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Última modificação janeiro 19, 2026

“Dois Patrões” atualiza Commedia Dell’Arte

Comédia dirigida por Giovani Tozi e Neyde Veneziano volta o olhar para a realidade brasileira

Peça Dois Patrões Cena da peça "Dois Patrões". | Foto: Pedro Duarte/Viva A Cidade

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    Escrita originalmente em 1745, “Il servitore di due padroni”, clássico de Carlo Goldoni, ganha uma versão, atualizada pelas mãos de Giovani Tozi.

    Com o título “Dois Patrões”, o espetáculo está em cartaz no Teatro Itália, com direção de Tozi e de Neyde Veneziano, que também assina a tradução do texto original.

    Trata-se de uma peça de commedia dell’arte, gênero de teatro popular na Itália Renascentista. Ele tem como principal característica as narrativas que giram em torno de quiproquós românticos e conflitos entre servos e patrões.

    Como era um gênero comumente apresentado na rua, os atores utilizavam máscaras para se diferenciar dos espectadores, e cada personagem possuía um desenho de máscara específico. Foi assim que surgiram arquétipos famosos da commedia dell’arte, como o servo atrapalhado Arlequim, os enamorados, e o velho ganancioso Pantaleão. Cada ator se especializa em um único tipo de personagem.

    Ainda que tivessem uma história com começo, meio e fim, todas as cenas das peças eram improvisadas. Isso só mudou quando Carlo Goldoni (1707–1793) passou a escrever textos de commedia dell’arte para serem encenados dentro de teatros.

    A primeira peça neste novo modelo foi, justamente, “Il servitore di due padroni” que, por isso, é tida como “a comédia que mudou a história das comédias”.

    Ainda que mantenha os arquétipos fundamentais desse estilo, como o Pantaleão, o Doutor e o Arlequim, Em “Dois Patrões”, a narrativa foi transposta da Itália Renascentista para o Brasil contemporâneo, em um universo que envolve bicheiros e trabalhadores ‘pejotizados’.

    Veneziano justifica a mudança como uma necessidade de adaptar o texto, lembrando que as pessoas já não são mais as mesmas que na Itália do século 18.

    “O jeito de nascer, o jeito de estudar, o jeito de ser criança, o jeito de crescer e formar família ou não, os tipos de famílias de agora são outros. Mudou tudo, o contexto social está totalmente diferente”, diz.

    Isso fez com que Tozi se esforçasse para escrever uma adaptação contemporânea. “Se a gente pensa que a commedia dell’arte vem da rua, uma adaptação hoje só faz sentido se a gente olhar para o outro”, explica Tozi.

    “Se é uma comédia que se baseia na população, nas pessoas que ocupam as ruas, então eu tenho que olhar para o Brasil”, completa

    Nesta versão, o Arlequim de Goldoni se transforma em Tico Sorriso (interpretado por Felipe Hintze). Além de carnavalesco de uma escola de samba de quarta divisão, Tico é um ‘trabalhador PJ’ que acumula empregos para conseguir pagar as contas no fim do mês.

    A história inteira acontece dentro de uma festa de noivado que nunca termina, um ambiente onde todos parecem ser ‘inimigos do fim’.

    Já o Pantaleão (Marcelo Lazzaratto) é um bicheiro que deseja casar a filha para estabilizar (e lucrar com) a divisão de territórios vizinhos.

    Peça Dois Patrões

    Cena da peça “Dois Patrões”. | Foto: Pedro Duarte/Viva A Cidade

    O Doutor (Jonathas Joba) ainda é um advogado, mas agora presta serviço para os bicheiros, que aumentam sua fortuna.

    A história se embaralha de vez quando Beatriz Rasponi (Larissa Ferrara) aparece vestida como o próprio irmão, Frederico, para tentar recuperar o dinheiro que o jovem havia deixado escondido com Pantaleão.

    Tozi foi fiel à estrutura dramatúrgica erguida por Goldoni, mantendo os acontecimentos das cenas.

    “Eu tentei ser muito rigoroso. Fui entendendo o que Goldoni ia fazer de curva na história para ir seguindo ali. Onde não é Goldoni? Onde hoje em dia não dá para o final feliz ser a empregada conseguir um casamento; a namorada, que finalmente alguém quis casar com ela”, explica o roteirista.

    Ele também argumenta que vale a pena apresentar materiais raros e interessantes como a comédia de Goldoni, ao mesmo tempo em que é importante ‘somar’ os avanços da sociedade. 

    Além de ser uma ótima opção de entretenimento, o projeto marca 20 anos de parceria entre Veneziano e Tozi.

    A dupla se conheceu quando a diretora conduzia testes para o elenco de uma montagem de “Arlequim e Seus Dois Patrões”, e Tozi, na época um bailarino e estudante de teatro na Unicamp, se candidatou para um dos papéis. O teste deu certo e Tozi teve sua estreia profissional na montagem, que foi encenada no Hopi Hari, sob a direção de Veneziano.

    SERVIÇO

    Teatro Itália (Edifício Itália)
    Av. Ipiranga, 344 – República
    (11) 5468-8382 | @teatroitalia_oficial
    Sexta e sábado às 20h | Domingo às 18h
    Preços
    Até 01 de março
    Saiba mais
    

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.