Rosto conhecido pelo trabalho em diversos comerciais, novelas e produções para plataformas de streaming, Stephano Matolla, 42 anos, divide-se entre a publicidade, a dramaturgia e a comunicação digital.
Ele pode ser visto na tela do celular, atuando em diferentes ‘novelas verticais’, a nova aposta do mercado audiovisual. Está no elenco de “Chefe, Sua Estagiária É Sua Esposa”, dirigida por Yana Sardenberg, e que tem Ana Beatriz Tavares e Bernardo Mesquita como protagonistas.
Lançado em 23 de dezembro, o microdrama já tem 140 milhões de visualizações no TikTok e está no primeiro lugar do ranking da categoria nessa rede social.
Matolla também atua em “Nosso Horizonte”, produção vertical da plataforma NXPop, feita em parceria com a NXTV.
Na novelinha, que aborda temas como recomeços e segundas chances, ele interpreta Edu, o melhor amigo de Clarissa (Thaís Vaz), a protagonista. O ator fala sobre o personagem neste post. (Leia mais sobre as novelas verticais no fim deste texto).
Isolamento criativo
O ator encontrou o seu lugar no mundo aos 38 anos, quando se mudou definitivamente para São Paulo, depois de viver 21 anos no Rio de Janeiro.
Foi lá que ouviu a frase: “A câmera gosta de você”, da boca de um diretor de fotografia, depois de uma de suas primeiras campanhas.
Mineiro, nascido em Leopoldina (a cerca de 322 km de Belo Horizonte), cidade com pouco mais de 50 mil habitantes, sua primeira experiência profissional foi como estagiário em em agência de publicidade, experiência que o ajudou a definir sua primeira formação.
Concluiu a graduação em Comunicação Social, em 2006, no Centro Universitário Hélio Alonso (UniFacha), na capital fluminense. Depois, fez o curso de formação de atores (2008) na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), na mesma cidade.
Sempre conseguiu conciliar trabalhos nas duas áreas: ainda no Rio, em 2014, foi contratado como comunicador e criador de conteúdo pela empresa Teatros.Art, gestora do Teatro das Artes (Shopping Eldorado), que também comandou o Teatro do Leblon e o Teatro Fashion Mall, fechados na pandemia da Covid-19.
Paralelamente, esteve no elenco de “Malhação – Toda Forma de Amar” (Globo, 2019-2020) e “Orgulho e Paixão” (Globo, 2018), participou de inúmeros comerciais e também participou de catálogos de roupas, como modelo plus size.
Com o isolamento social, trancafiado em um apartamento de 20 m2 na Lagoa Rodrigo de Freitas, começou a escrever “para não enlouquecer”. Com a amiga Regiana Antonini, também atriz, criou o projeto de “Os Barbosa”, sitcom sobre uma família confusa e divertida, com capítulos semanais.

Cena da produção “Os Barbosa”, feita na pandemia (2020-2021). Foto: Reprodução/Instagram
Começaram a gravar as cenas, cada um em sua própria casa, e a transmitir os episódios pela internet, no YouTube. Aos poucos, outros artistas se juntaram a eles, como Eduardo Martini, Ângela Vieira, Totia Meireles e Rafael Zulu, em participações especiais. Uma amostra da série pode ser vista aqui.
“Todo mundo estava fechado em casa e queria fazer alguma coisa. Por conta desse projeto, aprendi a editar vídeos e fiz novos amigos, como o Eduardo, que sugeriu a criação do pai da família Barbosa, que ele mesmo interpretou”, conta Matolla.
Depois, com o fechamento dos teatros cariocas, aceitou a proposta de se mudar para São Paulo para continuar na empresa onde trabalhava.
Novelas verticais
Na capital paulista, bateu na porta de várias agências de elenco, fez muitos testes para propagandas e outras produções, até começar a ser chamado para novos trabalhos.
“Tudo o que eu fiz aqui nesses quase quatro anos, não fiz em 21 anos no Rio. O mercado publicitário me absorveu muito bem”, diz.
Em um dos testes que fez no SBT, conheceu a produtora de elenco Liliane Di Giorgio, que o escalou para sua primeira novela vertical, “Chefe sua Estagiária é sua Esposa”.
Esse minidrama foi produzido pela VRA Production, que tem Vincenzo Richy, galã das novelas “Poliana Moça” (2022-2023) e “As Aventuras de Poliana” (2018-2020), da mesma emissora, como sócio.

