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Última modificação setembro 08, 2026

Bianca Comparato tem asas de monstro mítico em peça

Em “Autobiografia do Vermelho”, atriz mostra nova versão de romance sobre o mito de Gerião e Hércules

Bianca Comparato faz solo "Autobiografia do Vermelho". | Foto: Matheus José Maria / Divulgação

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    O monólogo Autobiografia do Vermelho, em cartaz no Teatro Youtube, na Avenida Paulista, até 27 de setembro, começa com um spoiler.

    Antes de qualquer coisa, a atriz Bianca Comparato avisa à plateia que vai contar uma versão do mito de Gerião e Hércules, mas insinua que, talvez, o que vai apresentar, não seja bem isso.

    A versão da história que a tradição guardou é conhecida: Gerião era um monstro vermelho, talvez alado, dono de um gado mágico vermelho e de um cachorro igualmente vermelho. Matá-lo e roubar o rebanho é um dos 12 trabalhos de Hércules.

    Adaptado do livro homônimo da canadense Anne Carson, lançado em 1998, o solo transpõe o mito para o presente.

    Gerião é, agora, um adolescente que se apaixona por Hércules, e as asas vermelhas podem ser reais ou uma metáfora do sentimento de inadequação do rapaz: a escolha fica por conta de quem assiste.

    Bianca Comparato, em cena de “Autobiografia do Vermelho”. | Foto: Matheus José Maria / Divulgação

    Mas, mesmo a história de Carson é adaptada de uma versão ainda mais antiga, “A Gerioneida”, poema escrito em 650 a.C. pelo grego Estesícoro, que narrou o episódio pela perspectiva do monstro, texto de que restaram apenas fragmentos.

    “O que me impressiona não é [o mito narrado] pela Carson, é pelo Estesícoro”, diz Bianca, em entrevista ao Viva a Cidade. “A ideia de mudar o ponto de vista de uma história, de deslocá-lo do herói para o monstro, é realmente muito incrível, e me impressiona que esse homem tenha feito isso há tanto tempo”, completa.

    Afinal, quem é o monstro?

    Para a atriz, o deslocamento de perspectiva é o que mantém a fábula atual.

    “A contemporaneidade dessa peça está na questão da monstruosidade: o que é monstruoso para nós? O que chamamos de monstro?”, provoca. “Que histórias nós contamos com essa perspectiva de um herói que matou um monstro e, quando você vai olhar mais de perto, o herói é que era monstruoso?”

    Ao transformar o mito em um romance e fazer Gerião se apaixonar por seu algoz, Carson estabelece um paralelo com a experiência de pessoas LGBTQIA+.

    “Muito da luta queer é para sair um pouco desse lugar de ‘os monstros da sociedade somos nós’, da concepção nociva de que somos os estranhos, os diferentes que precisam ser aniquilados de alguma forma. Esse romance de formação sobre um menino queer, tentando se encontrar num mundo que não entende muito ele, aborda questões de gênero que estão muito em pauta no momento. Acho que a peça também se comunica com tudo isso, sabe?”, a atriz analisa.

    Encontro com o livro

    O primeiro contato de Bianca com o romance aconteceu durante a pandemia da Covid-19, quando um amigo lhe presenteou com um exemplar. “Ele me falou que achava que daria uma super peça de teatro”, lembra.

    A atriz se apaixonou pela obra e chegou a obter os direitos de adaptação, mas não conseguiu captar recursos e acabou desistindo.

    Tempos depois, veio um segundo chamado: Mariana Beltrão, sócia-fundadora da produtora de audiolivros Supersônica, sabia do projeto engavetado e a convidou para dar voz ao livro em áudio.

    Quem dirigiu a leitura foi a cineasta, diretora teatral e cenógrafa Daniela Thomas, também sócia-fundadora da Supersônica.

    “Quando eu li com a Dani, ela topou me dirigir na peça, disse que já tinha imaginado tudo. O que ela propôs foi bem perto do que é feito hoje: o trabalho com música, com som… sempre desde o início”, Bianca conta.

    Dessa vez, a captação deu certo. O projeto foi aprovado em edital do Programa de Ação Cultural (ProAC), do Governo do Estado de São Paulo, e firmou parceria com o Sesc São Paulo. A estreia aconteceu na unidade da Avenida Paulista em 27 de fevereiro de 2026, com apresentações até 22 de março. “Com essas duas instituições, nós conseguimos realizar a peça”, afirma a atriz, para quem a primeira temporada “foi maravilhosa”.

    Autobiografia do Vermelho

    Introdução de “Autobiografia do Vermelho”, em apresentação no Sesc Avenida Paulista. | Foto: Paula Faraco / Divulgação

    De poema antigo a drama contemporâneo

    A adaptação brasileira do texto para os palcos é assinada por Bianca Comparato, Daniela Thomas e Gabi Costa, e levou cerca de um ano e meio para ficar pronta.

    “Durante a adaptação, eu ficava trabalhando entre um projeto e o outro, sempre escrevendo algo e mandando sugestões para a Dani”, explica a intérprete. “Quando a gente realmente começou a ensaiar, já tinha muita coisa levantada. O começo é sempre mais difícil: como adaptar a obra para o teatro? As coisas vão evoluindo naturalmente, eu acho. A peça também vai achando o seu caminho, a sua voz… E, por conhecer muito o livro, eu sabia mais ou menos o que precisava pegar para a cena funcionar.”

    Bianca conta que o método foi empírico:

    “Eu ensaiava, testava e via o que funcionava de cenas e movimentos, ou lia um trecho do livro e via se aquilo me inspirava de alguma forma. Às vezes uma frase virou uma cena, sabe? E outras coisas a gente copiou exatamente. É uma mistura de proposições originais nossas e da obra original.”

