Após uma temporada de sucesso no Teatro Ruth Escobar, a peça “7 x 1 – Uma Comédia Boa pra Cachorro” estreia neste fim de semana nos palcos do Bibi Ferreira, também na região central da capital paulista.
Com sessões aos domingos, às 19h, o espetáculo será apresentado durante o mês de agosto (exceto no dia 16).
Escrita, produzida, dirigida e encenada por Renato Scarpin, a montagem faz referência direta ao episódio envolvendo as seleções de futebol masculino do Brasil e da Alemanha, no jogo da semifinal da Copa do Mundo FIFA de 2014, quando a equipe brasileira foi goleada pela alemã, no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte (MG).
A derrota, que permanece no imaginário nacional, inspirou o artista, que criou o texto no início deste ano, também marcado por uma Copa do Mundo e por eleições gerais.
“O Brasil é esse país em que tudo que pode dar errado, dá”, resume Scarpin, explicando que a peça é uma continuação natural da trajetória que ele constrói nos palcos há mais de uma década.
Tudo começou em 2009, com a peça “Engolindo Sapo Para Um Dia Comer Perereca”, solo que escreveu quando o stand-up comedy estourava no país.
“Não sou um cara de stand-up, mas quando não se pode ‘ir com ele, junte-se a eles’. Sou um ator que faz drama, faz comédia e escreve. Resolvi escrever um solo no estilo de stand-up, só que roterizado, né?”
O texto ficou dez anos em cartaz, com diferentes personagens vivendo situações típicas do cotidiano, como filas de banco, pagamento de impostos e brigas de casal, de maneira divertida e, ao mesmo tempo, crítica.
Veio a pandemia, ele tentou escrever uma sequência mais ‘cara limpa’, sem tantos personagens, mas não saiu. Decidiu, então, dedicar-se a outros projetos, como “A Grande Mentira”, um monólogo para o qual guarda planos maiores.
O ‘bloqueio’ de criação para o formato com vários personagens acabou em 2026, com o texto de “7 x 1”.
Sete personagens, um país inteiro
O número sete, do título da peça, também remete à quantidade de personagens que entram em cena nas apresentações: um senador, uma trabalhadora doméstica e o filho dela, uma criança rica, um capitalista, um idoso e um cachorro.
Scarpin abre o espetáculo com o senador Armando Omote, que expõe sem rodeios os bastidores da politicagem, como a elaboração de um projeto para aumentar a mistura de álcool na gasolina, visando ao escoamento do estoque excedente de cana.
“As pessoas ficam meio chocadas, porque ele fala a verdade nua e crua”, conta o ator, que faz questão de separar duas coisas em suas produções: “Acho que, no teatro, cabe o campo político sim, mas o partidário jamais. É uma linha que eu sempre segui nos meus trabalhos.”
Ele explica que, na comédia, todos os personagens se conectam, como em um tabuleiro:
“A doméstica grávida, que mora na periferia, é eleitora do senador; o filho dela é jogador de futebol da Seleção Brasileira, que tenta dar justificativas para uma eliminação vexatória. Ela também é babá de uma criança rica, filha de um palestrante do mercado financeiro, que só pensa em dinheiro e expõe a usura dos bancos; além do bisavô dessa criança, Nicanor, um idoso esquecido pela família, que aprendeu a mandar áudio no WhatsApp tarde demais”, conta.
Completa o grupo um cachorro, um dogue alemão de pet shop, que se recusa a ser adotado e observa, cínico e lúcido, a espécie humana. “Ele vai falando das características dos cachorros e das loucuras que os seres humanos fazem”, descreve o ator.

Cachorro é personagem de destaque em “7 x 1”. | Foto: Divulgação
O ponto alto da montagem é a fala final do animal, que sintetiza o espírito da obra: “Eu sou um dogue alemão, mas moro no Brasil. E o Brasil, isso aqui não é um país, isso aqui é uma peça de comédia”.
“No final das contas, o cachorro é o ser mais inteligente do espetáculo. É quem está vendo tudo”, diz Scarpin, que, no entanto, evita chamá-lo de alter ego.
Além da derrota no futebol, a inspiração para a peça surgiu do cansaço dele com o formato do trabalho anterior, em que misturava ‘cara limpa’ e personagens.
“Quando eu estou ‘de cara limpa’, a tendência é as pessoas considerarem aquilo que tá sendo dito como se fosse minha opinião. Se estou interpretando um personagem, é entedido como ficção”, explica.
O fio que une os personagens é sempre o riso, uma forma de dar espaço à reflexão. Além disso, o que é mostrado no palco não é discurso vazio: segundo o ator, é comum que espectadores o procurem depois de ver o espetáculo, para dizer que ligaram para o pai, visitaram o avô ou repensaram a relação com os filhos, a partir das situações vividas por Nicanor ou pela criança rica.
Do desenho de carros ao palco
A trajetória de Scarpin até o teatro passa por um desvio e tanto: a engenharia.
