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Última modificação junho 18, 2026

Peça de Pirandello discute lugar da arte na sociedade

Dirigida por Kiko Marques, nova montagem de “Os Gigantes da Montanha” está em cartaz na Zona Franca

Cena de "Os Gigantes da Montanha". | Foto: Divulgação/@raidosolfoto

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    Elaborada por Luigi Pirandello (1867-1936) em meados da década de 1930, a peça “Os Gigantes da Montanha” nunca foi finalizada por seu autor, que morreu antes de concluir a escrita do terceiro ato do espetáculo.

    Para a alegria dos amantes do teatro, o dramaturgo italiano, no leito de morte, disse ao filho Stefano o que planejava para o final da história, o que lhe permitiu dar um desfecho às duas primeiras partes da peça do pai. 

    Essa obra ‘inacabada’ insiste em ganhar vida, escolhida por diversas companhias teatrais devido ao fascínio que gera, não só pelos mistérios do texto, como também por abordar temas como o lugar da arte na sociedade, a força motora dos sonhos e a linha tênue entre a realidade e o delírio.

    E uma nova montagem da peça, dirigida por Kiko Marques, está em cartaz na região central de São Paulo, na Zona Franca.

    A trama acompanha a chegada de uma trupe de teatro decadente à misteriosa Vila, habitada por pessoas deslocadas da sociedade, que vivem entre sonhos e fantasias.

    Liderados pela Condessa Ilse, os artistas carregam a obsessão de encenar uma peça escrita por um poeta que morreu por causa de um amor não correspondido.

    Mas o espetáculo acaba fracassando diante do público, restando à companhia apenas os figurinos, a precariedade e a insistência em continuar criando.

    Na mesma Vila, o grupo encontra Cotrone, figura enigmática, que defende a construção de um mundo onde o sonho e o invisível tenham mais valor do que a lógica da realidade.

    Ele sugere que a trupe de artistas se estabeleça no local e que vivam ali a sua peça, como um prodígio que baste a si mesmo.

    Mas, diante da obstinação da Condessa em continuar encenando-a para o público, ele propõe que a oferecem aos Gigantes da Montanha e seus servos — figuras míticas, que representam forças brutais e incompreensíveis diante da fragilidade da arte.

    Da esquerda para a direita: Isadora Maffei (interpreta Lumachi), Gustavo Smith (Quaqueo), o diretor Kiko Marques e Ioli Ferro (Diamante). | Foto: Pedro A. Duarte

    Dentro da Vila

    É a quarta vez que o diretor Kiko Marques se debruça sobre esta peça. A primeira vez foi no início de sua carreira, na década de 1980, quando ele era ator da companhia de Moacyr Góes, no Rio de Janeiro.

    “Eu apaixonei radicalmente pelo texto e seus enigmas, por aquilo que o texto tinha e pelo que não tinha, pelo que ficava em aberto em aberto”, relembra. “E pela entrada nesse universo interno do artista e do poeta, do universo do sonho”, completa.

    Hoje, membro-fundador da Velha Companhia, ele se volta ao espetáculo com novos olhares e com a certeza de que há um lugar ideal para apresentá-lo: a Zona Franca, centro cultural localizado no Bixiga (Bela Vista), ocupado pela Velha Companhia e outros grupos.

    “Esta casa está aos pés de uma montanha cujo topo é a Avenida Paulista”, explica. “A ‘nossa’ Avenida Paulista é exatamente para onde os moradores da vila apontam como o lar dos gigantes”.

    Cena de “Os Gigantes da Montanha”. | Foto: Pedro A. Duarte

    O segundo ato do espetáculo se passa dentro da casa onde Cotrone e seus ‘azarados’ vivem. A partir das magias – reais ou artificiais – feitas pelo personagem enigmático, os membros da trupe passam a viver uma experiência que confunde os limites entre a realidade e o sonho.

    Ainda que não se trate de uma montagem itinerante ou imersiva, a própria casa que sedia a Zona Franca acaba servindo como cenário do espetáculo.

    “Essa imersão da plateia, esse estar diante dos atores, recebendo-os de fato com uma presença plena, próxima e perigosa, faz parte intrinsecamente da realidade do teatro”, diz Kiko. “O teatro é presença, o teatro somos nós aqui. Ainda mais hoje em dia, em que tudo pode ser tecnológico, virtual, simulado, mentiroso. A presença está aqui fixa, de fato – e o perigo está estabelecido nisso. Não só neste espetáculo, como no teatro, a presença plena é muito poderosa.”

    Cena da peça “Os Gigantes da Montanha”. | Foto: Pedro A. Duarte

    O teatro e a materialização dos sonhos

    Enquanto se deixam levar pelas ilusões fabricadas por Cotrone, os membros da ‘Companhia da Condessa’ vivem um dilema. Seu espetáculo ‘A Fábula do Filho Trocado’ é um fracasso, mas eles insistem em apresentá-la para o público.

    Diante disso, Cotrone propõe que eles saiam do convívio da sociedade e passem a morar em uma casa onde poderão viver a peça que tanto amam.

    É a partir dessa escolha que o elenco do espetáculo percebe que há uma ‘fricção’ entre a realidade e o sonho, o que tem uma forte relação com o fazer teatral.

    “O teatro tem a ver com a realização da substância”, afirma o ator Francisco Taunay, que interpreta Cromo. “A realização está no cerne do ser do teatro. Então essa peça tá discutindo justamente isso.”

