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Última modificação julho 03, 2026

Nelson Baskerville expõe choque com feminicídios

Com origem no teatro, artista se vale da pintura para mostrar perplexidade diante das violências do mundo

Colagens de Nelson Baskerville expostas no Espaço Barra. Foto: Pedro A. Duarte

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    O diretor teatral Nelson Baskerville revela para o grande público suas habilidades nas artes visuais, ao abrir a exposição “Protect me from this world” no Espaço Barra, na Barra Funda (zona Oeste).

    Os visitantes poderão contemplar quadros, esculturas e instalações feitas por ele, neste fim de semana, nos dias 4 e 5 de julho.

    Nas obras e experimentações artísticas, ele mostra um pouco de sua indignação com as violências e injustiças do mundo. 

    “Essa exposição marca minha perplexidade diante aos casos de feminicídio. É como se eu me colocasse ao lado das mulheres dizendo ‘me ensinem como é que a gente lida com isso?’. E eu sei que é combatendo a misoginia e conversando sobre isso”, diz.

    “Protect me from this world” é resultado de um percurso nas artes visuais que começou nos anos 1990. Com o passar do tempo, Baskerville se deu conta da natureza da manifestação artística que ele produzia: “eu tenho me manifestado na pintura através de mulheres”, explica.

    “Muitas vezes, a minha sensibilidade, a minha indignação e a minha tristeza foram ‘diagnosticadas’ como sentimentos femininos. Eu sempre identifiquei a minha fragilidade com uma suposta fragilidade feminina”, conta.

    Sua indignação começou ao ver notícias sobre o assassinato de Ângela Diniz (1944-1976) pelo namorado Raul Fernando do Amaral Street (1934-2020), que ficou conhecido como Doca Street. Junto à opinião pública da época, ele se tornou um ‘fenômeno’, enquanto a socialite foi vilanizada.

    Para o diretor, há, nos casos de feminicídio da atualidade, uma continuidade da ‘caça às bruxas’, perseguição ocorrida durante a Idade Média.

    “Hoje, as mulheres estão sendo mortas como se fossem bruxas, é como um ritual. Aos poucos, fui percebendo meu incômodo com o que está acontecendo: por que, de repente, nós estamos naturalizando coisas que não deveriam ser naturalizadas? Que barbárie é essa?”, questiona.

    Ele diz ver a selvageria e a desumanidade também expostas na política internacional: “Que barbárie é essa das invasões em países soberanos? Que barbárie é essa de nós sermos o país que mais mata pessoas trans? Que recorde é esse que nós temos e que a gente não consegue parar?”.

    Nelson Baskerville, ao lado das obras expostas no Espaço Barra. | Foto: Pedro A. Duarte

    Ao se perguntar sobre quais armas ele teria para encampar a luta contra essa barbárie, e quais armas ele se permitira usar, Baskerville percebeu que a resposta viria da arte. Por isso, compara o trabalho artístico com o de um alquimista.

    “Nós transformamos as coisas, de certa forma. Eu tenho essa origem ‘da Caçamba’ e, com todas as coisas que eu passei na minha vida, as violências – uma uma família disfuncional e tudo – de certa forma, eu peguei… eu vou chamar de ‘lixo’ e eu transformei isso em arte”, reflete.

    Por isso, algumas de suas obras mostram pessoas em perigo ou pedindo ajuda. “É como se eu também estivesse pedindo ajuda”, revela.

    Para ele, a exposição é uma oportunidade de falar sobre isso. “Mesmo se a pintura não interessar a ninguém, ela está sendo uma oportunidade de falar sobre minha indignação”.

    “A gente precisa usar, cada um, a arma que a gente tem, o que a gente tem de melhor. Se não, talvez o mundo passe uma fase enorme de caos, escuridão e guerra. Eu sei que as obras não conseguem exprimir tudo isso, mas só queria que vocês também soubessem que a minha alma está assim, e é essa alma que está pintando isso.”

    Origem ‘da caçamba’ 

    Baskerville iniciou sua trajetória nas artes fazendo teatro amador e, em 1983, formou-se na Escola de Arte Dramática (EAD), da Universidade de São Paulo (USP).

    Anos depois, em 1991, tornou-se professor do Teatro-Escola Célia Helena, o que marcou o começo de sua atuação como diretor teatral, função em que montou espetáculos como “17x Nelson”, a partir das obras de Nelson Rodrigues, e “Bonitinha, mas Ordinária”, também do dramaturgo carioca.