Filho de uma família de imigrantes italianos, trabalhadora e sem qualquer tradição artística, ele sonhava em projetar carros. Queria fazer engenharia mecânica, mas acabou se formando em engenharia civil, e chegou a trabalhar na área na Alemanha.
Na infância, ouvia em casa: “artista é uma coisa que não é para você”.
Depois de quase cinco meses no exterior, na volta ao Brasil, quis fazer um curso de teatro “só por curiosidade”. Três meses depois, a decisão estava tomada.
Renato Scarpin afirma que, curiosamente, a engenharia nunca foi embora de seu processo criativo.
“A faculdade de engenharia é maravilhosa porque ensina a pensar de forma prática. Quando vou montar uma peça, tenho os objetivos claros de onde quero chegar, que emoção quero despertar no público”, diz.
Também vem de sua formação inicial a identificação que sente com o trabalho de direção de Clint Eastwood: “ele pega o microcosmo de alguma coisa para falar do macro”. Scarpin reconhece o mesmo método em seu próprio trabalho.
Na televisão, o ator construiu carreira com papéis marcantes, como Dr. Marcelo de “Esmeralda” (SBT, 2004-2005), Joaquim, de “Um Só Coração” (Globo, 2004), e o professor Mesquita, de “Bicho do Mato” (na Record, 2006-2007), além de passagens por “Chiquititas” (SBT, 2014) e pela comédia “Água na Boca” (Band, 2008).
Atualmente, experimenta um formato novo: já gravou três novelas verticais, gênero audiovosual com capítulos de até um minuto e meio, feito para ser visto pelo celular.
“É um novo estilo, que se volta à essência das novelas, que é fazer sonhar. A realidade já está tão difícil, né?”, reflete, comparando a novidade às antigas novelas mexicanas e às produções turcas e coreanas: “As pessoas querem sonhar”.
O que vem por aí
Enquanto “7 x 1” estreia no Teatro Bibi Ferreira, Scarpin já articula outros projetos.
Está em leitura a remontagem de “Mulheres, Tanta Coisa em Comum”, texto de 2014, que aborda o universo feminino com sensibilidade.
É uma comédia dramática sobre duas mulheres que descobrem, num café, serem amante e esposa do mesmo homem. A peça, segundo o artista, deve ter direção da atriz Leona Cavalli.
Na gaveta, outros dois espetáculos esperam ‘ver a luz’. Um deles é o texto inédito “Chama o Uber”, que ele planeja montar ainda este ano, com Rick Conte, Carol Hubner e João Baldasserini.
Trata-se da história de um motorista de aplicativo que vê sua vida se cruzar com as de seus passageiros de forma inesperada.
O segundo é “Dois Perdidos numa Kombi Suja”, comédia premiada em Curitiba (PR), que virou livro, publicado pela Editora Toma Aí Um Poema, em janeiro de 2026.
A peça, ainda inédita nos palcos, é uma viagem pela história da humanidade contada por dois palhaços que interpretam todas as épocas com sotaques brasileiros.
O maior sonho, porém, é estrear “A Grande Mentira”, que foi escrito em quatro dias, no auge do isolamento da pandemia, solo que tem o Diabo como protagonista.
O texto, que ele define como um desabafo sobre a natureza humana, promete ser um ‘tapa na cara’ da plateia.
“Tem falas que são sérias, por exemplo, quando ele vira para o público e fala: ‘Como é que eu posso não ter orgulho de vocês? Vocês são a única espécie do universo que abusa sexualmente dos próprios filhotes’. Mas é bom lembrar que se trata de uma crítica à gente, e não uma exaltação dele”, faz questão de esclarecer.
Vida de artista
Quando o assunto é a fama, Scarpin não esconde um certo desconforto, relacionado com os holofotes desiguais da classe artística.
“Eu não faço parte da bolha”, diz, referindo-se à decisão de não se filiar a bandeiras partidárias.
Em vez disso, garante que vai continuar fazendo o que sabe: “pegar o ‘absurdo’ cotidiano do país e devolvê-lo à plateia em forma de riso”.
Para ele, o humor é a ferramenta mais poderosa para fazer críticas profundas.
“A comédia tem o poder de, ao fazer rir, ‘abrir os canais’. Quando ri, a plateia se liberta de julgamentos e, de repente, a informação chega. Quero fazer peças para criticar, para brincar, para explorar as coisas que são absurdas no Brasil, mas que são tão absurdas a ponto de serem engraçadas”, finaliza.
Onde ver:
"7 x 1 – Uma Comédia Boa pra Cachorro" Onde: Teatro Bibi Ferreira Av. Brigadeiro Luís Antônio, 931 - Bela Vista Instagram: @teatrobibiferreiraoficial Quando: dias 2, 9, 23 e 30 de agosto - domingos, às 19h Quanto: de R$ 60 (meia-entrada) a R$ 120 (inteira) Mais informações
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