“Travessia” faz do palco uma balsa à deriva
Elenco multiétnico reúne, no espetáculo de Gabriela Mellão, naufrágios da história

Informações
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Data de inicio e término
01/04/2026 até 03/05/2026
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Dias da semana e horários
De quinta a sábados, às 20h | Domingos, às 18h30
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Valores
R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia entrada) e R$ 15 (credencial plena)
Mais detalhes
Uma balsa flutua à deriva no espetáculo “Travessia”, que estreia dia 1º de abril no Sesc Belenzinho. Ao mesmo tempo metáfora do mundo contemporâneo e ferida aberta da história, ela remete a um naufrágio real que expôs a brutalidade das engrenagens coloniais e da desigualdade social.
Em 1816, a fragata francesa Medusa naufragou na costa da África após a negligência de um capitão nomeado por influência política. Sem botes suficientes, reservados aos oficiais e homens brancos, cerca de 150 pessoas foram abandonadas em uma balsa improvisada. Fome, sede, violência e desespero reduziram o grupo a apenas 15 sobreviventes após 2 semanas. O episódio chocou a França e foi transformado por Théodore Géricault no monumental quadro A Balsa da Medusa (1818), uma denúncia da desumanização produzida por sistemas que hierarquizam vidas e naturalizam o descarte humano.
Em “Travessia”, essa imagem histórica torna-se um dispositivo dramatúrgico para refletir os naufrágios civilizatórios do presente: migrações forçadas, fronteiras militarizadas, polarização ideológica e os mecanismos de poder que decidem quem merece proteção e quem pode ser lançado ao mar.
“Não interessava fazer uma reconstituição histórica da balsa”, explica a autora e diretora Gabriela Mellão. “O que nos moveu foi colocar essa imagem em fricção com as histórias reais dos artistas em cena, criando um espelhamento entre o naufrágio colonial e os naufrágios contemporâneos que seguimos produzindo.”
O espetáculo nasceu de um processo colaborativo de quase dois anos entre Mellão, atores reconhecidos da cena brasileira — como Miriam Rinaldi, Vitor Britto e Rodrigo Bolzan — e artistas em situação de deslocamento: Dani Mara (brasileira indígena), Prudence Kalambay (República Democrática do Congo), Mariama Bintu Bah (Gâmbia/Senegal), Mario Tadeo (boliviano indígena), Victor Gee Rosales (Venezuela) e Shambuyi Wetu (República Democrática do Congo).
A diversidade, aqui, não aparece como tema ou ilustração: é o próprio método de criação. “Travessia só existe porque corpos, histórias e cosmologias muito diferentes tiveram uma troca real, sustentando conflitos e visões de mundo distintas em nome de uma criação conjunta”, afirma Mellão.
A dramaturgia constrói um tecido de camadas narrativas que se entrelaçam. O episódio da Medusa dialoga com depoimentos autobiográficos, fragmentos documentais, tragédia grega e mitologia indígena. Situações envolvendo filas burocráticas, discursos de inclusão, mercantilização da diversidade e afetos administrados por lógicas de mercado atravessam a cena.
Visualmente, o espetáculo cria quadros vivos inspirados na pintura de Géricault, transformando os atores em dispositivos narrativos e plásticos. Não há protagonismo individual: o que se ergue em cena é um coletivo heterogêneo que sustenta a balsa, questiona o poder e humaniza as diferenças.
“Travessia” convida o espectador a embarcar na balsa e o convoca a refletir sobre as posições que ocupa dentro dela. Quem sabe, inspirando o ato praticado no próprio processo da obra: a insistência em reconhecer o outro em sua plena humanidade.
Dados de contato
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Telefone
(11) 2076-9700
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