Espaço dedicado à preservação da tradição do picadeiro, o “Mundo do Circo” oferece tendas de lona para espetáculos, exposições temáticas, oficinas e palestras sobre as artes circenses e o mundo do circo.
Localizado no Parque da Juventude, na zona Norte de São Paulo, o complexo foi criado em 2022. É administrado pela Associação Amigos da Arte, organização social de cultura ligada ao governo de São Paulo, que atua na difusão cultural e gestão de equipamentos do estado.
O “Mundo do Circo” recebe circos itinerantes e números circenses ao longo de todo o ano e também está aberto aos talentos que querem mostrar suas performances ao público, com inscrições feitas por meio de editais de credenciamento de propostas artísticas.
Para comemorar o Dia do Circo, o Viva a Cidade conversou com o gerente do espaço, César Guimarães, que é artista circense.
Veja a entrevista a seguir:

Entrada do “Mundo do Circo”, na zona Norte de São Paulo. | Foto: Reprodução
VIVA A CIDADE: O senhor pode apresentar o “Mundo do Circo” aos nossos leitores? Qual é a importância desse espaço para a cidade?
CESAR GUIMARÃES: “O Mundo do Circo SP” é um lugar criado para fortalecer e qualificar o circo, garantindo que os circenses tenham seu espaço na cidade de São Paulo. Tem em seu DNA a formação de público, porque o circo é a porta de entrada para a cultura, e inspira novas gerações. O espaço recebe grandes e pequenas companhias circenses, oferece programação gratuita, além de levar o circo a escolas e entidades assistenciais. É um local muito democrático, que merece respeito. A criação do “Mundo do Circo”, graças à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, é um reconhecimento da nossa arte, o que é importantíssimo para a nossa categoria [os artistas circenses].
VIVA: O que é a arte circense? Como podemos descrevê-la?
CESAR: Ela é a mãe de todas as artes, atua na energia, no prazer, na coragem. Tudo isso, junto ao talento dos artistas e técnicos, é ‘batido num liquidificador’ e gera um grande espetáculo. É uma arte que coloca pessoas muito capazes no lugar certo, com um olhar atento para a vocação de cada um. Também é um espaço onde todos se sentem em família, com um forte senso de compromisso para perpetuar essa energia pura do circo, que contagia das crianças aos avós.
VIVA: Além de ser um lugar de lazer e cultura, o circo tem outros papeis sociais? Quais?
CESAR: A lona de circo abriga uma diversidade de espetáculos, dos tradicionais, mais humildes, até produções grandiosas. O circo é um grande palco, e oferece cultura e lazer pra quem faz e pra quem assiste. Também promove a socialização, a diversidade e a inclusão; é um organismo vivo, muito próximo do povo, e é o povo quem dita essa arte.
VIVA: Existem diferentes tipos de circo?
CESAR: Sim, são vários os tipos de circo. Existe o tradicional itinerante, que é aquele que passa de cidade em cidade, com suas carretas, por todo o Brasil. Ele oferece espetáculos com acrobacias, ilusionismo, palhaçaria. Também pode ter a doma de animais, que ainda é permitida em alguns países do mundo. O circo contemporâneo é outro tipo, mistura linguagens artísticas como o teatro, a música e a dança, e traz um olhar mais moderno para o circo. Temos também o circo de rua, com performances em praças e semáforos. Outra modalidade é o chamado ‘novo circo’, que mistura um pouco do tradicional com o contemporâneo, e há, ainda, o circo social, que mostra a força transformadora do circo diretamente nas comunidades.
VIVA: Na sua opinião, quais são as principais atrações do circo?
CESAR: A principal, a nossa ‘camisa 10’, sempre será o palhaço, que é a cara do circo. Temos também os acróbatas, aéreos e de solo, ilusionistas e trapezistas. Essas são as principais atrações, mas o circo vai muito além disso. É uma arte que depende muito do corpo técnico, formado por montadores, iluminadores e motoristas. Esses são os artistas que o público não vê, mas que são de vital importância pra que tudo aconteça.
VIVA: O senhor poderia nos contar um pouco da história do circo no Brasil?
CESAR: O circo chegou ao Brasil no século 19, quando algumas trupes europeias começaram a se apresentar aqui. Eles chegavam de navio e faziam turnês por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A partir disso, foram surgindo famílias circenses, como a minha, por exemplo. O meu tataravô era indígena, da região serrana do Rio de Janeiro. Não sei dizer se ele foi raptado ou se fugiu com uma trupe europeia, mas eu já sou a quinta geração dessa família, e a sexta já está aí, composta pelos meus filhos, nascidos no circo. Existe, hoje, um circo genuinamente brasileiro, com nossa cultura popular inserida nos espetáculos.
VIVA: Para o senhor, qual é a grande magia do circo?
CESAR: A magia está na forma democrática como o circo oferece espetáculos e como recebe o público. Esse é um espaço onde as pessoas se sentam lado a lado, independentemente de quem e de onde sejam. Ele se apresenta em qualquer lugar, para qualquer público.
VIVA: Qual é a importância do Dia do Circo?
CESAR: A instituição do dia 27 de março como o “Dia do Circo” é muito relevante, pois homenageia uma grande figura do circo, que é o palhaço, e reconhece o talento do Abelardo Pinto, o palhaço Piolin. Essa data nos faz pensar nesse artista, que foi enorme, fundamental para o circo encontrar seu lugar na cultura brasileira. Entretanto, acho importante ressaltar que, para nós, circenses, todos os dias são do circo.
VIVA: Quem foi Abelardo Pinto, o palhaço Piolin? Qual é a importância dele para a arte circense?
CESAR: Ele foi uma grande figura, que elevou o circo a um outro patamar. O palhaço Piolin trouxe muito respeito e reconhecimento às artes circenses. Por isso que o Dia do Circo é comemorado no dia do seu nascimento. Ele merece todas as nossas homenagens, todos os anos.
VIVA: Para comemorar o Dia do Circo, “O Mundo do Circo SP” tem alguma programação especial?
CESAR: Aqui a celebração vai ser o mês inteiro, com várias companhias de circo tradicional, contemporâneo e de rua. Os finais de semana serão bem animados. No dia 27, que é o Dia do Circo mesmo, teremos uma programação especial, com vários espetáculos e apresentações de artistas solo.
VIVA: Deixe um recado para os artistas circenses e para os amantes da arte circense e do circo.
CESAR: Desejo que o circo continue sendo muito mais que um palco e um picadeiro, que ele continue sendo ‘a vida’. O circense tradicional não apenas trabalha no circo, é lá que ele vive. E ele viaja com o seu trabalho. Os artistas do circo contemporâneo, do novo circo e do circo de rua, que um dia tiveram o circo tradicional como uma fonte de inspiração, hoje estão ‘chegando junto’, dando sua contribuição para manter a atividade em evidência. Eles trazem os aprendizados que adquiriram fora para o circo tradicional, o que também é importante para a renovação da arte. Espero que o circo continue a ser mágico, agregando pessoas, trazendo união. Que continue sendo bravo, resiliente e pulsante para as famílias de circo, para os artistas e técnicos.
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