta e sexta, às 20h30 | Sábado, às 16h e 20h | Domingo, às 17h | Até 14 de junho
    De R$ 75 (meia entrada) até R$ 320 (inteira) 
    Saiba mais

    Ícaro Silva é o novo Hamlet do Copan. | Fotos: Rael Barja

    PEÇA | Meu Pai, Hamlet

    Um pai, músico erudito e skatista, e uma filha atriz trocam de ofício: ele encara Hamlet, ela enfrenta Stravinsky. O pai cresceu na década de 1960, entre as ruas do Ipiranga e da Vila Gumercindo, e começou a andar de skate em 1974.

    Cinco anos depois, comprou seu primeiro par de baquetas, sonhando em se tornar percussionista sinfônico. A filha cresceu na década de 1990, assombrada pelo filme “O Rei Leão” e pelo medo da perda paterna, até ganhar do pai um relógio sem números – como medir a passagem do tempo diante de um círculo vazio?

    Entre tímpanos e fantasmas, o palco vira um campo real de risco, afeto e inversão de papéis. Um duelo íntimo entre gerações, que transforma aprendizado em teatro, som e memória. 

    Teatro Estúdio
    R. Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos
    @oteatroestudio | @meupaihamlet
    Sábado e domingo, às 17h (13/jun às 16h) | até 14 de junho
    R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia entrada)

    Cena de “Meu Pai, Hamlet”. | Foto: Ligia Jardim

    PEÇA | Prazer, Hamlet

    A trama poderia ser a do próprio Eduardo Pelizzari. Interpretado pelo ator, o solo “Prazer, Hamlet” explora os medos, os questionamentos e os fantasmas internos desse ator, levando-o a uma escavação pelos labirintos da hipocrisia social e do coração do Príncipe Hamlet. 

    No texto original de Shakespeare, o Príncipe Hamlet corteja Ofélia. Há dúvidas se o nobre estaria êxtase com esse amor ou louco com a morte do pai e atormentado por esse fantasma.

    Com isso, a peça parte de uma questão raramente abordada nas inúmeras montagens teatrais da obra: quem o príncipe amou, afinal? 

    Teatro BDO Jaraguá
    R. Martins Fontes, 71 – Centro
    @teatrobdojaragua | @prazer.hamlet
    Sábado, às 20h | Domingo, às 19h
    De 30 de maio a 28 de junho
    R$ 150 (inteira) e R$ 75 (meia entrada)
    Saiba mais

    Eduardo Pelizzari interpreta “Prazer, Hamlet”. | Fotos: Ronaldo Gutierrez

    PEÇA | Rosencrantz e Guildenstern estão Mortos

    Texto clássico de Tom Stoppard, a peça inverte a lógica do clássico shakespeariano ao ter como foco as histórias de dois amigos de infância do príncipe da Dinamarca. Considerados peões em um jogo de poder, os protagonistas tentam compreender o mundo palaciano enquanto caminham para um destino inevitável. 

    A montagem explora o humor inglês e o existencialismo apresentando esses personagens como figuras cômicas e contraditórias, que buscam sentido nos bastidores da tragédia.

    Idealizado por Rafael Gomes e Daniel Haidar, o espetáculo propõe uma experiência inédita: um formato imersivo e itinerante, que percorre as curvas da arquitetura do Nu Cine Copan.

    Sob a direção de Dagoberto Feliz, os atores Daniel Haidar (que interpreta Guildenstern em “Hamlet, Sonhos que Virão”), Dom Capelari (assumindo o papel de Rosencrantz) e Victor Mendes conduzem o público pelos espaços do edifício, utilizando o mesmo cenário de “Hamlet” para criar uma conexão direta entre as duas histórias e permitir que o espectador enxergue o ‘outro lado da moeda’ do enredo clássico.

    Nu Cine Copan
    Av. Ipiranga, 200 – República
    @nucinecopan | @roseguilnocopan
    - 24 de maio, às 20h30 (pré-estreia gratuita, no festival Circuito Cultura Ticket) 
    - De 31 de maio até 14 de junho | Domingos, às 20h30
    Cadeiras: R$ 150 (inteira) e 75 (meia entrada) | Em pé: R$ 100 (inteira) e  R$ 50 (meia entrada)
    Saiba mais 

    Daniel Haidar (Guildenstern), Gabriel Leone (Hamlet) e Rael Barja (Rosencrantz) em cena de “Hamlet – Sonhos que Virão”. | Foto: João Maria da Silva Júnior

    PEÇA | Shakespeare Embriagado

    A versão, realizada pela Benjamin Produções, dá à tragédia uma releitura cômica. Isso ocorre devido ao seu formato curioso: encenada em um bar, alguns dos personagens são interpretados por espectadores voluntários, escolhidos na hora pelo elenco. 

