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Última modificação maio 22, 2026

Clássico do teatro judaico ganha versão feminista

Transformado em musical, “Dibuk” reflete sobre como seria a rebeldia de uma mulher há mais de 100 anos

Hanã (Luis Vasconcelos) e Lea (Verônica Goeldi) em "Dibuk, o musical". Foto: Yakov Photos

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    Em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, “Dibuk, o musical” transforma um texto iídiche em uma superprodução.

    Escrita entre 1913 e 1916, a peça original de Sch. An-Ski retratava um amor proibido de final trágico. Baseada em uma lenda datada de 1560, a história sobre o triste destino dos amantes chegou a ser considerada como o “Romeu e Julieta” do teatro judaico.

    A trama acompanha Lea (interpretada por Verônica Goeldi), que aguarda o momento em que o pai vai escolher para ela o candidato a marido ideal.

    Quando isso acontece, a jovem já está apaixonada pelo estudioso Hanã (Luis Vasconcelos). Entretanto, esse amor não se concretiza, porque os enamorados são separados com a morte inesperada do rapaz.

    Luis Vasconcelos e Verônica Goeldi em “Dibuk, o Musical”. | Foto: Yakov Photos/Divulgação

    Adaptações

    O texto de An-Ski foi transformado em um musical na adaptação de Alberto (Gingi) B. Worcman e Paula Targo. Ela conta que essa ideia surgiu por conta de seu interesse pela cultura judaica, especialmente a da Europa Oriental. “Como mulher, esse universo me atraiu por ser extremamente masculino”, explica.

    Ao encontrarem o texto “O Dibuk”, eles perceberam que, apesar da qualidade do material, precisariam ir além do enfoque masculino.

    “Então pegamos a Lea. Esta personagem, originalmente, era quase uma ‘boneca’ que recebia a possessão, que era possuída por um homem, mas ela não tinha personalidade”, conta a roteirista. “A gente tirou ela desse lugar e começou a perguntar: como é que uma mulher que queria se libertar do pai ou de todas as regras, poderia agir? Como teria sido a ‘rebelação’ de uma mulher há 100 anos, numa sociedade totalmente masculina?”

    Verônica Goeldi em cena de “Dibuk, o Musical”. | Foto: Yakov Photos/Divulgação

    Para chegar ao roteiro levado aos palcos, o texto teve um total de 49 versões, com a realização de algumas leituras dramáticas em workshops, para que os dramaturgos pudessem ‘afinar’ as falas dos personagens e encontrar a história que gostariam de contar.

    Além disso, as músicas, compostas por Gustavo Kurlat, que também escreveu as letras ao lado de Gingi, foram criadas simultaneamente ao desenvolvimento do texto: ora Gustavo trabalhava em cima das letras propostas por Gingi, ora elas eram reescritas para se adequarem ao formato do musical.

    “Fui compondo as músicas em duas grandes famílias: uma que é inspirada na música klezmer judaica – que tem uma ‘cara’ mais tradicional, e a outra com canções que poderiam estar em qualquer musical, que falam das emoções dos personagens e dos diversos contextos nas quais as cenas acontecem. Essas duas famílias formam, digamos, o universo musical da peça”, explica Gustavo.

    Elenco da peça “Dibuk, o Musical”. | Foto: Yakov Photos/Divulgação

    Essa dualidade de universos aparece constantemente no musical, que aborda o encontro entre o mundo terrestre e o plano das almas.

    Na trama, esses mundos se chocam quando Hanã, na forma de um dibuk (um espírito humano) acaba possuindo o corpo de Lea antes que o casamento da jovem com o escolhido de seu pai fosse consumado.

    Singularidade

    Para o diretor Marcelo Klabin, trata-se de uma temática singular.

    “É um tema que tem um ‘pézinho’ no terror. Mas não é bem no terror, é nas almas e em como elas podem estar aqui do nosso lado agora. E esse não é um tema que se trabalha muito, assim como a temática judaica. São poucos os textos que têm ela. Até nos textos judaicos são pouquíssimos os que existem em relação a isso.”

    Ele conta que a pesquisa sobre a cultura judaica começou logo que surgiu a primeira versão do texto.

    “Primeiro, nós fomos entender um pouco sobre essa mística. Então, pesquisamos a questão das almas em diferentes religiões, não só na judaica. A gente buscava a visão de diferentes culturas para o fenômeno de uma alma ‘entrar’ em alguém. Nesse recorte também estão informações e pesquisadores diversos”, afirma Marcelo.

    O elenco do espetáculo também participou da pesquisa visitando o Museu Judaico e participando de um shabat, ritual realizado do por de sol da sexta-feira ao por do sol de sábado, considerado dia sagrado de descanso semanal no judaísmo.

    Nábia Villela, Verônica Goeldi e Fernanda Melém, em “Dibuk, o Musical”. | Foto: Yakov Photos/Divulgação

    Essas realidades que se misturam também podem ser observadas na produção do musical. Enquanto uma parte dos musicais autorais brasileiros muitas vezes é marcada por produções mais enxutas, “Dibuk, o Musical” tem 31 atores em cena, entre veteranos e ‘marinheiros de primeira viagem’ nesse tipo de espetáculo, e mais de 50 perucas e barbas, 1.300 peças de figurino e 44 músicas originais.

    Ao mesmo tempo, a encenação enfrenta desafios ‘prazerosos’, típicos da montagem de um musical original. “Estamos lidando com um musical autoral, que não existia antes. Por isso, precisamos criar tudo: tanto as músicas quanto as marcações de cena”, diz Marcelo.

    “Qualquer musical autoral é mais difícil de ‘levantar’. Quando temos uma réplica, já se tem a ‘bíblia’ pronta, e você a segue. Aqui não, a criação foi ‘do zero’. Mas isso é bom, é um desafio gostoso. Acredito que precisamos ter mais musicais autorais no Brasil. Já temos vários, mas dá para ter mais ainda”, finaliza o diretor.

    SERVIÇO

    Teatro Sérgio Cardoso
    R. Rui Barbosa, 153 - Bela Vista 
    @teatrosergiocardoso | @dibuk.omusical
    De quinta a sábado, às 20h | Domingos, às 16h | Até 31 de maio
    De R$40 (meia entrada) até R$300 (inteira)
    Saiba mais

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.