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Última modificação julho 13, 2026

Cinemateca promove retrospectiva dupla

Mostra apresenta cópias restauradas dos filmes mais importantes de Joaquim Pedro de Andrade e Fellini

Cena de "Roma", filme de Federico Fellini. Still: Divulgação.

Informações

  • Data de inicio e término

    15/07/2026 até 26/07/2026

  • Dias da semana e horários

    De quarta a domingo, horários variados

  • Endereço

    Largo Sen. Raul Cardoso, 207 - Vila Clementino

    Ver no mapa
  • Valores

    Entrada gratuita

Mais detalhes

A Cinemateca Brasileira e o Instituto Italiano di Cultura di San Paolo apresentam uma retrospectiva dupla dedicada a Federico Fellini e Joaquim Pedro de Andrade. A mostra propõe aproximar suas obras, explorando afinidades em torno do realismo fantástico e de suas distintas buscas por uma identidade nacional, tanto no plano político quanto no poético.

A programação reúne dois cineastas que, em contextos históricos e culturais distintos, transformaram o cinema em um campo de reflexão sobre a imaginação, a memória e a construção das identidades coletivas.

Federico Fellini (1920–1993), nascido em Rimini, iniciou sua trajetória como roteirista no pós-guerra italiano e rapidamente se tornou uma das figuras centrais do cinema moderno. Partindo do neorrealismo e suas colaborações com Roberto Rossellini, Fellini desloca progressivamente esse paradigma em direção a uma poética própria, na qual o gesto autobiográfico funciona menos como confissão e mais como estratégia formal.

Seu narrador que diz “eu”, frequentemente travestido em alter ego de figuras como Guido ou Marcello, torna-se um dos dispositivos mais eficazes de sua obra. Para o grande público, ele oferece a chave de leitura de um suposto testemunho pessoal contínuo, no qual a subjetividade pareceria garantir uma aura de realidade à mais radical invenção, legitimando incongruências, inverossimilhanças, obsessões e excessos como parte de uma mesma categoria poética. 

Ao mesmo tempo, essa centralidade do “eu” opera de modo ambíguo: Fellini não afirma simplesmente o individualismo, mas o coloca em crise, justamente em um contexto em que a sociedade contemporânea o exalta ao mesmo tempo em que o dilui em um sistema de consumo e imagens onde as vontades se tornam indistintas. Nesse sentido, sua obra parece resgatar o subjetivismo, mas paradoxalmente sem subjetividade estável: o “eu” não se fixa, se multiplica e se dispersa.

 Enquanto isso, no Brasil, Joaquim Pedro de Andrade (1932–1988) surge no contexto do Cinema Novo, movimento que buscava pensar o país a partir de suas contradições sociais, históricas e culturais. Filho do modernista Rodrigo Mello Franco de Andrade, Joaquim Pedro herda também uma tradição intelectual voltada à construção crítica da identidade nacional. Sua obra atravessa diferentes gêneros do cinema brasileiro, do documentário à ficção ensaística, da antropologia à sátira. Em todos eles, o Brasil aparece menos como tema fixo do que como problema em construção: uma identidade atravessada por tensões entre modernidade e tradição, erudição e cultura popular, mito e história.

Entre Fellini e Joaquim Pedro, as aproximações não se dão por influência direta, mas por afinidades estruturais. Ambos tensionam os limites do realismo cinematográfico, transformando o visível em matéria maleável, permeada por fantasia, alegoria e crítica cultural. Aqui, o realismo fantástico pode ser compreendido menos como gênero do que como procedimento: uma forma de tornar visível aquilo que o realismo estrito não consegue conter: o excesso, o sonho, a memória deformada, a história em estado de ficção permanente. O que parece documento se contamina de invenção; o que parece invenção revela uma dimensão histórica concreta. Se Fellini dissolve o neorrealismo em uma poética do imaginário autobiográfico e coletivo, Joaquim Pedro desloca o impulso programático do Cinema Novo para uma reflexão mais ambígua e crítica sobre as imagens do Brasil, onde o popular, o erudito e o histórico convivem em constante fricção.

Há ainda um ponto de contato decisivo na maneira como ambos trabalham a ideia de identidade nacional. Em Fellini, a Itália se apresenta como um teatro de excessos: provinciana e cosmopolita, devota e profana, monumental e grotesca. Em Joaquim Pedro, o Brasil surge como narrativa em disputa, marcada por projetos modernistas, pelo barroco mineiro, pela antropofagia e pelas promessas e fracassos da modernização. Em ambos os casos, a identidade nacional não é essência, mas construção instável, frequentemente irônica e sempre contraditória. 

A retrospectiva apresenta cópias restauradas de alguns dos filmes mais importantes dos dois diretores, oferecendo ao público a oportunidade de revisitar esse diálogo imaginário entre Roma e Rio de Janeiro, entre Rimini e Minas Gerais, entre o delírio autobiográfico e a crítica histórica.

 A programação é gratuita e os ingressos são distribuídos uma hora antes das sessões. Veja a programação completa no website da Cinemateca Brasileira.

  • Acessível para cadeirantes
  • Gratuito
  • Maiores de 12 anos

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