Durante a “Milan Design Week”, enquanto a maioria das marcas compete por atenção com lançamentos e instalações espetaculares, a Prada faz o oposto: reúne pensadores, pesquisadores, artistas e designers em torno de uma mesa para conversar sobre o mundo.
É essa a proposta do “Prada Frames”, simpósio anual criado em 2022 e curado pelo estúdio de design e pesquisa Formafantasma.
Gratuito e aberto ao público mediante agendamento prévio, o evento se posiciona fora da lógica comercial da semana, priorizando ideias em vez de produtos. Nas palavras da própria Miuccia Prada no lançamento: “As conversas sempre estiveram no centro da abordagem da Prada e da nossa investigação sobre o mundo.”
Em sua quinta edição, o “Prada Frames” chega a um dos endereços mais carregados de história de Milão: o complexo de Santa Maria delle Grazie, o mesmo que abriga a pintura “A Última Ceia” (“Il Cenacolo”), de Leonardo da Vinci.
Acredita-se que a Sacrestia, local escolhido para a realização do evento, tenha sido projetada pelo arquiteto Bramante (Donato di Angelo del Pasciuccio) no final do século 15, a pedido do duque Ludovico il Moro, o mesmo mecenas que encomendou o quadro a Leonardo.
Não é um espaço de acesso livre ao público, o que tornava a experiência ainda mais singular.
Veja detalhes do complexo de Santa Maria delle Grazie:
O tema desta edição foi “In Sight”, e o fio condutor foi a imagem: como ela é produzida, como nos afeta e o que significa viver numa cultura onde a representação muitas vezes prevalece sobre os fatos.
Em um momento em que os limites entre imagens criadas por humanos e geradas por algoritmos se tornam cada vez mais difusos, o simpósio trouxe vozes da filosofia, da teoria dos meios digitais e da crítica de design para debater o que realmente enxergamos, e o que acreditamos enxergar.
Foram nove talks, seis visitas performativas pelo complexo e uma sessão noturna especial, ao longo dos três dias.
O talk que vi, “Images, Algorithms, and Perception”, aconteceu numa segunda-feira à tarde, na Sacrestia, ao som da harpa da musicista italiana Elena Cantarutti, que nos recebia na entrada do espaço.
A sessão reuniu três mulheres com perspectivas distintas e complementares. A crítica de design britânica Alice Rawsthorn fez a introdução, contextualizando o tema e o momento atual. Ela é uma das vozes mais respeitadas do setor e defensora do potencial do design para enfrentar desafios sociais e políticos.
Joanna Zylinska, filósofa e artista polonesa radicada em Londres, combina escrita filosófica com prática artística e é autora do livro “The Perception Machine”, publicado pelo MIT Press.
Wendy Hui Kyong Chun, pesquisadora canadense formada em engenharia e literatura, dirige o Digital Democracies Institute, na Simon Fraser University, e investiga como o big data e o machine learning moldam e distorcem a nossa percepção de realidade. Sua apresentação foi provocante e questionadora. Vale muito buscar os trabalhos escritos por ela!
Havia algo de poeticamente irônico em debater inteligência artificial e imagens geradas por algoritmos dentro de uma sacristia do século 15, cheia de afrescos renascentistas nas paredes e armários de madeira entalhada em volta. O passado e o futuro na mesma sala.
Ao final, a Signora Prada garantiu um coquetel de networking no jardim do complexo, novamente ao som da harpa de Elena Cantarutti e com petit fours da Pasticceria Marchesi, histórica confeitaria milanesa que faz parte do grupo Prada.
Público, palestrantes e convidados trocavam ideias ainda com a cabeça cheia das questões levantadas dentro da Sacrestia. Num mundo onde eventos culturais cada vez mais priorizam o visual e o efêmero, o “Prada Frames” lembra que o pensamento também precisa de espaço para acontecer.
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