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Última modificação abril 30, 2026

Alcova: quando o endereço é parte da obra

Participante do “Fuorisalone”, plataforma curatorial independente e sem lugar fixo se move pela cidade

Coluna Ticiana Milao Ambiente exposto na Casa delle Suore, de Worn Studio e Marlot Baus. | Foto: Marcelo Fabri/Viva a Cidade

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    A Alcova é uma plataforma curatorial independente de design, fundada em 2018 por Valentina Ciuffi e Joseph Grima.

    Desde o início, se posiciona fora da lógica da “Fuorisalone”, a feira de design de Milão, na Itália, e dos distritos tradicionais: não expõe em um lugar fixo, movendo-se pela cidade. E mostra que o design ainda não é produto: é protótipo, instalação, pesquisa material.

    A edição deste ano contou com peças de 131 expositores, desde marcas estabelecidas e designers independentes até prestigiadas escolas de design, num panorama amplo de talentos internacionais.

    Para acomodar tudo, ocupou dois espaços marcantes da cidade: a Villa Pestarini, edifício modernista, concluído em 1939 pelo arquiteto italiano Franco Albini, que permaneceu como residência privada desde então e nunca antes havia sido aberta ao público, e o Hospital Militar de Baggio, complexo histórico do exército da Itália, construído entre 1928 e 1931.

    Visitação

    Comecei o dia indo à Villa Pestarini que, diferentemente do Hospital de Baggio, receberia os visitantes com horário marcado, novidade que diz bastante sobre o crescimento do evento e a necessidade de regular o acesso a espaços tão frágeis.

    Ao entrar, logo percebi que o local nunca deixou de ser uma casa. Albini a projetou em 1938, com apenas 33 anos, e durante todo esse período, ela permaneceu nas mãos de apenas duas famílias, preservada com rara fidelidade.

    A escada de mármore branco de Carrara, as paredes de vidrocimento que filtram a luz, as divisórias deslizantes e os móveis originais ainda no lugar criam no imaginário uma ideia muito nítida de como era viver ali.

    A Alcova convidou designers para dialogar com essa herança sem sobrepô-la.

    A instalação mais comentada foi “Albini in Present Tense”, uma colaboração entre Patricia Urquiola, Haworth e Cassina, que reuniu peças icônicas de Albini, relançadas exclusivamente pela Cassina, incluindo uma poltrona de 1947, que ainda não tinha sido produzida depois disso.

    Na cozinha, conservada no seu verde-água típico dos anos 1950, a Worn Studio, de Natalia Ortega, tomou conta do espaço com talheres de prata cheios de detalhes incríveis, louças, cestaria em vime com inserções em couro e uma cadeira marcante, com motivo de mão: objetos que combinam barro, madeira, pedra e vidro soprado num artesanato que resgata a memória artesanal.

    Na varanda, peças da designer e arquiteta turca Sema Topaloğlu traziam a qualidade de vidro trabalhado, que chamou a atenção em diferentes pontos da semana, uma textura entre o artesanal e o escultural, que parece ser uma das linguagens emergentes do design contemporâneo, indo na contramão do imagético pasteurizado criado por IA (Inteligência Artificial).

    Nos outros cômodos, a grega Kiki Goti apresentou móveis e iluminação feitos em mármore, produzidos pela Marble Sachanas; a maison parisiense ISSÉ estreou uma colaboração com Sophie Dries, explorando o potencial das fibras vegetais brutas; o coletivo japonês AtMa Inc transformou recortes de mármore em bancos, onde o encaixe entre os pedaços também vira elemento de destaque; e a Boccamonte trouxe o projeto “Houses in Progress”, uma homenagem à arquiteta milanesa Luisa Castiglioni, assistente de Albini e figura que merecia ser tirada do esquecimento.

    Segunda parte

    A dez minutos dali havia um outro universo. O Hospital Militar de Baggio é grande o suficiente para exigir o uso de mapa, distribuído na entrada, daqueles com a frase “você está aqui” impressa, para o visitante se localizar.

    E era mesmo um lugar para passar o dia: a vegetação que avançou sobre o concreto, em décadas de abandono, criava um cenário pós-apocalíptico e poeticamente belo ao mesmo tempo, onde as pessoas resolveram improvisar piqueniques na grama, e um ponto da Davide Longoni, perto da Lavanderia, servia de convite para sentar, comer e respirar antes de continuar.

    A padaria milanesa, parceira da Alcova pelo terceiro ano consecutivo, oferecia focaccias, pães e o seu famoso panettone artesanal, num balcão revestido com azulejos terracota, desenhados por Ronan e Erwan Bouroullec para a Mutina.

    Na Lavanderia, estudantes da UMPRUM, Academia de Artes, Arquitetura e Design de Praga, apresentaram “Wasted Waste”, uma instalação performativa e imersiva, com uma esteira transportadora que carregava pilhas de roupas descartadas sem parar, chamando a atenção para a crise do desperdício têxtil global.

    A AA School of Architecture de Londres dividia o espaço com projetos experimentais de alunos e ex-alunos.

    A minha parte favorita foi a Casa delle Suore, um edifício do século 19, que chegou a abrigar as enfermeiras do hospital até os anos 1980. Com paredes descascadas revelando as diversas camadas de tinta que passaram por ali, nos três andares, cada sala tinha um designer ou instalação diferente, dos mais variados lugares e projetos.

    O que atraiu o olhar imediatamente foi o uso do incenso em muitas das instalações: os criadores entenderam que o ambiente já falava por si e usaram aromas, luz baixa e música instrumental para acionar outros sentidos além da visão.

    Worn Studio, de Natalia Ortega e Sema Topaloğlu, que já haviam marcado presença na Villa Pestarini, também estavam neste espaço, criando uma linha invisível entre os dois locais da Alcova.

    Entre os momentos mais marcantes da visita, cito uma sala que parecia uma antiga capela, onde o Sten Studio apresentou “The Wedding”, uma instalação com móveis e castiçais belíssimos em mármore, ao som ao vivo da harpista Michela La Fauci (@michelarpa).

    Na Igreja de San Martino, aberta pela primeira vez ao público nesta edição, uma névoa branca pairava no interior, de tanto incenso utilizado, e a luz baixa, com música instrumental, criava uma atmosfera propícia à contemplação.

    No Tempio, o clima era mais experimental: a HEAD Genève apresentou “No One Sees Them Like We Do”, uma série de micro-arquiteturas e objetos que investigam a coexistência entre humanos e animais domésticos, repensando o design de interiores a partir de outras espécies que também habitam nossas casas.

    Mármore e vidro

    Se há um material que dominou esta edição, foi o mármore. Não o mármore de bancada ou piso, mas o mármore reinventado, em luminárias, castiçais, cadeiras e mesas de proporções escultóricas, presente nos dois locais da Alcova e em inúmeros outros espaços da semana, como uma escolha consciente, quase manifesta contra a produção massificada.

    O vidro trabalhado foi outra linguagem recorrente, usada de forma escultural e artesanal.

    No panorama mais amplo, o que se viu foi um design comprometido com sustentabilidade, com processos manuais e com a valorização do material.

    Menos tendência, mais intenção.

    Veja peças e ambientes da Alcova:

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    Colunista Ticiana Furriela

    Ticiana Furriela

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    Formada em design de moda, com mestrado em gestão de moda, é correspondente do Viva a Cidade na Europa. Instagram: @ticifur