    É o que acontece com o Rei Cláudio, vilão da história. Mais do que ser o responsável pela morte do Rei Hamlet, essa pessoa tem um grande poder em suas mãos: a qualquer momento da apresentação, ela pode tocar uma sineta, obrigando todo o elenco a tomar um shot de bebida alcoólica.

    O desafio do elenco está em terminar a peça, apesar de embriagados.

    Com dramaturgia de Karol Garret e direção de Dagoberto Feliz, a peça reduz a trama para uma hora de duração e recheia o espetáculo de músicas já conhecidas pelo público, garantindo uma noite divertida e festiva.

    Sempre apresentado em bares, esse formato surgiu em Nova York, em 2014, em comemoração aos 450 anos de Shakespeare. A trupe também apresentará uma versão de “Romeu e Julieta”, nesse mesmo formato.

    Bar Coringa Madá
    R. Luís Murat, 370 – Vila Madalena
    @coringa.mada | @shakespeareembriagado
    15 de maio, às 20h30 | Única apresentação
    A partir de R$ 70
    Versão “Romeu e Julieta”: 29 de maio, às 20h30

    O elenco de “Shakespeare Embriagado”. | Foto: Victoria Rodrigues

    LIVRO | Hamlet, tradução de Bruna Beber (Ubu Editora)

    A editora Ubu relançou sua edição de “Hamlet”, traduzida pela poeta e pesquisadora Bruna Beber.

    Em uma publicação luxuosa em capa dura, essa edição também oferece ao leitor textos críticos, escritos por A.C. Bradley, Ivan Turgêniev, Jacques Lacan, Northrop Frye e S. T. Coleridge.

    Além disso, traz como ilustrações 21 xilogravuras, criadas por Edward Gordon Craig para a edição publicada em 1930, da alemã Cranach Press. 

    Disponível no website da Editora Ubu, por R$ 99
    

    Publicação de “Hamlet” da editora Ubu | Ilustrações: Edward Gordon Craig; Design: Elaine Ramos

    LIVRO | Correspondência Hamlet, de Henry Miller

    O volume reúne as cartas enviadas pelo autor nova-iorquino Henry Miller ao escritor Michael Fraenkel (também norte-americano, mas de ascendência lituana), entre os anos de 1935 e 1938, em Paris (França).

    A rotina diária desses artistas expatriados incluía longas e acaloradas discussões que, a certa altura, Fraenkel propôs transpor para o formato de um livro de correspondências.

    Além de trazer reflexões sobre as inesgotáveis questões levantadas pela peça de Shakespeare, a coleção epistolar é também marcada por análises pessoais, confrontos com as formas de pensamento dominantes, experimentações literárias e posicionamentos estéticos.

    A tradução, introdução e notas são de Marcia Sá Cavalcante Schuback e Helena Martins.

    Disponível no website da Editora Relicário, por R$ 82,90

    Capa de “Correspondência Hamlet”. | Projeto: Ana C. Bahia / Relicário Edições

    CLUBE DE LEITURA | …Em Voz Alta

    Para quem tem interesse em se aprofundar nas obras de Shakespeare também pode experimentar discussões em grupo: ao lado da diretora de teatro Mika Lins, Sofia Nestrovski costuma promover um clube de leitura temático.

    A proposta é que os participantes leiam, em voz alta, uma obra do Bardo na íntegra. Ao longo da leitura, elas explicam o contexto histórico, falam sobre o fazer teatral e destacam detalhes que passam despercebidos para quem não é estudioso de Shakespeare.

    Existem duas versões do curso. A primeira delas é “Hamlet em Voz Alta”, que teve uma edição realizada em abril deste ano.

    A segunda versão é “Macbeth em Voz Alta”, será a próxima a ser oferecida, nos dias 06 e 07 de junho, das 9:30 às 17h30 no ateliê da Isa de Paula Santos, no Copan (Av. Ipiranga, 200 – República). Para mais informações ou realizar a inscrição, basta entrar em contato com as organizadoras, pelo telefone: (11) 3129-7741.

    Acompanhe os perfis @sofianestrovski e @mikalinz no Instagram para saber as datas da próxima edição de “Hamlet em Voz Alta” ou de outras versões do clube.

    Sofia Nestrovski e Mika Lins conduzem “Hamlet em Voz Alta”. | Foto: Marina Cartum

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

    43 publicações

    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.