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Última modificação setembro 22, 2026

Edwin Luisi interpreta travesti alemã em monólogo

Em “Eu Sou Minha Própria Mulher”, ator vive Charlotte von Mahlsdorf, símbolo de resistência ao nazismo

Edwin Luisi, em cena de "Eu sou Minha Própria Mulher". | Foto: Livio Campos / Divulgação

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    Sob direção de Herson Capri e com Edwin Luisi em cena, a peça Eu Sou Minha Própria Mulher faz, desde o início do mês, sua primeira temporada paulistana, sediada pelo Teatro FAAP, onde fica até 29 de novembro.

    O monólogo estreou no Rio de Janeiro, em março, e já passou por Fortaleza (CE), Niterói (RJ) e Salvador (BA).

    Para o ator, a estreia paulistana tem peso particular. Natural da Mooca, Luisi vive no Rio de Janeiro há mais de 50 anos, mas diz não ter deixado a cidade natal para trás.

    “São Paulo é a minha terra”, afirma. “Paulista é arraigado. São Paulo é onde eu tenho a minha alma. Moro há 50 e tantos anos no Rio de Janeiro, mas ainda sou uma pessoa com a mentalidade e o comportamento de um paulista.”

    Escrita pelo dramaturgo estadunidense Doug Wright, a peça tem início com o encontro do autor com a travesti Charlotte von Mahlsdorf (1928-2002), durante uma visita ao museu de antiguidades que ela mantinha em Berlim, na Alemanha. 

    Interessado por sua trajetória, Wright pediu autorização para criar uma peça sobre sua vida e, após aceitar, Charlotte lhe concedeu uma série de entrevistas.

    Edwin Luisi interpreta Charlotte von Mahlsdorf. | Foto: Livio Campos / Divulgação

    Desde jovem, ela se afirmava como mulher e assim viveu, assumindo sua identidade feminina na violenta sociedade nazista em depois, na Alemanha Oriental.

    As conversas entre os dois são intercaladas por memórias e novos acontecimentos, que surpreendem e obrigam o dramaturgo a fazer ajustes no retrato que constrói dela.

    O encontro de Luisi com os dois

    Luisi conta que conheceu essa história como quem recebe “recados da providência”. Em momentos diferentes, duas de suas amigas, Alexia Dechamps e Mônica Martelli, lhe disseram ter assistido ao espetáculo no exterior e comentaram, em momentos distintos, que ele deveria protagonizar a versão brasileira.

    Foi o que o levou a comprar os direitos da obra. Mas, a princípio, ele achou que tinha um problema em mãos.

    “Eu li o texto e não gostei”, revela. “Achei que era muito difícil de ler, sobretudo porque tem muitas partes em alemão. Também achei a peça muito densa e muito grande, tinha algumas dezenas de personagens. Quando eu li, me assustei com a peça.”

    Naquela época, ele estava em cartaz com “O Marido Ideal”, peça de Oscar Wilde, ao lado de Herson Capri. Decidiu dar o o texto do Wright para o colega de elenco ler, o que resultou em uma reação oposta à sua.

    “Quando eu li, realmente me encantei com a peça”, lembra Capri. “Vi todas as possibilidades dela. O texto é muito bom, tem uma abrangência grande: fala principalmente de uma liberdade de escolha.”

    O entusiasmo do amigo foi importante para o Luisi. Com os direitos da obra prestes a vencer, ele decidiu fazer valer o investimento, e convidou Capri para dirigir o espetáculo.

    Como eles não tinham patrocínio, os ensaios foram feitos na casa do ator. À medida que o trabalho avançava, ele próprio começou a se apaixonar pelo texto.

    Certo dia, o diretor sugeriu fazerem uma apresentação informal para cerca de 30 convidados.

    “Sou muito envergonhado”, confessa Luisi. “É esquisito eu ter tanto pudor mesmo sendo ator. Mas acabei aceitando a proposta.”

    “Eu nunca me esqueço da reação daquelas pessoas, os nossos amigos assistindo a peça. Enquanto eu dizia o texto, via o rosto deles. As pessoas pareciam em… em suspensão. E eu fiquei numa alegria… foi aí que entendi que tudo daria certo.”

    A primeira montagem estreou em 2007 no Rio de Janeiro. Ficou um ano em cartaz na cidade, seguido de um ano de turnê, recebeu críticas favoráveis de nomes como Bárbara Heliodora e Macksen Luiz. Também rendeu ao ator os prêmios Shell (2007) e da Associação de Produtores de Teatro (APTR), em 2008, de Melhor Ator, além do Prêmio Qualidade Brasil de Melhor Ator Teatral de Drama.

    Edwin Luisi em cena do monólogo “Eu sou Minha Própria Mulher”. | Foto: Livio Campos / Divulgação

    Charlotte e mais personagens

    Em cena, Luisi interpreta cerca de 20 personagens. Além do próprio dramaturgo Doug Wright e Charlotte, ele dá voz a John Marks, jornalista norte-americano que apresentou os dois; aos familiares de Charlotte; e ao colecionador de antiguidades Alfred Kirschner (um homem muito especial na vida dela).

    O ator diz que a quantidade de papéis foi sua maior dificuldade na preparação para a primeira montagem. Uma das soluções foi estudar o texto foi como se fosse uma partitura musical.

