Voltar Exposição
Última modificação agosto 20, 2026

Mostra gratuita revela a infraestrutura invisível da IA

“O Mundo Através da IA” propõe uma reflexão sobre tecnologia, trabalho, meio ambiente e relações de poder

O Mundo Através da IA ”Botannica Tirannica” de Giselle Beiguelman | Foto: Julia Thompson

Informações

  • Data de inicio e término

    06/08/2026 até 29/11/2026

  • Dias da semana e horários

    De terça a sábado, das 9h às 21h | Domingos e feriados, das 9h às 18h

  • Endereço

    R. 24 de Maio, 109 - República, São Paulo

    Ver no mapa

Mais detalhes

Desde que o matemático John McCarthy cunhou o termo “inteligência artificial”, em 1955, a tecnologia passou por profundas transformações e deixou de ocupar apenas os laboratórios de pesquisa. Atualmente, sistemas de IA estão presentes em diferentes setores da sociedade, influenciando a economia, a cultura, a política e os meios de produção.

É justamente esse processo que a exposição “O Mundo Através da IA” investiga no Sesc 24 de Maio, no Centro de São Paulo. Com entrada gratuita, a mostra permanece em cartaz até 29 de novembro e propõe uma leitura histórica e crítica sobre os impactos da inteligência artificial.

Com curadoria do pesquisador Antonio Somaini, professor da Sorbonne e de Harvard, a exposição reúne cerca de 70 obras de 29 artistas de 15 países. Concebida pelo centro de arte parisiense Jeu de Paume, a mostra foi adaptada para São Paulo com a inclusão de sete cápsulas do tempo que abordam diferentes momentos da relação entre tecnologia, sociedade e inteligência artificial no Brasil.

Inteligência artificial além dos algoritmos

Ao longo de oito núcleos temáticos, a exposição questiona a ideia de que a inteligência artificial é uma tecnologia essencialmente virtual. Por trás dos algoritmos existem estruturas físicas, trabalhadores, recursos naturais e relações de poder.

Nesse sentido, a mostra aborda temas como o impacto ambiental da tecnologia, a exploração de trabalhadores responsáveis por tarefas invisibilizadas e as heranças coloniais presentes em sistemas de classificação e reconhecimento visual.

A proposta também procura estabelecer conexões entre acontecimentos históricos e o desenvolvimento contemporâneo da IA. Assim, a exposição convida o público a observar não apenas aquilo que os sistemas tecnológicos conseguem fazer, mas também aquilo que permanece escondido por trás deles.

Tecnologia e relações de poder

O Mundo Através da IA (Le Monde selon l'IA)

“Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500”, de Kate Crawford e Vladan Joler | Foto: Natt Fejfar

Entre os destaques está “Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500”, de Kate Crawford e Vladan Joler. Com 12 metros de extensão, a instalação mapeia relações entre tecnologia, dominação e exploração de recursos ao longo da história.

Outro eixo importante da exposição é o mundo do trabalho. O filme imersivo “Acapulco” (2022-2024), de Bruno Moreschi e Pedro Gallego, investiga profissionais responsáveis por tarefas necessárias para o treinamento e funcionamento de sistemas de inteligência artificial.

A obra também estabelece uma relação com o Amazon Mechanical Turk, plataforma cujo nome faz referência ao famoso autômato do século 18 que simulava jogar xadrez. Na realidade, havia uma pessoa escondida dentro da estrutura responsável pelos movimentos.

Artistas brasileiros ampliam a discussão

A produção brasileira ocupa espaço importante na exposição. Entre os artistas participantes está Giselle Beiguelman, que apresenta duas obras.

Em “Beleza Corrosiva” (2025), a artista aborda os impactos ambientais da tecnologia digital por meio de imagens de equipamentos descartados e paisagens em que natureza e resíduos tecnológicos se misturam.

Já “Botannica Tirannica” (2022) investiga sistemas históricos de classificação da botânica e suas relações com estruturas de dominação, estabelecendo conexões com os mecanismos de classificação utilizados por algoritmos contemporâneos.