    Para Bruno Rods, que faz o papel de Cotrone, o que há de bonito na proposta dos ‘azarados’ está na vivência dos sonhos.

    “Eles não adiam o sonho, mas o vivem todos os dias”, explica. “A ideia de sonho sempre vem com uma conotação muito carregada de futuro: Qual é o meu sonho? Com que cidade eu sonho? Com que carreira eu sonho? E a Vila presentifica o sonho no hoje. É claro que tem processos, a paciência também opera milagres – mas tem uma coisa da ação imediata, quando já se sabe o que tem de ser feito, de [que não é preciso] buscar tão longe. Essa dicotomia é a corda bamba em que a gente anda.”

    Por outro lado, na peça, os personagens artistas vivem seu próprio dilema: eles irão produzir arte para si mesmos ou para os outros?

    Ari Pinotti, ator que interpreta Spizzi, diz que encontra beleza na insistência da Condessa em levar a obra para o público.

    “Essa é a essência do artista: espalhar uma mensagem, se apaixonar por um texto e querer trazer uma influência boa. Porque isso vai alimentar as pessoas de uma maneira que só a arte é capaz de fazer”, afirma.

    Kiko Marques conta que, depois de atuar nessa peça, ainda em 1990, entendeu a própria escolha por se tornar artista.

    “Foi a partir desse olhar da Vila, desse conflito entre a arte e a plateia: o que você quer mostrar e quem vai ver; por que vai ver; como isso se conecta? A arte e a sua explosão, e um espectador diante dessa condição.”

    Para o diretor, o final trágico da história, os Gigantes e seus servos simbolizam o recrudescimento dos seres humanos.

    “Quando nos dizem que somos mão de obra, força de construção de estradas, de edifícios, é como se dissessem ‘você não é uma pessoa’. Isso é absolutamente devastador e foi se tornando a norma no nosso mundo. Por isso este texto é absolutamente contemporâneo e é instigante montarmos ele hoje”, justifica.

    Vida real

    Convidada para integrar o elenco da peça no papel da Condessa Ilse, Alejandra Sampaio, que também é membro da Velha Companhia, entende a importância do espetáculo como uma forma de não permitir que a população viva um dia a dia precário.

    “Nosso cotidiano não pode ser apenas levantar e trabalhar. Estamos falando de uma população do Brasil que passa duas ou três  horas no transporte público, senão mais, só para chegar no trabalho. Há pessoas que nunca pisaram no teatro, e o sonho é permitir que essas pessoas tenham acesso à cultura e ao lazer”, afirma.

    Ela diz que todos estão vivendo um momento de desconstrução, principalmente aqueles que apenas acordam e trabalham.

    “Sua arte e seus ritos estão escassos, porque não sobra tempo. Mas a cultura e o teatro não vão acabar, porque, ainda que se vá para o canto da igreja fazer um canto, ou mesmo as canções que usamos para ninar as crianças ainda estão aqui. A arte é a respiração para a gente não sucumbir. A arte é esse respiro, que é um religar entre o nosso ócio, a nossa criatividade e a nossa espiritualidade”, reflete a atriz.

    Da esquerda para a direita: Ian Veronico (Milordino), Francisco Taunay (Cromo), Alejandra Sampaio (Condessa) e Eduardo Venosa (Conde)

    Para Alejandra, olhar para o próximo, seja o público ou seus colegas de elenco, é uma boa maneira de começar a levar o sonho adiante.

    “Aqui neste grupo tem uma semeadura de sonhos – secreta e silenciosa. Com o trabalho de cada um, nós conseguimos ir provocando [a população]. Quando eu olho para a Zona Franca, e falamos de espaços pequenos, percebo que isso é muito bonito”, explica.

    Ela afirma que o que ‘alimenta’ o sonho é participar de algo que pode virar uma companhia.

    “Muitas companhias estão acabando porque o caminho individual está muito potente: os elencos se desfazem porque um vai fazer uma série, outro vai fazer um filme. Mas a gente só sobrevive e o sonho só se alimenta de mãos dadas. E quando olhamos para algo com potência para acontecer, aí vira um sonho. Não é só individual, mas a gente consegue fazer acontecer, ser politicamente forte, resistente e, então, mudar.”

    Da esquerda para a direita: Bruno Rods (Cotrone), Gustavo Smith (Quaqueo) e Alejandra Sampaio (Condessa). | Foto: Pedro A. Duarte

    Quanto à formação de público, ela lembra que o boca-a-boca ainda é a melhor forma de aproximar as pessoas da arte.

    “Aqui, no Bixiga, a gente está conseguindo trazer gente pela primeira vez ao teatro”, conta. “É coisa de fazer o cartaz, de bater na porta da igreja e convidar para assistir. E as pessoas chegam. É coisa de ir um por um, dando as mãos para criar uma companhia nova, uma ‘casinha’ de resistência, que não vai virar mais um prédio. Devagarzinho, a gente vai sendo subversivo e corroendo esse sistema. Se a gente não acreditar nisso, os gigantes vão nos engolir.”

    Onde ver?

    Zona Franca
    R. Alm. Marques de Leão, 378 - Bela Vista
    @azonafranca | @gigantesdamontanhateatro
    Sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 18h  | Até 28 de junho
    R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)
    Saiba mais

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.