    “Estudo as frases, percebo sua coloratura”, conta. “Faço como os compositores fazem, escrevo ao lado texto: ‘staccato’, ‘allegro ma non tropo’.”

    A direção de Herson Capri, por sua vez, foi pautada pelo que ele aprendeu com Dario Fo (1926-2016), dramaturgo, ator e diretor italiano vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1997, conhecido pela habilidade de transitar por dezenas de personagens em cena, apenas com mudanças de expressão corporal.

    “Conheci o Dario Fo pessoalmente”, conta Capri. “Ele me trouxe essa perspectiva de como abordar personagens diferentes.”

    “A questão de você mudar de um personagem para outro pode ser muito difícil para um ator. A sacada é que não precisa mostrar que está fazendo a transição de um para o outro. Basta apenas mudar a atitude. Então, a peça flui de uma maneira que é muito bonita. Edwin faz isso brilhantemente, ele é muito bom em compor personagens – então foi apenas uma questão de entender como manipular isso.”

    O ator avalia que sua atuação, em 2007, funcionava em blocos. “Para determinado personagem, eu tinha que fazer tais gestos, tal voz e tal temperamento”, explica. Agora, com mais tempo de carreira, diz buscar as nuances de cada um. “Na primeira vez, era mais chapado. Agora eu consigo trazer as contradições do personagem, posso aprofundar tanto no riso quanto no drama.”

    O retorno de Charlotte

    Anos depois, Luisi procurava um novo espetáculo para montar, e esbarrou em uma limitação de repertório.

    “Quando a gente envelhece, os papéis diminuem”, diz. “Além do etarismo no processo de escolha de um elenco, há poucos personagens para pessoas mais velhas na dramaturgia. Eles normalmente estão na literatura clássica (de Molière, Tchekhov, Shakespeare), mas aí são peças para mais de dez atores. Hoje em dia, esse tamanho de elenco é muito mais difícil.”

    Diante disso, passou a considerar os papéis que produtores poderiam lhe oferecer e possíveis convites, e se perguntou se teria alguma peça de seu repertório que pudesse trazer de volta aos palcos. Foi então que lembrou de “Eu Sou Minha Própria Mulher”. 

    “Essa foi a primeira ideia que apareceu, porque não tem uma idade certa para representar essa peça, só é preciso ter fôlego. E, fôlego, eu ainda tenho.”

    Como não havia registros em vídeo nem anotações de cena da temporada de 2007, ator e diretor recomeçaram do zero: revisaram a tradução e propuseram adaptações na dramaturgia, além de criarem outro cenário e escolherem novas músicas para compor a trilha sonora do espetáculo.

    A segunda montagem estreou em 5 de março de 2026 no Teatro Poeira, do Rio de Janeiro (RJ) e passou por outras cidades daquele estado e do Nordeste. Tanto Luisi quanto Capri garantem que a recepção tem sido tão calorosa quanto na temporada anterior.

    Peças do museu de antiguidades de Charlotte. | Foto: Livio Campos / Divulgação

    O legado de Charlotte

    No processo de remontagem, os dois perceberam que os temas da peça estão mais atuais do que antes.

    “Porque a peça fala sobre uma travesti que era perseguida. Hoje, o que que a gente vê? As transexuais lutando para existir”, diz Luisi. “Na época em que a gente montou pela primeira vez, o assunto existia, mas não de forma abrangente.”

    “Hoje você vê uma comunidade de transexuais que são atuantes na vida, bem sucedidas. Quando eu era jojvenzinho, eram relegadas à prostituição, eram pessoas massacradas pela vida. Ao mesmo tempo, existe uma reação contrária a esse movimento positivo. Para cada sucesso de uma travesti, para cada elevação de nível socioeconômico, o outro lado também vai reagir na mesma intensidade. Você vê muito mais morte e perseguições hoje. É curioso esse movimento que há na história, né? Apesar da ação da peça ser situada no século 20, ela fala exatamente sobre isso.”

    Para o ator, Charlotte é um exemplo para a comunidade LGBTQIA+.

    “Ela construiu um museu com as próprias mãos, durante a guerra, comandou um cabaré que acolhia a comunidade LGBTQIA+ na Berlim Oriental” — segundo ele, o único do país a sobreviver, escondido por 30 anos. “Ela se tornou uma heroína porque resistiu.”

    Herson Capri e Edwin Luisi na coletiva de imprensa de “Eu Sou Minha Própria Mulher”. | Foto: Pedro A. Duarte / Viva a Cidade

    Herson Capri também vê nela um exemplo para os artistas, e associa a trajetória de Charlotte a um conselho que recebeu de Fauzi Arap (1938-2013), dramaturgo e diretor paulista, além de mestre de muitos artistas.

    “Fauzi me falou que tudo bem você se tornar um ator para ser uma celebridade”, lembra. 

    “Mas é necessário ter alguma postura, ter alguma coisa a dizer. É importante ter a consciência de que este é um ofício, inclusive, difícil para caramba. É artesanato. Me sinto honrado por podermos estar aqui apresentando um posicionamento completamente contemporâneo e importantíssimo”, finaliza.

    Onde ver?

    Teatro FAAP
    R. Alagoas, 903 - Higienópolis
    @teatrofaap | @eusouminhapropriamulher 
    Sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 17h | Até 29 de novembro
    R$ 80 (meia-entrada) e R$ 160 (inteira)
    Saiba mais

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.