A peça “Histórias Lindas de Morrer“, em cartaz no Teatro Vivo até outubro, adapta o livro homônimo da médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, especialista em cuidados paliativos.
A obra, lançada em 2020 pela Editora Sextante, é um dos maiores sucessos da autora, que soma mais de um milhão de exemplares vendidos na carreira e é responsável também por “A Morte é Um Dia que Vale a Pena Viver” (2019).
Com dramaturgia assinada por Claudia Barral e Marcos Barbosa, a encenação se estrutura como uma palestra ministrada por uma médica (interpretada por Letícia Cannavale), que explica o funcionamento da medicina paliativa enquanto relembra histórias que viveu ao lado de seus pacientes, até sua fala ser interrompida por um chamado.
O Encontro com a Obra
Idealizado por Letícia ao lado do diretor Fernando Nitsch, seu companheiro de vida e de profissão, o espetáculo nasceu do desejo de criarem algo juntos nos palcos.
“O Fernando e eu estávamos procurando um texto novo, algo que fizesse nossos olhos ‘brilharem’, para montar no teatro”, conta Letícia.
O casal já ministrava cursos de oratória para médicos de todo o Brasil quando conheceu os livros de Ana Claudia.
“Em uma dessas viagens, uma colega nos apresentou a obra da Ana Cláudia. Nós lemos seus livros, ficamos extremamente tocados e dali veio a vontade de falar sobre esse tema”, lembra Fernando.
Ele conta que começaram pela leitura de “A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver” e já decidiram entrar em contato com o agente da Ana Cláudia, que indicou “Histórias Lindas de Morrer” para uma adaptação, por ser mais teatral.
“E, de fato, quando pegamos ‘Histórias Lindas…’ devoramos o livro. Ali, entendemos que era uma grande história para contar”, completa.
Letícia diz que essa é a primeira vez que a dupla produz uma peça juntos.
“Quando conhecemos os livros da Ana Claudia, com sua proposta da finitude como ponto de partida para uma vida melhor e mais consciente, não tivemos dúvidas de que seria o nosso assunto. Com ‘Histórias Lindas de Morrer’ ainda alcançamos um outro objetivo ‘secreto’, que é o resgate das narrativas”, revela a atriz. “Somos apaixonados por boas histórias e acreditamos no poder transformador disso na arte e na sociedade. Vimos que essa peça era a possibilidade perfeita, com um tema que não tinha como ser mais relevante nos dias de hoje.”
Do universo corporativo ao palco
A ideia de enquadrar a peça como uma palestra veio da dupla de dramaturgos, casando perfeitamente com a experiência prévia de Letícia, que também treina oradores. Isso a ajudou a se preparar para o papel.
“Essa personagem me inspirou a colocar em cena aquilo que eu já vinha exercitando de outras maneiras, em eventos particulares e do mundo corporativo”, explica.

Letícia Cannavale interpreta “Histórias Lindas de Morrer”. Foto: João Caldas
“Esse foi um grande laboratório para nós nos últimos anos, porque observamos muito como esses profissionais falam, como eles agem nesses momentos. Já tinha uma pesquisa ali a respeito desse gestus, desse arquétipo do médico”, reflete Fernando.
Além de ler os livros da especialista, eles viram palestras e entrevistas com a médica, que estão disponíveis online.
“Meu encantamento absoluto foi inevitável, não só pela médica, mas pela mulher extraordinária que ela é. Entretanto, em nenhum momento tentamos imitar o temperamento, as características físicas ou comportamentais dela. Nossa personagem foi criada a partir de alguns detalhes de sua postura”, fala Letícia.
Ela conta que o mais importante foi dar vida a uma personagem apaixonada pelo que faz, “animada com a vida e que encara com leveza a existência inevitável da morte, sem perder o bom humor e a humanidade com que trata os assuntos mais densos e complexos da medicina”, avalia.
