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Última modificação março 04, 2026

Caso de compliance em empresa é tema de peça

Em cartaz no Teatro Itália, “Nós, os Justos”, da Cia Colateral, aborda justiçamento no mundo corporativo

O elenco de "Nós, os Justos". Foto: Ronaldo Gutierres

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    “Nós, os Justos” , novo espetáculo da Companhia Colateral, estreia na próxima sexta-feira, 6 de março, no Teatro Itália, na região central.

    Escrita e dirigida por Kiko Rieser, a peça mostra o impacto de um rumor sobre a conduta de um funcionário em uma empresa, que desencadeia um processo interno de apuração.

    A partir desse episódio de outros boatos que se espalham no ambiente corporativo, o texto trata das consequências deste ‘tribunal’ informal, que contamina relações, decisões e reputações.

    Rieser conta que o texto foi escrito originalmente em 2018: “Demorou oito anos para ele ver a luz do dia, e é muito curioso como nada mudou”, afirma.

    “Acho até que está mais pertinente hoje do que naquela época, porque a discussão sobre justiçamento avançou”, diz.

    Essa característica permitiu que o autor não precisasse fazer grandes alterações no espetáculo.

    “A única coisa que mudei foi o conceito de compliance, que não existia em 2018. Eu usava RH [Recursos Humanos], na primeira versão.”

    O texto reflete um tempo em que o trânsito instantâneo de informações redesenhou o impacto de casos de justiçamento, criando situações emblemáticas na vida real, em que o desejo de vingança praticamente elimina o direito à defesa.

    A encenação reforça essa temática por meio de uma estrutura dramatúrgica que mimetiza um julgamento.

    Para Rieser, essa percepção de um tribunal é o cerne da montagem.

    “A gente tem a alegoria na peça dos quatro componentes principais do tribunal: o juiz, a acusação, a defesa e a testemunha”, explica.

    Cena de “Nós, os Justos”. | Foto: Pedro A. Duarte / Viva a Cidade

    Ele diz que a peça nasce desse “caldeirão de emoções genuínas combinadas com a falta de racionalidade”.

    Para o diretor, o conflito em situações delicadas surge de um clamor legítimo por justiça, sobretudo em contextos em que as instituições falham. O risco surge quando esse anseio se converte em desejo de punição imediata.

    O espetáculo evidencia como, nas ‘guerras de narrativas’ da contemporaneidade, importa menos o lastro com a realidade do que a identificação imediata com a versão mais conveniente da história.

    Marco Antônio Pâmio, que interpreta o funcionário responsável pela apuração do caso, aponta semelhanças do texto com a obra do dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936).

    “De alguma maneira, ‘Nós, os Justos’ dialoga com uma peça que versa sobre questões como ‘onde está a verdade? E será que a verdade existe?”, que é ‘Assim é (se lhe parece)’ [1917], de [Luigi] Pirandello. ‘Nós, os Justos’ é uma peça pirandelliana, em que a verdade e o conceito de verdade não são absolutos. O diálogo com esse autor se estabelece na essência da dúvida sobre em quem acreditar?”, comenta o ator.

    O ator Marco Antônio Pâmio está no elenco da peça. | Foto: Ronaldo Gutierres/Divulgação

    Além dele, há outros três atores em cena, mas o espetáculo conta também com a presença ‘invisível’ de um quinto personagem: uma espécie de coro formado pelos demais funcionários da empresa.

    Este grupo representa a força coletiva que pressiona, vigia, comenta, julga e exige punições. Mesmo sem aparecerem em cena, são eles que alimentam rumores, vazam informações e mudam de lado conforme a conveniência, atuando como um tribunal informal, que se forma nos corredores e salas para moldar decisões e destinos.

    Frente a essa pressão, a funcionária que foi vítima da conduta inapropriada, representa também a angústia das mulheres. Camila dos Anjos, atriz que a interpreta, explica que sua personagem é uma mulher muito reservada, que opta por não fazer uma denúncia formal do caso.

    Porém, ela fala sobre o acontecido com uma amiga, que comenta com outras pessoas, e acaba tendo sua intimidade vazada.

    “O texto do Kiko foi muito pertinente nesse ponto. Normalmente, as mulheres realmente sofrem essa dupla violência: não basta o que aconteceu, a violência em si, independente da escolha dela de tornar isso público ou não, sempre tem esse olhar de fora, sempre tem esse julgamento”, fala a atriz afirma.

    A atriz Camila dos Anjos. | Foto: Ronaldo Gutierrez/Divulgação

    Com um ritmo vertiginoso, no qual as cenas avançam cada vez com mais rapidez, parecem surgir mais ‘nós’ nas versões contadas pelas personagens, e o texto deixa que o próprio público tire suas próprias conclusões sobre a situação.

    “O que tentamos fazer com a peça é que se possa criar o exercício de empatia por todos esses personagens”, diz Rieser.

    “O nosso intuito é fazer as pessoas saírem com a dúvida plantada na cabeça. Espero que sentem à mesa para comer sua pizza e continuem refletindo. Que as pessoas ponderem muito antes de tomar qualquer posição e não reproduzam o comportamento de bando, que vemos diariamente nas redes sociais, em campanhas de cancelamento, que prejudicam todos os envolvidos”, finaliza o diretor.

    Cena de “Nós, os Justos”. Foto: Pedro A. Duarte / Viva a Cidade News

    SERVIÇO

    Teatro Itália
    Av. Ipiranga, 344 - República
    @teatroitalia_oficial
    Sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 19h | Até 26 de abril
    R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia entrada)

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    Foto de perfil do colaborador Pedro A. Duarte

    Pedro A. Duarte

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    Formado em Jornalismo pela FAAP. Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor Unicamp.