    As peças “A Médica”, de Robert Icke e “Cock”, de Mike Bartlett, também são adições recentes ao seu portfólio, que conta, ainda, com “Luiz Antonio-Gabriela”, encenada pela Cia. Mungunzá, que aborda a vivência de mulheres trans e travestis.

    As experimentações com artes visuais começaram nos anos 1990, com trabalhos em argila, a partir da influência de um amigo cenoténico, conhecido como ‘Nenenco das Máscaras’.

    Colagens de Nelson Baskerville, expostas no Espaço Barra. | Foto: Pedro A. Duarte

    Mas, a ‘brincadeira’ com esse material durou pouco, e ele logo se rendeu à pintura. Essa mudança aconteceu em 2002, quando conheceu a obra do pintor Jaime Prades.

    “Ao mesmo tempo, eu via, nas ruas de São Paulo, caçambas com muita madeira boa sendo jogada fora. Então, juntei as duas coisas: fui pegando essas madeiras e levando para casa, para tratar delas e, depois disso, comecei a pintar – primeiro imitando o Jaime Prates”, conta.

    Essas iniciativas tiveram bons resultados: ao mostrar as primeiras obras a amigos e colegas, muitos questionaram se estava estudado pintura, e o incentivaram a fazer faculdade de artes visuais.

    “Eu respondia: ‘Ué, mas você já não gostou, por que é que eu vou fazer uma [faculdade] agora?’. Depois, pensando nisso, decidi não fazer [um curso], porque é uma manifestação muito pura a que eu tenho… Nunca ninguém me ensinou que cor colocar no quadro, sabe? E mesmo assim, eu fui levando.”

    Palcos e telas

    As artes cênicas também inspiram as pinturas de Baskerville. Exemplo disso é o quadro “Senhora dos Afogados”, que reproduz uma cena da peça de mesmo nome, escrita por Nelson Rodrigues.

    A imagem revela algo que não é explicitado no palco, por se tratar da história pregressa de um personagem: trata-se da ocasião em que Misael, desembargador e patriarca da família Drummond, contrata uma prostituta para terem relações sexuais na cama nupcial, justo no dia em que ele vai se casar.

    O quadro retrata o momento em que Misael mata a prostituta, dando início a uma tragédia que, alguns anos depois, desencadeia uma crise familiar.

    “Essa tela retrata um feminicídio. De alguma maneira, Nelson Rodrigues também está falando dessa ‘naturalização’ de matar mulheres”, reflete o artista.

    Tela “Senhora dos Afogados”, de Nelson Baskerville. | Foto: Acervo do artista

    Tanto na pintura como no teatro, Baskerville precisa lidar com a maneira como acontecimentos violentos costumam ser retratadas. “Tenho as cenas na minha cabeça e não quero me engessar”, explica.

    Ele diz não se preocupar com uma possível ‘espetacularização da violência’. “O que se entende por ‘espetacularizar’, eu chamo de ‘sublimar’: é como ter um remédio amargo numa embalagem em que, a princípio, você nem percebe direito o que está vendo.”

    “Esse quadro [‘Senhora dos Afogados’] não será explicado para todo mundo que vier à exposição. Muito pouca gente vê nele um feminicídio. Então, eu deixo as pessoas ‘editarem’ na própria cabeça, porque não quero que o quadro tenha um sentido para cada pessoa, quero que tenha milhares de sentidos, para as mais variadas pessoas.”

    Mesmo nas artes plásticas, Baskerville diz que nunca está sozinho: seus amigos e colegas dialogam com ele sobre sua produção, apontando caminhos.

    Tela “Hotel”, de Nelson Baskerville. Foto: Acervo do artista

    Ele conta que o quadro “Colonial Hotel”, sua tela mais recente, foi produzido de forma colaborativa. A cena retrata uma família composta por pessoas pretas, vestindo joias, sendo servidos por um garçom branco e loiro. “Isso é inverter uma expectativa, não é?”, reflete.

    “E claro, meu melhor amigo, Catra, está comigo sempre. Fiz esse quadro todo já com o olhar dele, porque ele ia falando, questionando. As pessoas que estão em volta de mim sempre levantam questões e, dependendo do que for, eu mexo mesmo [no trabalho], não tenho problema com isso”, finaliza. 

    ONDE VER – “Protect me from this world”

    Espaço Barra
    R. Barra Funda, 159 – Barra Funda
    @espacobarra.sp
    Sábado e domingo, das 10h às 15h
    Entrada gratuita
    Saiba mais

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.