“Nós, os Justos” , novo espetáculo da Companhia Colateral, estreia na próxima sexta-feira, 6 de março, no Teatro Itália, na região central.
Escrita e dirigida por Kiko Rieser, a peça mostra o impacto de um rumor sobre a conduta de um funcionário em uma empresa, que desencadeia um processo interno de apuração.
A partir desse episódio de outros boatos que se espalham no ambiente corporativo, o texto trata das consequências deste ‘tribunal’ informal, que contamina relações, decisões e reputações.
Rieser conta que o texto foi escrito originalmente em 2018: “Demorou oito anos para ele ver a luz do dia, e é muito curioso como nada mudou”, afirma.
“Acho até que está mais pertinente hoje do que naquela época, porque a discussão sobre justiçamento avançou”, diz.
Essa característica permitiu que o autor não precisasse fazer grandes alterações no espetáculo.
“A única coisa que mudei foi o conceito de compliance, que não existia em 2018. Eu usava RH [Recursos Humanos], na primeira versão.”
O texto reflete um tempo em que o trânsito instantâneo de informações redesenhou o impacto de casos de justiçamento, criando situações emblemáticas na vida real, em que o desejo de vingança praticamente elimina o direito à defesa.
A encenação reforça essa temática por meio de uma estrutura dramatúrgica que mimetiza um julgamento.
Para Rieser, essa percepção de um tribunal é o cerne da montagem.
“A gente tem a alegoria na peça dos quatro componentes principais do tribunal: o juiz, a acusação, a defesa e a testemunha”, explica.

Cena de “Nós, os Justos”. | Foto: Pedro A. Duarte / Viva a Cidade
Ele diz que a peça nasce desse “caldeirão de emoções genuínas combinadas com a falta de racionalidade”.
Para o diretor, o conflito em situações delicadas surge de um clamor legítimo por justiça, sobretudo em contextos em que as instituições falham. O risco surge quando esse anseio se converte em desejo de punição imediata.
O espetáculo evidencia como, nas ‘guerras de narrativas’ da contemporaneidade, importa menos o lastro com a realidade do que a identificação imediata com a versão mais conveniente da história.
Marco Antônio Pâmio, que interpreta o funcionário responsável pela apuração do caso, aponta semelhanças do texto com a obra do dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936).
“De alguma maneira, ‘Nós, os Justos’ dialoga com uma peça que versa sobre questões como ‘onde está a verdade? E será que a verdade existe?”, que é ‘Assim é (se lhe parece)’ [1917], de [Luigi] Pirandello. ‘Nós, os Justos’ é uma peça pirandelliana, em que a verdade e o conceito de verdade não são absolutos. O diálogo com esse autor se estabelece na essência da dúvida sobre em quem acreditar?”, comenta o ator.

O ator Marco Antônio Pâmio está no elenco da peça. | Foto: Ronaldo Gutierres/Divulgação
Além dele, há outros três atores em cena, mas o espetáculo conta também com a presença ‘invisível’ de um quinto personagem: uma espécie de coro formado pelos demais funcionários da empresa.
Este grupo representa a força coletiva que pressiona, vigia, comenta, julga e exige punições. Mesmo sem aparecerem em cena, são eles que alimentam rumores, vazam informações e mudam de lado conforme a conveniência, atuando como um tribunal informal, que se forma nos corredores e salas para moldar decisões e destinos.
Frente a essa pressão, a funcionária que foi vítima da conduta inapropriada, representa também a angústia das mulheres. Camila dos Anjos, atriz que a interpreta, explica que sua personagem é uma mulher muito reservada, que opta por não fazer uma denúncia formal do caso.
Porém, ela fala sobre o acontecido com uma amiga, que comenta com outras pessoas, e acaba tendo sua intimidade vazada.
“O texto do Kiko foi muito pertinente nesse ponto. Normalmente, as mulheres realmente sofrem essa dupla violência: não basta o que aconteceu, a violência em si, independente da escolha dela de tornar isso público ou não, sempre tem esse olhar de fora, sempre tem esse julgamento”, fala a atriz afirma.

A atriz Camila dos Anjos. | Foto: Ronaldo Gutierrez/Divulgação
Com um ritmo vertiginoso, no qual as cenas avançam cada vez com mais rapidez, parecem surgir mais ‘nós’ nas versões contadas pelas personagens, e o texto deixa que o próprio público tire suas próprias conclusões sobre a situação.
“O que tentamos fazer com a peça é que se possa criar o exercício de empatia por todos esses personagens”, diz Rieser.
“O nosso intuito é fazer as pessoas saírem com a dúvida plantada na cabeça. Espero que sentem à mesa para comer sua pizza e continuem refletindo. Que as pessoas ponderem muito antes de tomar qualquer posição e não reproduzam o comportamento de bando, que vemos diariamente nas redes sociais, em campanhas de cancelamento, que prejudicam todos os envolvidos”, finaliza o diretor.

Cena de “Nós, os Justos”. Foto: Pedro A. Duarte / Viva a Cidade News
SERVIÇO
Teatro Itália Av. Ipiranga, 344 - República @teatroitalia_oficial Sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 19h | Até 26 de abril R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia entrada)
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