O diretor teatral Nelson Baskerville revela para o grande público suas habilidades nas artes visuais, ao abrir a exposição “Protect me from this world” no Espaço Barra, na Barra Funda (zona Oeste).
Os visitantes poderão contemplar quadros, esculturas e instalações feitas por ele, neste fim de semana, nos dias 4 e 5 de julho.
Nas obras e experimentações artísticas, ele mostra um pouco de sua indignação com as violências e injustiças do mundo.
“Essa exposição marca minha perplexidade diante aos casos de feminicídio. É como se eu me colocasse ao lado das mulheres dizendo ‘me ensinem como é que a gente lida com isso?’. E eu sei que é combatendo a misoginia e conversando sobre isso”, diz.
“Protect me from this world” é resultado de um percurso nas artes visuais que começou nos anos 1990. Com o passar do tempo, Baskerville se deu conta da natureza da manifestação artística que ele produzia: “eu tenho me manifestado na pintura através de mulheres”, explica.
“Muitas vezes, a minha sensibilidade, a minha indignação e a minha tristeza foram ‘diagnosticadas’ como sentimentos femininos. Eu sempre identifiquei a minha fragilidade com uma suposta fragilidade feminina”, conta.
Sua indignação começou ao ver notícias sobre o assassinato de Ângela Diniz (1944-1976) pelo namorado Raul Fernando do Amaral Street (1934-2020), que ficou conhecido como Doca Street. Junto à opinião pública da época, ele se tornou um ‘fenômeno’, enquanto a socialite foi vilanizada.
Para o diretor, há, nos casos de feminicídio da atualidade, uma continuidade da ‘caça às bruxas’, perseguição ocorrida durante a Idade Média.
“Hoje, as mulheres estão sendo mortas como se fossem bruxas, é como um ritual. Aos poucos, fui percebendo meu incômodo com o que está acontecendo: por que, de repente, nós estamos naturalizando coisas que não deveriam ser naturalizadas? Que barbárie é essa?”, questiona.
Ele diz ver a selvageria e a desumanidade também expostas na política internacional: “Que barbárie é essa das invasões em países soberanos? Que barbárie é essa de nós sermos o país que mais mata pessoas trans? Que recorde é esse que nós temos e que a gente não consegue parar?”.

Nelson Baskerville, ao lado das obras expostas no Espaço Barra. | Foto: Pedro A. Duarte
Ao se perguntar sobre quais armas ele teria para encampar a luta contra essa barbárie, e quais armas ele se permitira usar, Baskerville percebeu que a resposta viria da arte. Por isso, compara o trabalho artístico com o de um alquimista.
“Nós transformamos as coisas, de certa forma. Eu tenho essa origem ‘da Caçamba’ e, com todas as coisas que eu passei na minha vida, as violências – uma uma família disfuncional e tudo – de certa forma, eu peguei… eu vou chamar de ‘lixo’ e eu transformei isso em arte”, reflete.
Por isso, algumas de suas obras mostram pessoas em perigo ou pedindo ajuda. “É como se eu também estivesse pedindo ajuda”, revela.
Para ele, a exposição é uma oportunidade de falar sobre isso. “Mesmo se a pintura não interessar a ninguém, ela está sendo uma oportunidade de falar sobre minha indignação”.
“A gente precisa usar, cada um, a arma que a gente tem, o que a gente tem de melhor. Se não, talvez o mundo passe uma fase enorme de caos, escuridão e guerra. Eu sei que as obras não conseguem exprimir tudo isso, mas só queria que vocês também soubessem que a minha alma está assim, e é essa alma que está pintando isso.”
Origem ‘da caçamba’
Baskerville iniciou sua trajetória nas artes fazendo teatro amador e, em 1983, formou-se na Escola de Arte Dramática (EAD), da Universidade de São Paulo (USP).
Anos depois, em 1991, tornou-se professor do Teatro-Escola Célia Helena, o que marcou o começo de sua atuação como diretor teatral, função em que montou espetáculos como “17x Nelson”, a partir das obras de Nelson Rodrigues, e “Bonitinha, mas Ordinária”, também do dramaturgo carioca.
As peças “A Médica”, de Robert Icke e “Cock”, de Mike Bartlett, também são adições recentes ao seu portfólio, que conta, ainda, com “Luiz Antonio-Gabriela”, encenada pela Cia. Mungunzá, que aborda a vivência de mulheres trans e travestis.
As experimentações com artes visuais começaram nos anos 1990, com trabalhos em argila, a partir da influência de um amigo cenoténico, conhecido como ‘Nenenco das Máscaras’.

