O médico espanhol Manuel Sans Segarra passou boa parte da vida dentro de um centro cirúrgico, onde a fronteira entre a vida e a morte é decidida em questão de minutos.
Foi justamente ali que começou a busca que agora ele divide com os leitores brasileiros em “A Supraconsciência Existe: Vida Depois da Vida” (Editora Planeta), lançado no Brasil em outubro deste ano.
Ao longo da sua carreira, voltou o olhar para um fenômeno que a medicina tradicional costumava deixar de lado: as experiências de quase morte (EQMs), relatos de pacientes que, durante uma parada cardíaca e sem atividade cerebral registrada, descrevem vivências detalhadas e coerentes.
Em uma conversa com o Viva a Cidade, durante sua passagem por São Paulo, ficou claro que o autor é uma pessoa fascinante.
Fala com calma, escolhe cada palavra com cuidado e transmite uma paz interior rara, de quem parece ter feito as pazes com as grandes perguntas da existência.
Por quase uma hora, falou sobre ciência, espiritualidade, ego e sentido da vida.
Do bisturi à consciência
A formação de Manuel foi, como ele mesmo define, totalmente cartesiana.
Na faculdade de medicina, aprendeu que a mente é resultado da atividade dos neurônios e que, quando o cérebro morre, a vida simplesmente acaba.
A prática, porém, trouxe perguntas que os livros não respondiam. Ele atendeu pacientes em morte clínica, com eletrocardiograma plano e, após 20 ou 30 segundos de parada cardíaca, também sem nenhuma atividade cerebral.

Capa do livro “A Supraconsciência Existe…”. | Foto: Reprodução / site planetadelivros.com.br
Depois de reanimados e operados, alguns contavam no pós-operatório vivências que coincidiam exatamente com o tempo em que estavam clinicamente mortos.
“Se não há atividade cerebral, como o paciente pode ter uma vida mental tão bem estruturada e ainda contá-la depois?”, reflete.
A primeira resposta dos especialistas em neurociência foi a esperada: alucinações causadas pelo sofrimento da parada cardíaca.
Manuel não se convenceu.
Continuou acompanhando casos, reuniu provas que considera ‘objetivas’ e, anos depois, publicou seu livro, que chega agora ao Brasil.
O médico lembra que o tema já foi estudado com rigor por nomes como Raymond Moody, nos Estados Unidos, que popularizou o termo “experiência de quase morte”, e Bruce Greyson, professor de psiquiatria na Universidade da Virgínia, que criou uma escala com 16 elementos típicos do fenômeno, vivências que se repetem de paciente para paciente.
Mas há um detalhe que, para ele, diz muito: diferentemente de uma alucinação, a experiência de quase morte transforma a vida de quem passa por ela.
“Com o tempo, a lembrança não se apaga. Quanto mais tempo passa, mais eles se lembram”, conta.
Colega de trabalho voltou para contar
Entre tantos relatos, um marcou o médico de forma profunda: a paciente era uma colega de trabalho do próprio hospital, alguém que ele conhecia muito bem.
Naquele dia, Manuel era o responsável pelo serviço de urgências.
Com uma grave hemorragia interna, ela foi posteriormente reanimada, teve uma nova parada e só voltou depois de minutos de luta intensa da equipe. Manuel a operou em seguida.
Foi no pós-operatório que veio o relato mais marcante, que mudou sua forma de enxergar a vida: pela primeira vez, a experiência de quase morte não era a história de um paciente qualquer, mas algo que ele tinha vivido de perto, do outro lado da maca.
A colega contou que saiu do corpo e, de uma posição elevada, acompanhou toda a reanimação.
Identificou cada pessoa da sala pelo nome e sobrenome: os anestesistas, a médica que fazia a transfusão, o médico da traumatologia.
E se dirigiu a ele com precisão: “O senhor estava fazendo massagem cardíaca, puncionou meu coração e aplicou o desfibrilador.”
Mais impressionante ainda, ela descreveu o que acontecia em outra ala das urgências, longe dali: a equipe de plantão operava uma fratura de colo de fêmur.
Como era profissional de saúde, sabia exatamente o que estava vendo. Manuel conferiu tudo nos registros do hospital e com a equipe.
“Posso garantir que tudo o que ela me contou coincidia exatamente com o que estava acontecendo naquele momento, enquanto eu a reanimava”, afirma.
O relato foi além do que podia ser verificado.
A colega estava de luto pela mãe e contou que a reencontrou, que se abraçaram e que a mãe lhe disse que a esperava.
“A morte não existe”, disse ela ao médico. “Minha mãe deixou o corpo, mas a identidade dela como pessoa e como mãe continua.”
Depois, descreveu uma luz intensa, uma sensação de paz, harmonia e amor, e uma revisão de toda a sua vida, até voltar, contra a própria vontade, ao corpo.
Ego, supraconsciência e o sentido da vida
O livro parte de uma oposição central no pensamento de Manuel.
De um lado está o ego, a identidade que construímos no dia a dia: materialista, dependente da opinião dos outros e sempre em busca de sucesso, fama, riqueza e poder.
Do outro, a supraconsciência, que ele considera a nossa identidade verdadeira, aquela que continua existindo depois da morte física.