Mayara Ferrão apresenta “Álbum de Desesquecimentos” (2024, em curso), trabalho que utiliza inteligência artificial para reconstruir simbolicamente experiências de mulheres negras e originárias que não foram registradas visualmente durante o período colonial.

Também integra a mostra “Culturas Degenerativas: Impacto Ambiental da Inteligência Artificial”, de Cesar & Lois. A instalação utiliza microorganismos que se alimentam de livros relacionados ao desejo humano de controlar a natureza, criando um processo de transformação e corrosão.

A história da IA no Brasil

Uma das particularidades da edição paulistana está nas sete cápsulas do tempo distribuídas pelo percurso. Os espaços foram produzidos especialmente para a exposição por uma equipe curatorial brasileira formada por Giselle Beiguelman, Bruno Moreschi, Gabriel Pereira e Mariana Tamashiro, em diálogo com Antonio Somaini.

As cápsulas apresentam diferentes episódios da história da tecnologia e da inteligência artificial no Brasil, evitando uma narrativa linear de progresso tecnológico.

Uma delas reúne documentos relacionados aos estudos eugenistas realizados entre o século 19 e o início do século 20. O conjunto inclui materiais sobre fisiognomia e antropologia criminal de Raimundo Nina Rodrigues, fotografias de cangaceiros decapitados expostos publicamente e o “Boletim de Eugenia”, de 1929.

A partir desses documentos, a exposição estabelece uma reflexão sobre como antigas formas de classificação dos corpos podem encontrar ecos nos atuais sistemas de reconhecimento visual.

Arte computacional e cultura brasileira

As demais cápsulas percorrem diferentes momentos da relação entre arte e tecnologia no país. A mostra recupera experiências pioneiras da arte computacional brasileira, incluindo trabalhos de Waldemar Cordeiro, referências ao movimento Poema/Processo e produções experimentais dos anos 1980.

O filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser também está presente por meio de documentos de seu arquivo. Além disso, a exposição aborda temas como a taxonomia botânica colonial, o pixo paulistano como sistema de código visual e as experiências de Hercule Florence relacionadas ao desenvolvimento da fotografia.

Dessa maneira, “O Mundo Através da IA” amplia a discussão para além das ferramentas digitais. A exposição mostra como tecnologia, memória, ciência, arte e estruturas de poder estão conectadas e propõe ao público uma reflexão sobre os caminhos que a inteligência artificial está ajudando a construir.

O Mundo Através da IA (Le Monde selon l'IA)

Vídeos na exposição mostram o uso da IA em táticas de guerra | Foto: Natt Fejfar

Artistas presentes na exposição

Agnieszka Kurant (Polônia), Andrea Khôra (França), Bruno Moreschi (Brasil), Cesar & Lois (Brasil/Canadá), Emmanuel Van der Auwera (Bélgica), Érik Bullot (França), Estampa (Argentina), Giselle Beiguelman (Brasil), Grégory Chatonsky (França), Gwenola Wagon (França), Hito Steyerl (Alemanha), Holly Herndon & Mat Dryhurst (EUA/Reino Unido), Inès Sieulle (França), Joan Fontcuberta (Espanha), Julian Charrière (Suíça/Alemanha), Julien Prévieux (França), Kate Crawford (Austrália), Linda Dounia Rebeiz (Senegal), Marcela Magno (Argentina), Mayara Ferrão (Brasil), Meta Office – Lauritz Bohne, Lea Scherer, Edward Zammit (Malta/Alemanha), Nora Al-Badri (Iraque/Alemanha), Nouf Aljowaysir (Arábia Saudita), Pedro Gallego (Brasil), Sasha Stiles (EUA), Trevor Paglen (EUA), Vladan Joler (Sérvia).

  • Acessível para cadeirantes
  • Gratuito
  • Livre para todas as idades

Dados de contato