Colagens de Nelson Baskerville, expostas no Espaço Barra. | Foto: Pedro A. Duarte
Mas, a ‘brincadeira’ com esse material durou pouco, e ele logo se rendeu à pintura. Essa mudança aconteceu em 2002, quando conheceu a obra do pintor Jaime Prades.
“Ao mesmo tempo, eu via, nas ruas de São Paulo, caçambas com muita madeira boa sendo jogada fora. Então, juntei as duas coisas: fui pegando essas madeiras e levando para casa, para tratar delas e, depois disso, comecei a pintar – primeiro imitando o Jaime Prates”, conta.
Essas iniciativas tiveram bons resultados: ao mostrar as primeiras obras a amigos e colegas, muitos questionaram se estava estudado pintura, e o incentivaram a fazer faculdade de artes visuais.
“Eu respondia: ‘Ué, mas você já não gostou, por que é que eu vou fazer uma [faculdade] agora?’. Depois, pensando nisso, decidi não fazer [um curso], porque é uma manifestação muito pura a que eu tenho… Nunca ninguém me ensinou que cor colocar no quadro, sabe? E mesmo assim, eu fui levando.”
Palcos e telas
As artes cênicas também inspiram as pinturas de Baskerville. Exemplo disso é o quadro “Senhora dos Afogados”, que reproduz uma cena da peça de mesmo nome, escrita por Nelson Rodrigues.
A imagem revela algo que não é explicitado no palco, por se tratar da história pregressa de um personagem: trata-se da ocasião em que Misael, desembargador e patriarca da família Drummond, contrata uma prostituta para terem relações sexuais na cama nupcial, justo no dia em que ele vai se casar.
O quadro retrata o momento em que Misael mata a prostituta, dando início a uma tragédia que, alguns anos depois, desencadeia uma crise familiar.
“Essa tela retrata um feminicídio. De alguma maneira, Nelson Rodrigues também está falando dessa ‘naturalização’ de matar mulheres”, reflete o artista.

Tela “Senhora dos Afogados”, de Nelson Baskerville. | Foto: Acervo do artista
Tanto na pintura como no teatro, Baskerville precisa lidar com a maneira como acontecimentos violentos costumam ser retratadas. “Tenho as cenas na minha cabeça e não quero me engessar”, explica.
Ele diz não se preocupar com uma possível ‘espetacularização da violência’. “O que se entende por ‘espetacularizar’, eu chamo de ‘sublimar’: é como ter um remédio amargo numa embalagem em que, a princípio, você nem percebe direito o que está vendo.”
“Esse quadro [‘Senhora dos Afogados’] não será explicado para todo mundo que vier à exposição. Muito pouca gente vê nele um feminicídio. Então, eu deixo as pessoas ‘editarem’ na própria cabeça, porque não quero que o quadro tenha um sentido para cada pessoa, quero que tenha milhares de sentidos, para as mais variadas pessoas.”
Mesmo nas artes plásticas, Baskerville diz que nunca está sozinho: seus amigos e colegas dialogam com ele sobre sua produção, apontando caminhos.

Tela “Hotel”, de Nelson Baskerville. Foto: Acervo do artista
Ele conta que o quadro “Colonial Hotel”, sua tela mais recente, foi produzido de forma colaborativa. A cena retrata uma família composta por pessoas pretas, vestindo joias, sendo servidos por um garçom branco e loiro. “Isso é inverter uma expectativa, não é?”, reflete.
“E claro, meu melhor amigo, Catra, está comigo sempre. Fiz esse quadro todo já com o olhar dele, porque ele ia falando, questionando. As pessoas que estão em volta de mim sempre levantam questões e, dependendo do que for, eu mexo mesmo [no trabalho], não tenho problema com isso”, finaliza.
ONDE VER – “Protect me from this world”
Espaço Barra R. Barra Funda, 159 – Barra Funda @espacobarra.sp Sábado e domingo, das 10h às 15h Entrada gratuita Saiba mais
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