Imagem promocional do microdrama “Chefe”. | Foto: Reprodução
Além dessa e “Nosso Horizonte”, o ator participa de outro microdrama, “Meu Chefe, o CEO, me Ama em Segredo”, produzida pela VRA para a plataforma Kwai.
“Há pouco tempo encontrei o Eduardo [Martini], na estreia de uma peça de teatro, e ele falou: ‘nossa, estou vendo que você não para de fazer novela vertical!’. A gente até comentou que, de algum modo, fomos precursores desse estilo, com ‘Os Barbosa’, na pandemia, mesmo ela tendo sido feita na horizontal, que era o formato possível na época”, afirma.
Para dar conta de tudo o que faz, Matolla assume que “não desliga nunca”.
“As pessoas sempre me acham, e eu gosto de responder [mensagens] rápido. Não o tipo que vê um recado e pensa ‘vi, mas vou responder amanhã’, acho mais fácil responder na hora. Também sou uma pessoa muito antenada, quero estar por dentro de tudo. Acho que não adianta a gente se alienar e ficar só na bolha, principalmente por ser um comunicador.”
Ele também afirma que não gosta de rotina e que, por isso, identificou-se tanto com o ritmo paulistano.
“Em São Paulo está a possibilidade de viver de teatro, de viver de arte, uma coisa que no Rio é muito mais difícil. Lá, é complicado ‘cavar’ público, as pessoas têm outras opções de lazer, como a praia. Aqui, independentemente da classe social, muita gente reserva uma parte dos salário para ir ao teatro. Isso é muito legal! Tem ator que trabalha de segunda a segunda e vive com muita dignidade”. explica.
E completa:
“Sou apaixonado com São Paulo: a minha vida se resume em antes de São Paulo e pós São Paulo. A cidade me recebeu muito bem, o mercado é mais aberto, tem oportunidade para todo mundo”, finaliza.
Modelo em alta
Com elenco enxuto, de cerca de 15 atores, episódios de até 60 segundos e poucos capítulos (entre 50 e 90), os microdramas (ou minidramas) são a grande aposta do setor audiovisual em todo o mundo.
Eles surgiram na China entre 2018 e 2020, como séries de vídeos curtos viciantes, e ‘explodiram’ durante a pandemia. Em 2023-2024, a indústria chinesa produziu entre 5.000 e 8.000 mininovelas.
Com conteúdo altamente dramático, que lembra o dos doramas sul-coreanos (K-dramas), baixo orçamento e finais em aberto, foram projetadas para consumo rápido via dispositivos móveis.
Hoje, fazem parte de uma indústria bilionária, que se expande globalmente e já deu origem a aplicativos especializados, como os gringos DramaBox, FlexTV e o ReelShort, líderes do segmento.
Plataformas de vídeos e redes sociais, como o TikTok, também criam suas próprias histórias, feitas por produtoras locais, em diferentes mercados.
O faturamento é baseado em um modelo de ‘micropagamento’: os primeiros episódios são exibidos gratuitamente, para fisgar o espectador, e a liberação dos seguintes é condicionada à assinatura.
Adaptadas à rolagem infinita da tela do smartphone (doomscrolling), seus enredos não escondem clichês, como o da jovem mulher precisando de dinheiro ou o ‘pobre’ homem rico que lutando contra a pressão familiar.
No início de 2025, as produções chinesas começaram a conquistar o público na Inglaterra e nos Estados Unidos, desestabilizando os serviços de streaming tradicionais, como a Netflix.
Meses depois, a estreia foi no mercado brasileiro, com o sucesso mundial “A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário”, exibida exclusivamente pelo ReelShort.
Esse minidrama conta a história de uma mulher que se submete a um casamento forçado para poder quitar as contas médicas de sua mãe. Já no primeiro mês, ultrapassou 300 milhões de visualizações.
O ótimo desempenho se repetiu com “Chefe sua Estagiária é sua Esposa”.
O ‘segredo do sucesso’ das novelas verticais está exatamente no que as diferencia do conteúdo mais comum do TikTok e do Instagram até agora: o roteiro de ficção, a narrativa seriada e uma produção profissional
Além disso, os roteiros são desenvolvidos especialmente para agradar a um público específico: mulheres com idade a partir dos 35 anos, que também consomem novelas turcas e doramas.
Para as produtoras, outro atrativo é o interesse das marcas, que desejam ter papel de destaque nessa tendência. Exemplos são as redes de fast-food Starbucks e KFC, que lançaram histórias relacionadas com seus negócios, testando o potencial do formato.
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