    O recorte escolhido foi o romance entre Gerião e Hércules: a história de um rapaz que cresce à espera desse homem e, quando finalmente o encontra, tem o coração partido.

    “O livro tem muito mais elementos sobre a vida de Gerião, mas nossa ideia foi realmente focar na história de amor. Esse foi nosso ponto de corte. Além disso, tem personagens que não se encaixavam nessa moldura e, por isso, não estão na peça”, diz Bianca.

    Outra decisão foi preservar o estilo de Carson. A peça abre com a introdução do livro, na qual a autora apresenta Estesícoro e sua contribuição para a literatura. “É como se fosse um disclaimer de ‘não confie no que você vai ver'”, revela a atriz.

    “O texto da Carson te leva a questionar se esse homem realmente existiu, se ele deixou esse poema. Isso é deliberado: a gente fala que a história do Gerião vai ser contada, que ele tinha um gado, que tinha não sei o quê, e eu não faço nada disso depois na peça, assim como a Carson não faz no livro.”

    Nova York dos anos 1980 na Paulista

    Nos materiais de divulgação da peça, Daniela Thomas diz que a leitura do romance a devolveu ao ambiente em que começou sua trajetória: a cena experimental nova-iorquina da virada dos anos 1970 para 1980.

    “Lá assisti, convivi ou trabalhei com artistas de grupos como Mabou Mines, Wooster Group, Living Theatre e com criadores como Sam Shepard, Laurie Anderson, Richard Foreman, Jeff Weiss, Spalding Gray”, relata a diretora. “Uma potência inventiva de grande impacto, que repercutiu mundo afora, balizou minha imaginação e a quem devo minha formação como artista do teatro.”

    Autobiografia do Vermelho

    As projeções de “Autobiografia do Vermelho” foram criadas por Henrique Martins. | Foto: Matheus José Maria / Divulgação

    Ela conta que, ao passar pelas páginas do livro, foi descobrindo que o monstro alado Gerião não habitava a paisagem grega, mas “a exata geografia dos meus heróis experimentais de Nova York”, escreveu.

    “Essa descoberta fez com que eu abraçasse a ideia de um espetáculo que fosse tributário dessa cultura de teatro que me formou e por quem tenho uma admiração imensa”, afirma Daniela em seu texto.

    Por isso, o cenário (também elaborado por Daniela) é minimalista: uma tela de papel branco que exibe fotografias, sugere ambientes e projeta as palavras que Gerião aprende a saborear na infância.

    A música, executada ao vivo por Lello Bezerra, diretor musical do espetáculo, em uma mesa de DJ, evoca a experimentação da música eletrônica e dos sintetizadores.

    Diversos corpos, uma intérprete

    No monólogo, Bianca dá vida a vários personagens, entre eles Gerião e o próprio Hércules. Para encontrar o corpo de cada um, ela trabalhou com a preparadora corporal Malu Avelar.

    “Antes mesmo da Dani chegar, Malu e eu ficávamos explorando esse corpo do monstro, essas asas, qual seria o peso delas. A gente sempre pensou num Gerião um pouco mais corcunda, ombro fechado por carregar esse peso ou por ser algo que tenta esconder”, conta a atriz.

    Bianca manipula a tela de papel em “Autobiografia Do Vermelho”. | Foto: Matheus José Maria / Divulgação

    “Gerião está sempre com esse conflito, de esconder mesmo, de não mostrar quem ele é, não abrir essas asas. Então, o Gerião tem essa coisa de sempre estar olhando mais de baixo para cima, um peso que carrega desde criança até a vida adulta. Já Hércules é o oposto: tem um peito aberto, forte. Ele está bem com o corpo dele.”

    Os demais personagens foram construídos como caricaturas, com movimentos mais marcados e lineares. Para isso, Malu e Bianca fizeram exercícios em que cada ponto do palco correspondia a um personagem: onde a atriz parasse, aquele corpo precisava ser ativado na hora.

    Além disso, para Bianca, interpretar homens é parte do interesse da empreitada.

    “Tem algo masculino que me interessa na história, e também acho libertador uma mulher poder fazer personagens masculinos, sendo que na história do teatro sempre foi o contrário. Tem algo de instigante em se reapropriar disso também, é um ‘statement’ para quem está vendo de que tudo é possível, de que você não precisa ficar limitada de forma alguma”, explica.

    Autobiografia do Vermelho

    Bianca posa como Hércules, em cena de “Autobiografia do Vermelho” | Foto: Matheus José Maria / Divulgação

    Ela ressalta que também considera interessante uma história de dois homens gays ser contadas por muitas mulheres.

    “Ao mesmo tempo, eu olho para ‘Autobiografia do Vermelho’ como uma história de amor e, nessa situação, não vejo muito o gênero [das pessoas].”

    O aprendizado que leva da peça, resume a atriz, cabe em uma frase que atribui a Charles Bukowski e que está no programa do espetáculo: “encontre o que você ama e deixe isso te matar”.

    “Para mim, isso significa permitir que seu destino aconteça; saber que estamos caminhando em direção à morte, mas que a gente viva mesmo assim. O Gerião sabe que vai morrer pelas mãos de Hércules e mesmo assim ele vive esse amor. E esse amor transforma ele. Essa é a beleza da vida”, finaliza.

    Talvez Gerião morra em “Autobiografia do Vermelho”. | Foto: Matheus José Maria / Divulgação

    Onde ver?

    Teatro Youtube (Galeria Magalu – Conjunto Nacional)
    Av. Paulista, 2073 – Consolação
    @salaevaherz
    Sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 18h | Até 27 de setembro
    R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada)
    Saiba mais

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.