Tabus e desafios
Os artistas reconhecem que a finitude, principal tema das obras da autora, é um assunto delicado, que pode reverberar de maneiras diversas nos espectadores, mexendo com o ‘emocional’ de quem entra em contato com ele, seja o espectador ou a atriz em cena.
Para Letícia, o período mais difícil de todo projeto é sempre o dos ensaios.
“É um momento em que ainda estou ‘perdida’, buscando referências internas e externas. Depois que a peça estreia e vira teatro de fato, eu me sinto mais amparada pelo público. Mesmo assim, ainda preciso de um tempo longo de preparação física, vocal e emocional antes de cada apresentação do espetáculo, o que eu faço sempre com absoluta entrega e amor.”
O resultado é um texto conduzido pela atriz com serenidade, no qual ela navega por termos médicos com segurança, narrando as histórias com afeto.
Fernando reconhece que a interpretação de Letícia é uma parte significativa do trabalho para atingirem os resultados que esperavam.
“Ela é uma atriz com muitos recursos, que consegue transitar de uma forma ímpar entre a leveza e a profundidade, ao colocar a mão em um assunto que é delicado e sensível em ao mesmo tempo, consegue trazer essa poesia ao palco”, afirma.
Oriunda da Companhia de Teatro Íntimo, do Rio de Janeiro, Letícia conta que o contato direto e acolhimento do público é algo que vem praticando nos últimos 21 anos de trajetória do grupo.
“A intimidade entre o público e os atores é a base da nossa pesquisa. É uma intimidade sem intimidação, que convida o espectador a estar junto de cada detalhe, não como um bloco único, mas como indivíduos que emprestam suas referências pessoais para receber o que vivenciamos em cena”, explica.
Ela diz que, por isso, não encontra dificuldades para olhar nos olhos da plateia e convidar cada um a embarcar “nessa viagem fantástica que é o teatro”.
“Claro que não é sempre fácil, pois nem todos estão disponíveis para serem afetados. O desafio é essa possibilidade de se manter presente.”
Aprendizados
Fernando diz que esse espetáculo é um aprendizado constante, pois, a cada dia, a peça “se revela para a gente de uma forma diferente, com camadas muito profundas de ensinamentos”, o que os faz perceberem a ‘beleza’ da descoberta desse assunto.
“Somos muito gratos de estar em cena fazendo o que gostamos, de estar no nosso lugar, no nosso território, contando uma história que nos atravessa”, avalia, afirmando que a obra da Ana Cláudia é rica em ensinamentos. “Ela nos ajuda a entender que, na verdade, falar sobre a morte é celebrar a vida. Cada vez mais eu sinto que esse tema me traz uma urgência boa, uma necessidade de me entender vivo e de aproveitar a vida em toda a sua potência. Falar da morte, para nós, é celebrar a vida.”
Letícia diz também sentir que a peça a transformou de um modo intenso.
“Passei a valorizar mais as minhas relações e as minhas escolhas, pois a vida passa muito rápido, e o tempo é um bem valioso que não se repete. Assim como numa peça de teatro. Gosto de pensar que o ator entra em cena todos os dias para morrer, não de um modo pesado ou negativo, mas, justamente, pelo fato de o teatro ser uma obra viva, que se apresenta daquele modo apenas uma vez.”

Letícia Cannavale atua em “Histórias Lindas de Morrer”. | Foto: João Caldas/Divulgação
Ela lembra que uma peça de teatro não se repete nem para o público nem para os artistas.
“Desse modo, o teatro se aproxima da própria vida e, em ‘Histórias Lindas de Morrer’, o luto e a finitude ganham um outro significado, muito mais bonito e generoso.”
Onde ver?
Teatro Vivo Av. Chucri Zaidan, 2.460 – Vila Cordeiro @teatrovivosp | @historiaslindasdemorrer Quartas e quintas, às 20h | Até 1 de outubro R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia-entrada) Saiba mais
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