“A religião a chama de espírito. É a mesma coisa”, resume.
Isso não faz do ego um vilão. Para o médico, ele é imprescindível, porque é o que nos dá energia para levantar, trabalhar e nos relacionar.
O problema começa quando ele cresce demais e encobre quem realmente somos.
Para explicar, Manuel recorre a uma imagem simples, a de um passeio com o cachorro: o cachorro é o ego, e a pessoa, a supraconsciência.
“Se o cachorro vai na frente puxando, é o ego que manda. É você quem precisa ir na frente.”
A diferença, segundo ele, aparece no jeito de viver.
Quem é conduzido pelo ego vive com medo e ansiedade, como se a vida fosse uma corrida de obstáculos.
Já quem se conectou com a supraconsciência descreve outra realidade:
“A vida é um milagre, um presente. Acordar todos os dias é uma maravilha.”
Inspirado no trabalho do psiquiatra, neurologista e psicólogo austríaco Viktor Frankl (1905-1997), ele conclui que o ego oferece prazeres passageiros, mas só a supraconsciência dá sentido à vida.
Entre a ciência e o mistério
Manuel faz questão de separar o que pode e o que ainda não pode ser provado.
As experiências de quase morte, explica, envolvem fenômenos objetivos, comprováveis cientificamente, e outros transcendentes.
“Quando minha colega diz que viu a mãe, isso eu não posso demonstrar”, admite.
No campo do que pode ser medido, ele cita exames de ressonância magnética funcional.
Quando pacientes descrevem um objeto que só viram durante a experiência, ativa-se o lobo occipital, ligado à memória visual, algo que, segundo afirma, não acontece com uma alucinação.
Para ele, a física quântica, que mostra que tudo no universo é energia, completa o raciocínio. Segundo o médico, muitos dos que o criticavam no início hoje reconhecem as evidências.
Para os que ainda resistem, Manuel lembra de uma frase atribuída a Einstein, de que é mais difícil eliminar um preconceito do que quebrar um átomo.
A pesquisa também o transformou por dentro.
O cirurgião diz que, antes de adquirir todo esse conhecimento, era uma pessoa competitiva, exigente e irritável. Hoje, confessa precisar de cada vez menos.
“Vim ao mundo sem nada e vou embora sem nada.”
O que passou a valorizar são as pessoas: a família, os amigos, os pacientes.
Do Vaticano à Índia
A pesquisa de Manuel não ficou restrita ao hospital, nem a uma única tradição religiosa.
Ao longo da conversa, ele cita, com a mesma naturalidade, Platão, Kant, Jung, o poeta indiano Rabindranath Tagore, a física quântica e Madre Teresa de Calcutá.
E levou seu trabalho a dois dos maiores líderes espirituais do mundo.
Em janeiro de 2025, poucos meses antes da morte do pontífice, ele esteve com o Papa Francisco, para conversar sobre o livro.
Segundo o médico, ouviu um incentivo claro: “Continue fazendo o que está fazendo. Vou rezar pelo senhor. As pessoas não querem dogmas, querem evidências, e o senhor traz evidências.”
Na Índia, ouviu palavras semelhantes do Dalai Lama.
A viagem também o impressionou por outro motivo: segundo ele, por lá a meditação diária é matéria obrigatória nas escolas, a partir dos 12 ou 13 anos.
Os encontros com líderes tão diferentes mostram que a busca do autor vai muito além da religião.
O que ele procura é um ponto comum entre ciência, filosofia e espiritualidade, sem precisar escolher um lado.
Um convite ao silêncio
Se tivesse que resumir seu livro em um único conselho, Manuel não hesita ao responder: meditar.
Ele medita há anos, com um método baseado na respiração e em um mantra, aprendido com um mestre experiente.
“O que meus pacientes me contam, hoje eu vivo pessoalmente”, revela.
Para quem quer começar do zero, ele avisa que o caminho exige constância.
O grande inimigo da meditação, segundo ele, é o próprio ego, que tenta nos distrair com lembranças, ruídos e pensamentos até a mente virar “uma panela de pensamentos”.
Por isso, recomenda que cada pessoa escolha um método que faça sentido para si, e busque a orientação de alguém com experiência.
“A supraconsciência não se dá a ninguém. É uma vivência que cada um precisa descobrir”, explica.
Sem medo do fim
Talvez a maior prova de que Manuel vive o que escreve esteja na forma como fala do próprio fim. Para ele, a morte não existe.
O corpo é como um traje que o universo nos empresta durante a vida e que devolvemos quando ela termina, mas o que nos torna únicos segue adiante.
“Morte quer dizer fim, e não é o fim. É uma passagem.”
Médico até o último fio de cabelo, ele admite que, quando chegar a hora, vai pedir aos colegas para tomar algo que ajude a aliviar a dor física.
Medo da morte, porém, afirma não sentir nenhum. “Tenho certeza de que não vou morrer. É uma transição.”
LIVRO:
"A Spraconsciência Existe: A Vida Depois da Vida" Autores: Juan Carlos Cebrián e Manuel Sans Segarra Editora: Planeta de Livros do Brasil | @planetadelivrosbrasil ISBN 978-85-422-4174-7 | 256 páginas Preço: R$ 64,90, à venda aqui
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